Assisti, via Rádio Hertz, à primeira parte da sessão extraordinária da Assembleia Municipal de hoje. Foi uma longuíssima tarefa nada agradável. Discutia-se a adesão do município ao PAEL, um empréstimo a 4,15% para pagamento de algumas dívidas a fornecedores com mais de 90 dias, nesta altura num montante total superior a cinco milhões. Estavam na sala 37 membros da AM, bem como os membros do executivo, à excepção de Luis Ferreira. Notava-se também a ausência do presidente Miguel Relvas, censurado na sessão anterior, nomeadamente por faltar amiúde.
Começou a justa oratória e cedo se percebeu que havia por ali intervenientes que melhor fora ficarem calados. A bem dizer e para não ofender ninguém, excepto uma dúzia de deputados, sobretudo da oposição, ninguém mais cumpre os mínimos olímpicos. Nem em capacidade oratória, nem em verniz cívico, nem em recursos políticos. Ao longo de três horas e meia trocaram-se e voltaram a trocar-se argumentos já conhecidos, com o presidente Carrão num esforço inglório para virar o previsível resultado final. Houve esclarecimentos, direitos de resposta, afirmações descabidas, acusações deslocadas, tudo a evidenciar susceptibilidades à flor da pele, rancores antigos e feitios comichosos.
Ao cabo de mais de 210 minutos de paleio, por vezes a voar muito baixinho, como o crocodilo da anedota, a mesa contou os presentes, tendo constatado a chamada frontalidade tomarense. Na sala já só restavam 28 deputados municipais. O que significa que nove outros haviam entretanto recorrido de alguma maneira à chamada "mijadela diplomática", muito útil, adequada e conveniente em certos casos, como meio de evitar futuras retaliações. Feita a votação, houve 15 a favor e 13 contra, pelo que a candidatura foi rejeitada, pois necessitava de maioria simples = 19 votos a favor.
Venceu a oposição unida, porém de forma tremida, tendo em conta as 9 ausências deliberadas. Ainda assim, vingou a opção PS/IpT, cujo objectivo é óbvio: dificultar ao máximo a governação municipal, impedindo nomeadamente o pagamento das dívidas a fornecedores, habituais fontes de votos e de financiamento de campanhas eleitorais. Perdeu o PSD, que agora terá de encontrar outros atalhos para atingir a mesma meta. Perdeu também e sobretudo o vereador Vitorino, cuja anterior desobediência à disciplina de voto foi afinal em vão. Além de se ter assim incompatibilizado com a actual direcção colectiva dos socialistas locais, o ex-social democrata, que virou socialista em 2005, constatou hoje na AM o seu isolamento no partido, que pode bem significar o fim da sua carreira política. Com efeito, apenas lhe resta agora a hipótese de regressar à origem, onde decerto nunca lhe darão a liderança da futura lista autárquica, sendo porém evidente que não está em posição de poder aceitar lugares subalternos. Mas Alá é grande e Maomé o seu profeta...
O ponto 2 da ordem de trabalhos era sobre a reforma administrativa, mas confesso que me faltou a pachorra e resolvi ir arejar as ideias. Tudo tem um limite.



