Pouco a pouco, vai-se dissipando o nevoeiro eleitoral, provocado por sete candidaturas, menos diferentes entre si do que à primeira vista possa parecer. A tradicional paisagem tomarense, simultaneamente diferente e igual ao que sempre foi desde o 25 de Abril, é agora muito mais nítida aos olhos do observador atento e experiente. Diferente, pois temos por enquanto uma coligação de jure e de facto, o que ocorre pela terceira vez em 35 anos. Tivemos a AD, o PSD + 1 e agora PSD + PS. Igual ao que sempre foi, dado que nem o PSD, nem o PS, nem os IpT, as três forças representadas no executivo, dispõem de quaisquer projectos tácticos (e ainda menos estratégicos), capazes de alterar a nossa marcha rumo a uma cada vez mais evidente decadência.
Foi portanto num clima de mútuo equívoco que laranjas e rosas resolveram, praticamente de supetão, juntar os trapinhos, oficialmente para quatro anos. O que se compreende. Sabendo-se sem planos nem margem de manobra para mais aventuras megalómanas, os do PSD cuidam ter encontrado no PS quem os ajude a descalçar a bota, quando se tratar de reduzir as despesas ou, em alternativa, de aumentar outra vez a água, as várias taxas e as licenças de obras. Os socialistas, por sua vez, julgam ter conseguido enganar a noiva, ao arrebatar vários lugares mais ou menos lautamente remunerados, nos quais presumem poder vir a fazer boa figura. Tal é a visão exterior das coisas.
Indo mais ao âmago da questão, o PSD pode considerar-se desde já o mais beneficiado com o acordo que assinou, caso não venha a cometer erros em excesso. Com efeito, não só o relatório inspectivo agora revelado os deixa num estado lamentável em termos de credibilidade, mas graças ao PS poderá não ter qualquer efeito negativo a médio prazo, como o facto de não terem planos nem folgas orçamentais para fazer o que quer que seja durante este mandado, os obrigava a encontrar um parceiro de sacrifício. Subscrevendo o acordo sem quaisquer exigências, para além dos já citados lugares, os socialistas limitaram-se, na realidade, a colocar o pescoço no cepo, para a tradicional degola dos inocentes. Não podendo, por falta de recursos humanos e materiais, vir a desenvolver qualquer trabalho de relevo nos seus pelouros, apresentar-se-ão ao eleitorado, mais cedo ou mais tarde, tão queimados como os seus comparsas da coligação. E sem qualquer hipótese de cabal justificação do erro cometido no início do mandato. As cadelas apressadas...
Nestas condições, se quiserem e souberem, os IpT poderão vir a ser a única alternativa com peso aquando da próxima consulta eleitoral. Por agora bastar-lhes-á recorrer menos às declarações de voto e mais à cabal e contínua informação dos cidadãos, sobre tudo aquilo que acontece, tanto no executivo como no deliberativo.
A única esperança real do PS eram as alterações ao PDM, no sentido daquilo que vêm apregoando há mais de um ano. Infelizmente para eles, o seu próprio partido acaba de promulgar, a nível nacional, legislação que na prática torna inviável qualquer manigância ou alteração menos ortodoxa, ao sobrepor-se à regulamentação local. Azar das nossas tropas !
Sendo assim, e tudo indica que é, deixa de ter qualquer utilidade prática a guerrilha já iniciada pelos recém-casados contra os IpT, designadamente na Junta de Freguesia de S. João Baptista. Afinal, os independentes de Pedro Marques não têm culpa nenhuma se os socialistas, num momento crucial, foram incapazes de vislumbrar algo para além da ponta do nariz. O poder deslumbra os incautos.
