Toda a oposição portuguesa -e até Belmiro de Azevedo e Bagão Félix, que não passam por esquerdistas- rejubilaram com o recente recuo do governo na sua intenção de alterar a repartição dos descontos obrigatórios (vulgo TSU), no sentido de reduzir os custos de produção, como forma de favorecer as exportações. Para não mencionar o professor António Borges, que congregou o opróbio generalizado, ao dizer alto e bom som aquilo que todos os economistas pensam baixinho: que os empresários portugueses são em general ignorantes em matéria de economia política.
Menos de um mês depois, o socialista François Hollande, a grande esperança dos que garantem que "há outro caminho" e que lidera um governo e uma maioria de esquerda, está em vias de proceder exactamente como tencionava fazer Passos Coelho, se a oposição o não tivesse impedido. Nestas condições, parece legítimo perguntar: O celebrado recuo do governo não será apenas uma vitória pírrica da oposição? Assim a modos que mais um tiro que lhes saiu pela culatra?
"Empresas: vem aí uma redução dos descontos obrigatórios" (Equivalentes à nossa TSU)
"Custo do trabalho: o que prepara o Eliseu" (Sede da Presidência da República). "François Hollande prepara uma redução importante, mas repartida em cinco anos, dos descontos obrigatórios das empresas" (Equivalente à TSU paga pelos patrões portugueses).
Pelo sim, pelo não, segue-se a tradução de dois excertos que fornecem informação importante para a compreensão do que está em jogo no caso da redução da TSU patronal, a adoptar pelo governo socialista francês, que visa aliviar os custos de produção na ordem dos 8 a 10 mil milhões de euros anuais, nos próximos cinco anos.
"O choque da competitividade divide os economistas"
"A ideia de um choque de competitividade é geralmente defendida pelos adeptos de uma política da oferta, que integram tanto as fileiras dos economistas liberais como as dos neokeynesianos. Estamos a falar de quê? Da transferência dos descontos sociais obrigatórios das empresas, para lhes permitir um reajustamento dos preços, de forma a recuperar competitividade. Quanto mais importante for o choque, mais relançará o crescimento económico e o emprego.
O "Instituto da empresa", que é um think tank patronal, advogou a necessidade de tal choque num relatório de Janeiro de 2012. O "Círculo dos economistas", no Encontro económico d'Aix-en-Provence, em Julho passado, também se pronunciou a favor de uma redução importante dos descontos do patronato para a TSU.
"Um choque de oferta [ou de competitividade], explica o economista Philippe Aghion, assemelha-se a uma desvalorização real da moeda, com todos os seus efeitos virtuosos em economia aberta. Faculta às empresas a possibilidade de restabelecer as suas margens de lucro, a redução de preços e o investimento em investigação e desenvolvimento, assim estimulando a procura de produtos franceses. E os seus efeitos negativos são bem menos depressivos, ou mesmomenos recessivos do que o anunciado choque fiscal para conseguir o défice de 3% do PIB em 2013.
Para este especialista neokeynesiano do crescimento económico, uma tal decisão política será um sinal positivo dirigido aos empresários. Mas cuidado, acrescenta. Procurando diluir no tempo o choque de competitividade, há o risco de se perder uma parte dos efeitos favoráveis...
Quanto aos keynesianos tradicionais, continuam mais virados para a ajuda à procura interna (consumo das famílias e investimento das empresas). Tal como o ministro da economia e das finanças, Pierre Moscovici, que explicou a sua posição no Le Monde de 1 de Outubro: "O que leva os empresários a investir não são só as margens de lucro ou as vantagens fiscais; são sobretudo os seus mercados e os seus clientes. Não vamos cair num keynesianismo arcaico, mas a nossa economia avança sobre os seus dois pés: estimulando a oferta e a procura. Keynes dizia e dizia bem que a procura precede a oferta. Por isso, o orçamento de estado preserva em simultâneo o consumo e a capacidade do nosso aparelho produtivo. O pacote da competitividade virá depois e dele temos uma visão ampla que não se limita ao custo do trabalho."
Pronunciando-se a favor de uma redução importante da TSU patronal diluída no tempo, o presidente Hollande arrisca-se a provocar descontentamento em ambos os campos."
Claire Guélard, Le Monde, 04/10/2012, página 7
"Duas noções distintas para avaliar a competitividade"
"Na doutrina económica, a avaliação da competitividade depende de dois aspectos distintos: competitividade-custo e competitividade-fora custo. A primeira é determinada em função dos custos salariais de um determinado país, em comparação com os outros. A segunda abarca todos os factores económicos que possam ter impacto sobre os custos de produção, como por exemplo a capacidade de inovação, infra-estruturas modernas ou administração pública eficiente.
Tradicionalmente, a esquerda concorda que a França tem um problema de competitividade -os 70 mil milhões de euros de défice da balança comercial aí estão para o provar- mas situa-o mais nas dificuldades de inovação das empresas, portanto na área da competitividade-fora custo, do que na esfera do custo do trabalho."