
António Rebelo
Tal como os laranjas tomarenses e distritais actualmente "a cavalo" temiam, a máquina partidária cortou Relvas. E substituiu-o por um candidato que joga numa divisão superior. Goste-se dele ou não, Pacheco Pereira é indiscutivelmente mais sólido, mais culto, mais erudito, mais político, na acepção nobre do termo. Com esta substituição, tudo indica que o eixo político distrital do PSD, até agora Tomar-Santarém, passará a ser Rio Maior-Santarém. Com todos os prejuízos daí resultantes.
Ao nível nabantino, Relvas deixa de ter qualquer margem de manobra. Ao menor sobressalto das bases (por exemplo se os resultados não lhe forem favoráveis, e dificilmente o serão) poderá muito bem vir a cair do cavalo. Quanto à equipa autárquica, sem programa nem políticos à altura, dependente da herança paivista e do próprio Paiva, poderá vir a ganhar ainda assim. Mas com este incidente, adeus maioria absoluta. E sem maioria absoluta...
Tudo em aberto, por conseguinte? Não creio. Desde logo porque ainda não apareceu nenhuma formação com um programa realista, exequível e adaptado aos tempos que correm, nem uma equipa politicamente capaz. Depois, havia à partida, diga-se o que se disser, apenas três possíveis vencedores, por esta ordem -PSD, IpT e PS. Sobre o PSD estamos conversados. É o trágico naufrágio, posto que à falta de uma rota clara e previamente debatida, vão encalhando cada vez mais nos escolhos da realidade quotidiana, progressivamente mais afastada dos benditos tempos das vacas gordas. Para pior.
Os IpT, por sua vez, começaram por diminuir as suas hipóteses de vitória, ao perderem elementos chave e ao fazerem escolhas que uma grande parte da população considera não serem as mais convenientes. Como se isso não bastasse, apresentaram um programa cultural, durante uma sessão muito bem interpretada pelo actor principal de serviço, que é simplesmente do domínio da fantasia. Dizem todos os que sabem, ainda que de modo aproximado, a real situaçãodas finanças camarárias. Não dão nem para mandar cantar um cego e pagar-lhe, quanto mais agora para grandes festivais, anuais e bienais. Para já não falar de aldeias pedagógicas...
Resta o PS, em relação ao qual tenho alguma dificuldade em escrever, pois já sei que vou ser acusado de invejoso, mau perdedor, rancoroso, e por aí adiante. Ainda assim, eis o que penso.
Quando me apresentei, no local adequado e a tempo e a horas, como candidato a candidato, foi exactamente por não reconhecer nos outros pretendentes os requisitos que considero mínimos para vir a ocupar o cadeirão do executivo ds Paços do Concelho. O facto de ter obtido 6 votos, correspondentes a 17% do universo eleitoral (a Comissão Política, de 32 membros), quando nem sequer sou militante ou inscrito no partido, mostra pelo menos que não estava nem estou sozinho. Dito isto, meses passados, algumas opções vieram confirmar o que pensava e penso. Assim, por exemplo, Luis Ferreira, o verdadeiro dirigente/estratega do PS local, viu-se obrigado a ocupar o 2º lugar da lista, quando até agora se tem mantido como líder da bancada na AM. Porque terá sido?
Não desejando envenenar ainda mais a atmosfera política local, limito-me a formular perguntas e as respostas que me parecem mais lógicas. Pode o PS conquistar a Câmara? Pode, mas tem poucas hipóteses, porque não domina a maioria das juntas, não dispõe de um programa actual e adequado, nem de um cabeça de lista à altura. Apesar de ser uma pessoa de boa companhia. E depois nem sequer é dirigido "de facto" pelo seu presidente, mas por Luís Ferreira, cuja actuação na Assembleia Municipal, designadamente o acordo com Miguel Relvas para silenciar na prática os outros representantes da oposição, não deixou boas recordações. Pelo contrário. Se ganhar, pode o PS inverter a nossa actual marcha acelerada para o abismo? Creio que não. Por falta de planos adequados e de quem os possa implementar e, sobretudo, explicá-los aos eleitores previamente, o que não será nada fácil, pois ninguém está disposto a abdicar de qualquer vantagem, ainda que pequena ou ilegítima. A inclusão de Anabela Freitas, actual companheira de Luís Ferreira, em lugar elegível para deputada é benéfica para o concelho? De momento não, mas poderá vir a ser, a longo prazo. Porquê? Porque primeiro terá de se habituar ao lugar, conhecer os cantos à casa, arranjar uma "agenda capaz", mostrar o que vale...e conseguir lidar com Jorge Lacão Costa, verdadeiro patrão distrital do PS desde há mais de 20 anos, que não é muito dado a cumprir os acordos livremente celebrados à mesa da federação. Sobretudo quando se trata de listas... É melhor ficar por aqui.
Restam dez dias para "dar o corpo à curva", "adaptar-se à nova realidade", "reforçar a equipa tendo em vista a vitória", e entregar as listas no tribunal da comarca. A partir daí os dados estarão lançados. Restará aguardar Outubro, e o mais que adiante virá e não será nada fácil. Automóvel, combustível, telemóvel, secretária pessoal, ajudas custo, senhas de presença e outras benesses, para cada vereador? Excursões e comezainas para autarcas e séniores? Era bom era! Mas quem pagará? Com as receitas a diminuir e as despesas a aumentar, o futuro é negro.