O meu prezado amigo e conterrâneo Hugo Cristóvão, honrado e promissor presidente do PS local, regressou de uma visita à Rússia. De lá trouxe esta foto, publicada no seu blogue alguresaqui, que tomo a liberdade de reproduzir, com a devia vénia e os meus agradecimentos. Não por qualquer opção ideológica, ou para insinuar que o nosso estimado deputado municipal se está a passar pela calada mais para a esquerda. Apenas para assinalar o caminho já percorrido por muitos cidadãos do centro político da ex-União Soviética, onde o partido/estado tudo decidiu, no seio do comité central, durante setenta anos.
Com o advento da glasnost e da perestroika, que devemos ao corajoso Gorbachov -um genuino produto do sistema- os russos cometeram e continuam a cometer muitos erros, mas têm sabido também adaptar-se rapidamente à vida numa sociedade de livre iniciativa. Em vez de continuarem à espera que seja o partido, o estado ou o poder regional e local a desenvolver a economia, a investir, a criar postos de trabalho (e não empregos!), a gerar riqueza, procuram por todos os meios ao seu alcance cumprir aquele adágio segundo o qual "o caminho faz-se andando". Por toda a parte, há iniciativas particulares tendo em vista ganhar a vida de forma limpa, servindo os turistas, tanto nacionais como estrangeiros, desenvolvendo a economia e gerando valor acrescentado. Além deste recurso aos sósias, sempre vestidos à época e que cobram um preço fixo por cada foto, há também, por exemplo, em todas as igrejas, pequenos conjuntos corais (entre duas e cinco pessoas) que mal vêem entrar os turistas começam a cantar deliciosas melodias tradicionais, sobretudo de índole religiosa, após o que procuram vender os respectivos CD.
Noutros sítios, apesar da evidente falta de experiência, propõem as mais variadas opções. Recordo, como particularmente encantadora, aquela proposta da nossa guia, de um passeio no Volga, naturalmente com os célebres "Barqueiros do Volga" como fundo sonoro. Voltei com entusiasmo aos meus velhos tempos de tour-leader, recolhi as inscrições e o respectivo pagamento, após o que entreguei tudo ao homem do barco. Numa atitude que me desagradou, fez-nos logo passar à frente de mais de 200 outros turistas russos, que pacientemente aguardavam em ordenada fila, trazendo-me à memória os tempos idos, em que os "convidados" do partido eram prioritários por todo o lado. Seguiu-se o passeio de mais de uma hora, que "correu bem", para usar uma corriqueira expressão portuguesa, regra geral usada para mobilar a conversa. Eis senão quando, o tal homem do barco veio dar-me quatro garrafas de espumante da Crimeia (uma região russa), abraçando-me emocionado, "como agradecimento", disse-me a guia russa. O que já antes entendera ao ouvi-lo repetir, com evidente sentimento, spassiva, o obrigado russo...
Já no autocarro, fiz um sorteio de duas das garrafas, que rendeu mais uns rublos para o par guia+motorista, entregando depois uma garrafa a cada um. "Se não tem sido o senhor, isto não tinha corrido nada bem", disse-me um dos companheiros de viagem, a dada altura líder de um grupo que, perante alguma inabilidade da guia, pretendia que fôssemos à embaixada portuguesa solicitar a imediata viagem de regresso a Portugal.
Perante o insólito caso de um grupo de portugueses a conspirar em plena Praça Vermelha, vi as coisas mal paradas, o que me levou a informá-los sobre a minha experiência turística anterior, propondo assumir as funções de tour-leader a título gracioso, assegurando assim as relações entre o grupo e a guia. Assegurei-lhes que, caso as coisas não melhorassem, iria então com eles, não à embaixada, mas ao consulado português, solicitar o imediato repatriamento. Aceitaram de bom grado a proposta, que propiciou alguns dias mais tarde o comentário acima reproduzido, pelo qual me penitencio, dado tratar-se de um evidente caso de imodéstia e auto-elogio.
Tudo isto, incluindo o referido elogio pro domus, para evidenciar e lamentar que aqui em Tomar ainda estejamos na fase das promoções, das festas, dos festivais, dos desdobráveis e das estátuas vivas, tudo pago com dinheiro dos impostos, que tanto falta faz noutros sectores.
O caminho que ainda nos falta percorrer, apesar de não termos vivido 70 anos num regime de partido único, de esquerda! O nosso só durou 48 anos e era, oficialmente, de extrema-direita! O História tem destas coincidências...

