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domingo, 7 de fevereiro de 2010

SALVAR A JANELA DO CAPÍTULO - CONTINUAÇÃO

Três cidadãos se pronunciaram até agora, na imprensa local, a favor da quanto a nós supérflua, perigosa e prejudicial limpeza/lavagem da Janela do Capítulo -Iria Caetano, Carlos Veloso e Rui Bernardino, por esta ordem. Enquanto Iria Caetano, actual directora do Convento de Cristo foi extremamente correcta e cordata, como aliás era de esperar, os outros dois nem tanto assim. Ambos procuraram desacreditar os signatários do apelo contra a anunciada acção de limpeza/lavagem, apelidando-os de ignorantes, de retrógrados e outros mimos. Carlos Veloso foi até mais longe. Tresleu uma resposta mais acutilante e, partindo daí, mostrou-se agastado e ameaçou com a justiça. À boa maneira da província portuguesa. É sobretudo para eles, todos produto das universidades portuguesas, com tudo o que isso implica, a tradução seguinte:
RESTAURO DO PATRIMÓNIO - A LIÇÃO DO HOTEL LAMBERT
O restauro, em conformidade com as regras da arte, de um monumento histórico para habitação, é uma aventura delicada. Acrescentar o conforto último grito a um edifício classificado, pode pôr em causa a sua integridade patrimonial. Apagar os sinais da história para restabelecer um suposto aspecto inicial da construção, é contra a Carta de Veneza, adoptada pela UNESCO em 1964, a qual preconiza que se conservem todos os indícios de evolução. O caso do parisiense Hotel Lambert acaba de trazer para a ribalta da opinião pública, de maneira gritante, todas estas problemáticas.
As obras previstas para esta jóia do século XVII, edificada na proa da Ilha de São Luís, por Louis le Vau -o mesmo que ampliou Versalhes- para Jean-Baptiste Lambert, secretário de Luis XIII, foram muito contestadas desde o início. Após doze meses de polémica e um julgamento do Tribunal Administrativo de Paris, que anulou a autorização ministerial, o assunto foi resolvido com um compromisso entre as partes. Um caso exemplar, que indica claramente os limites de intervenção sobre um edifício classificado como monumento histórico.
Rememoremos os factos. O protocolo de acordo, assinado em 22 de Janeiro, entre o Ministério da Cultura, a Câmara de Paris, o proprietário do edifício em causa, representado pelo Cheique Hamad Al-Thani, afilhado do Emir do Qatar, e a Associação Paris Histórica, soluciona o contencioso. O projecto inicial de reabilitação, que propunha um retorno ao aspecto suposto do século XVII, com uma ultra modernização do conforto interior, foi considerado demasiado violento, e seriamente emendado.
Os detalhes do compromisso conseguido são bastante reveladores. O proprietário renunciou ao parque subterrâneo e ao ascensor para automóveis debaixo do pátio de honra. As condutas técnicas serão colocadas sob o sobrado, de forma a não afectar a decoração -alguma assinada Le Brun e Le Sueur. O gabinete estilo século XVII, com o tecto historiado, manterá a chaminé. Não será transformado em casa de banho... mas passará a ter um ascensor para o subsolo.
A galeria neogótica de Jean- Baptiste Lassus, acrescentada no século XIX pelo príncipe Czartoryski e onde se reunia o Paris romântico, com Chopin e Delacroix, será mantida com o aspecto actual. O parapeito do jardim suspenso, que sublinha a curva do rio Sena, não será modificado. Finalmente, menos de 10% das pedras da fachada serão substituídas, e não 40% como estava previsto.
Tudo começara sob os melhores auspícios. Em Julho de 2007, o barão Guy de Rothschild, que habitava o edifício há mais de trinta anos, vendeu-o ao irmão do Emir do Qatar, que consta ser grande admirador da arte francesa. O novo proprietário mostrou-se logo disposto a custear um restauro exemplar, o qual poderia atingir 40 milhões de euros.

Perante a envergadura das obras propostas pelo arquitecto-chefe dos monumentos históricos, a "Comission du Vieux Paris", uma comissão municipal que existe há mais de cem anos, emitiu um parecer desfavorável. Alertado, Bertrand Delanoë, presidente da Câmara de Paris, deu a conhecer as suas reservas. Christine Albanel, na altura ministra da cultura, aceita o projecto, com modificações. Estas são consideradas insuficientes pela associação Paris Histórica, que recorre aos tribunais e obtém satisfação...e assim sucessivamente, até ao compromisso actual.
Os especialistas do património estiveram na primeira linha da contestação, secundados por sumidades das artes e das letras, bem como pelos cidadãos comuns, até conseguirem vencer. A mobilização popular, de todas as origens, conseguiu oito mil assinaturas numa petição. Do simples cidadão até membros da Academia Francesa e a Michèle Morgan, artista famosa que outrora morou no Hotel Lambert, conforme repetem todos os dias os altofalantes dos "Bateaux-Mouches". Pela sua situação, em varanda sobre o Sena, esta obra-prima do Grand-siècle é muito querida dos parisienses..."
Florence Evin, Le Monde, Service Culture f.evin@lemonde.fr
Selecção, tradução e adaptação de António Rebelo (O texto original conta mais quatro parágrafos, que se referem a outra matéria no âmbito do património. O documento pode ser lido integralmente em lemonde.fr)

Os negritos e as imagens são de Tomar a dianteira.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

MAIS MONUMENTOS A AGUARDAR LAVAGEM - 2

Serenem os leitores que continuam a ter pachorra para nos ler, a quem a gradecimemos. Não daremos mais exemplos de património degradado. A não ser que...Mas só nesse caso. Prometido.
Desta vez, Tomar a dianteira foi até ao Camboja, mais precisamente a Siem Rap e aos Templos de Angkor. Património da Humanidade, são mais de duas centenas, mais de metade dos quais ainda estão perdidos na selva. Datam do Império Kmer. Foram construídos nos séculos VII e VIII da nossa era. Depois foram abandonados e praticamente desapareceram na vegetação luxuriante. Fora redescobertos pelos franceses, já no século XX. Trabalham ali três grandes missões arqueológicas -uma americana, uma francesa e uma japonesa.
Neste primeiro exemplo, o monumento foi cuidadosamente limpo, sem recurso a qualquer meio mecânico. Dado que a vegetação era pouca e de muito pequeno porte, a edificação foi adquirindo os sinais da sua provecta idade, sem exagero.
Outro monumento da mesma época, que não teve a sorte de ser protegido pela vegetação, ao que nos disse o guia, devido à composição particular do terreno. Naturalmente, ninguém pensa em limpá-lo a jacto de areia. Era o que faltava. Os monges budistas que por ali andam não consentiriam essa nefanda cedência ao "progresso".

Um terceiro exemplo dos muitos monumentos daquela zona que foram redescobertos demasiado tarde. Neste caso já não há limpeza ou lavagem a jacto de areira que lhe possa valer. A própria árvore já faz parte do património. É assim a natureza. Recupera os seus domínios logo que possível...