
Troço do que já foi a Calçada de S. Tiago
Sebastião Barros
Era para não escrever mais sobre este assunto, pelo menos por agora. Porém, alguns correspondentes pediram, insistiram, e quem sou eu para recusar? Tanto mais que aqui no blogue lemos tudo o que nos escrevem, procurando sempre ter em conta o que nos parece de considerar. De forma que, farão o favor de desculpar, lá vou repisar coisas, como via mais rápida para justificar novas ideias.
Esta questão da "ligação forte para o Convento" parece-me carecer em absoluto de qualquer base técnica credível. Tudo indica que o autor da ideia aceitou como boa a afirmação de que os turistas que visitam o Convento não descem à cidade por falta de uma ligação convidativa. Ora sucede que, não só muitos visitantes vêm vá abaixo, frequentemente mesmo antes de subirem a colina do Castelo, como faltam estudos adequados junto dos turistas, para confirmar ou desmentir a ideia base.
Tenho para mim, após várias conversas com visitantes de passagem, que o relativo desinteresse dos turistas pela cidade, radica em factores bem diferentes -falta de atractivos, sinalização deficiente, comércio reduzido e banal, ausência de novidade, qualidade, quantidade e preço, restauração média-baixa, atendimento pouco simpático, etc. É claro que são coisas difíceis de admitir, mormente por pessoas cuja principal qualidade não é certamente a elasticidade mental, mas a realidade é o que é. Em vez de persistirem na negação, que tal mandar proceder a um inquérito qualificado junto dos turistas?
Há depois aquele grave erro, ainda não reparado, que afastou da cidade algumas centenas de turistas estrangeiros de elevado poder de compra -o encerramento injustificado do Parque de Campismo, com o pretexto de facilitar as obras do pavilhão desportivo. Por razões conhecidas, os senhores comerciantes e proprietários de restaurantes têm tendência para olvidar esse facto, o que é pena, pois radica aí uma das grandes causas da crise do sector.
Com ou sem estudos adequados, por estes ou por aqueles motivos, sabe-se agora que o realmente pretendido são três colectores em tridente ( Estrada do Convento, Mata, Estrada de Paialvo) com a haste base na Rua da Graça (Av. Cândido Madureira). O resto são tretas técnicas, tendentes a apresentar as coisas sob uma luz nitidamente mais favorável, as quais esqueceram, pelo menos até agora, um problema básico -como obrigar automóveis e autocarros a estacionarem na Várzea Grande, havendo um parque de estacionamento lá em cima? Tencionam acabar com o parque, imitando o que foi feito em Alcobaça? Vai ser difícil. O Mosteiro de Alcobaça fica no centro da cidade, enquanto que o Convento de Cristo está fora da malha urbana, numa zona de muito difícil urbanização.
Par além das deficiências já apontadas, há ainda a péssima opção do percurso pedonal pela Torre da Condessa, que a União Europeia não financiará se não comportar facilidades para menos válidos. Por isso, julgo ser incomparavelmente mais adequado escolher o percurso pelo Portão dos Arcos, mas incluir no projecto a reabilitação da Porta da Almedina e das rampas de acesso, tanto no exterior como no interior. Naturalmente, ambas as portas deverão ser dotadas de comandos à distância, de forma a poderem ser operadas a pedido, após identificação visual dos visitantes, coisa hoje em dia corriqueira.
Sobre a tão evocada "ligação forte entre a cidade e o Convento", uma vez requalificados todos os percursos pedonais (S. Tiago, Cavaleiros, Arcos, Torre da Condessa e Almedina), sejamos corajosos e olhemos para o futuro sem óculos passadistas. A única solução realmente inovadora e susceptível de trazer à cidade os visitantes do Convento, sempre que haja cá em baixo fortes motivos de atracção, o que vai implicar, entre outras coisas, intensa e adequada formação profissional, a única solução inovadora e eficaz será um túnel entre as traseiras dos Paços do Concelho e a Cerrada dos Cães. Insólita e sonhadora? Nem tanto. Afinal são pouco mais de 80 metros em linha recta.
Aqui fica a ideia. A partir de agora vão mas é pensando nisso, que o futuro anuncia-se muito difícil para todos, e não se compadece com hesitações ou cópias daquilo que fazem nas outras cidades. Esse tempo já passou.