quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Confirmação de uma evidência

Foto vamosporaqui.blogspot.com

Em declarações que a Rádio Hertz insere numa notícia classificada como "em primeira mão", Anabela Freitas assume uma evidência. Que será a cabeça de lista do PS nas próximas autárquicas. Falta apenas uma formalidade para tornar oficial aquilo que aqui se noticiou já há duas semanas: o conclave socialista marcado para o próximo dia 24, na cafetaria do Convento de Cristo, durante o qual os membros presentes da Comissão Política local (trinta e poucos, no total), carimbarão o já antes decidido alhures.
Seguir-se-ão dez longos meses de assadura em lume nem sempre brando. Porque pela primeira vez, nesta terra de algum marialvismo encapotado, uma mulher ousa... Porque a crise está para durar e piorar...porque a situação local é a miséria física e intelectual que se vê...porque é a companheira de Luís Ferreira...porque não provém da "boa sociedade" nabantina...porque é socialista... Tudo em surdina, como convém. Por vezes até com aplausos ostensivos, para disfarçar. Reina a hipocrisia, como sempre por estas bandas.
Vai necessitar de muita coragem e perseverança para conseguir resistir mais ou menos incólume a ventos tão agrestes, que até já derrubaram outros. Conseguirá? A ver vamos.
Falta a pergunta sacramental nestas coisas: será capaz de vencer? A esta distância é impossível responder com um mínimo de fiabilidade. Apenas se pode avançar que tudo vai ser condicionado por múltiplos factores, uns que dependem dela e do PS, outros dos adversários. Entre aqueles avultam os dois fundamentais: 1 - O programa; 2 - Os parceiros de lista. Ambos tendo em conta, como não pode deixar de ser, a situação de catástrofe concelhia em que nos encontramos e para a qual não se vislumbra qualquer solução. No que concerne aos adversários, é óbvio que tudo está nas mãos dos dirigentes locais do PSD.
Carbonizados a nível nacional, por terem a coragem e o patriotismo de implementar medidas inadiáveis, impostas pela troika mas também pela evolução da sociedade, os governantes PSD estão igualmente queimados e requeimados no vale do Nabão, neste caso pelas razões opostas: fizeram e voltaram a fazer o que não deviam, onde não deviam, quando não deviam. Situação irremediável? Neste mundo tudo tem remédio menos a morte. E não consta que o actual executivo já tenha esticado o pernil, apesar de há muito estar em estado comatoso.
Se conseguirem arranjar um candidato com evidente pedalada para a bicicleta municipal no estado em que se encontra, ainda não chamuscado pelas nefastas políticas dos últimos quinze anos; se conseguirem congregar na lista outros valores locais; se o candidato escolhido estiver disposto a dar o peito às balas, por não necessitar de fazer carreira nem de outras benesses; se apresentarem um projecto legível, credível e implementável no actual contexto; então tudo ainda é possível, a vitória provável e serão uns heróis bestiais. Caso contrário, serão logo apelidados de bestas.

PS
Fala-se por aí num empresário tomarense retirado, há décadas fora de Tomar, como uma excelente hipótese. Não tendo o prazer de conhecer o senhor, quer-me parecer que só se estará a pôr a jeito porque não tem uma ideia fundamentada do estado a que isto chegou. O tempo do caciquismo tipo meia bola e força já passou há muito. Essa do "cheguei, vi e venci" sucedeu com o César na Gália, mas já foi há mais de vinte séculos. 

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Turismo para chorar

Na sequência da novidade israelita, apresentada no texto anterior, impõe-se algo na mesma linha de inovação. Tanto mais que a iniciativa antes relatada acontece na área de Ascalona (Ashkelon) onde combateu a cavalo o nosso Gualdim, antes de vir fundar o castelo "por nome Thomar", que séculos depois mais tarde lhe valeu uma estátua a pé. Uns ingratos estes tomarenses. Ou simplesmente sem dinheiro para o cavalo e outras cavalarias?
Seja qual for a resposta, a melhor homenagem ao primeiro tomarense será, creio eu, desenvolver um projecto susceptível de gerar mais-valia, sem contar com subsídios do Estado ou da autarquia, dado que ele também não contou com qualquer ajuda da coroa em matéria de coroas, pelo menos que se saiba.
Tendo em conta a fase difícil que atravessamos, impõe-se um pacote de uma tarde, com início numa visita guiada ao acampamento cigano do Flecheiro e respectivas instalações sanitárias. Seguir-se-à um circuito pedestre pelos malogrados museus da Levada, com passagem pelo paredão-mijatório. Após uma panorâmica para apreciar as algas e os patos nabantinos, mais um circuito turístico, agora no conjunto Convento de Santa Iria/Colégio Feminino, também condenados ao desaparecimento, tal como a aldeia cigana. Só não se sabe é quando. 
Dali iremos ao Bairro 1º de Maio, onde deambularemos para apreciar alguns quintais e casas abandonadas, apesar de propriedade da autarquia. No regresso à cidade antiga, passagem pelo ex-estádio, único caso conhecido em Portugal, de uma empreitada de milhões para transformar um estádio com bancadas e balneários, num campo de treinos sem uma coisa nem outra. Haverá também uma referência para o Pavilhão Municipal e respectivo parque de estacionamento, ambos com muito reduzida utilização, um devido a erros de concepção, outro a erros de localização. Sem esquecer a casinha transparente do Mouchão, que no próximo mandato, e com a ajuda do vigário geral de Tomar, poderá vir a ser transformada numa capela dedicada a nossa senhora da asneira, visto que ainda ninguém conseguiu descobrir para que serve.
O passeio terminará na Casa das Ratas, com morcela de arroz, caracóis e muitos tintóis. Tudo para secar as lágrimas e afogar desgostos, que tristezas não pagam dívidas.
E a visita ao Convento?! Fica para melhor oportunidade, que aquilo parece estar a transformar-se pouco a pouco numa coutada de quem dirige e lá habita. A democracia também tem quistos, uns mais malignos que outros... 

Turismo de assustar

Por estes lados, temos sido prendados ultimamente com várias manifestações de índole turística. À cabeça, além naturalmente das visitas e outro folclore caseiro, os congressos. Turismo Cultural, Turismo Religioso, Turismo Lusófono, tudo é pretexto para reunir, comer, visitar e dissertar. Mas o turismo, como o próprio vocábulo indica, consiste em voltear e o seu interesse principal radica no valor acrescentado que permite gerar.
Nos países latinos (como o nosso) e árabes, mais dados à ostentação e ao espavento, pouco importa se as visitas dão lucro ou prejuízo. O que interessa é que os forasteiros fiquem de boca aberta com as nossas maravilhas de toda a ordem. Donde manifestações promocionais e outras coisas mais, quase (???) sempre à custa do orçamento. Mas nem todos pensam assim por esse mundo fora. Mesmo nas regiões menos hospitaleiras e mais desprovidas de recursos. Ora façam favor de ler com calma a crónica seguinte. Prometo que vale a pena.


"Gostaram de Majdal Shams e do seu Monte dos Berros, na linha de alturas do Golan, entre Israel e a Síria, onde as famílias druzas, separadas pela barreira de arame farpado, conversam por megafone? Então vão adorar Netiv Ha'asara, um mochav (cooperativa agrícola) encostado ao muro de separação com Gaza, outro sítio improvável do chamado "turismo de assustar"... com fronteiras!
O inventor do conceito foi o arquitecto Zvi Pasternak. Tudo começou há dois anos, quando o governo israelita lhe solicitou um estudo sobre os meios para desenvolver o turismo em ambientes excêntricos e singulares. Provido de um "modelo de desenvolvimento turístico" e do seu anexim multivalente "se Deus te deu um limão, transforma-o em limonada", ei-lo a trabalhar na fronteira com a Faixa de Gaza, em princípio a antítese de qualquer destino de excursões mas, segundo nos disse, "aí é que está o interesse".
Chama-lhe "tourism to the edge", algo como "turismo extremo". O seu modelo é simples: A fronteira com Gaza, o muro de separação,  os palestinianos a disparar foguetes contra aldeias israelitas, os calafrios que provoca toda esta zona de alto risco, são de alguma maneira as "atracções" locais que devem servir para chamar os visitantes. Tudo promovido por uma modesta campanha publicitária à escala nacional. "Tem havido turistas por estes lados, esclarece-nos Pasternak. Sobretudo judeus americanos e israelitas de Tel-Aviv. Milhares deles vêm ver Gaza de perto, mas param só vinte minutos. Vamos arranjar motivos para ficarem mais tempo".
Ifat Ben-Shoshan faz parte da comissão de turismo do mochav. Olha-se para ela e pensa-se que se calhar sonha com uma pequena cidade tranquila, no centro de Israel, onde os seus filhos perdessem o reflexo condicionado de correr para o abrigo doméstico em betão, no tempo regulamentar de 15 segundo, logo que soa um alerta -por aqui chamam-lhe um "sinal vermelho"- para assinalar o disparo de mais um foguete palestiniano contra a aldeia. E na verdade Ifat já se podia ter ido embora. Mas acha que Netiv Ha'asara é um local "único", "uma comunidade onde as pessoas são realmente solidárias", mesmo se a vida é por vezes mais complicada do que noutros sítios.
Tem razão: na semana de 24 a 30 de Outubro, cerca de 80 granadas de foguete caíram nos distritos de Eshkol e Hof Ashkelon, na fronteira com Gaza, entre os quais cerca de vinte na área do mochav.
Deste lado da fronteira, mais barulho e medo que outra coisa: três trabalhadores tailandeses feridos, quatro edifícios com estragos. Do outro lado, em Gaza, houve cinco mortos e um número indeterminado de feridos, consequência do bombardeamento israelita de represália.
Ifat vive na casa mais próxima (cerca de 30 metros) do muro de betão, decorado nalguns sectores com pinturas de dunas e céu azul. Garantiu-nos que, "contrariamente aos meus vizinhos, não tenho medo. É melhor educar crianças aqui do que em Tel Aviv. A envolvência é mais agradável, estamos próximos do mar e os períodos calmos são muito mais frequentes do que se diz. E para mais, pago pela minha casa mil euros por mês, quando em Tel Aviv era obrigada a pagar o triplo".
Quanto à paisagem da zona, para a apreciar devidamente, o melhor é fazer uma visita guiada pelo pai de Ifat, o coronel aposentado Nitsan Ben-Shoshan. O muro de betão, de nove metros de altura, serve apenas para proteger a aldeia contra os disparos directos. Acaba logo mais adiante, substituído até ao mar por uma barreira de arame farpado. Dentro de seis meses já existirá uma plataforma para observação, com capacidade para cinquenta pessoas, bem como alguns alojamentos rurais. O panorama é espectacular. À esquerda, o barracão do check-point israelita de Eretz, o único acesso a Gaza para os visitantes. Instaladas em altos postes, web-cameras vigiam à volta, tal como o balão atmosférico, imóvel sobre a Faixa de Gaza. Nesta horrível torre de betão onde estamos, há um radar de alerta avançado: logo que soa uma "cor vermelha", um sinal de alarme é difundido por alto-falantes nas aldeias limítrofes.
O nosso guia aponta uma outra torre em cima do muro, virada para Gaza. É o sistema "See-shoot" "disparar sobre tudo o que mexe". Uma metralhadora que uma vez activada dispara automaticamente sobre tudo o que mexe. Em Gaza, os rapazes que se aventuram com burros nos escombros provocados pelos bombardeamentos da operação israelita "Chumbo endurecido", para recuperar metais, já foram várias vezes alvejados. Mais adiante, vêem-se as aldeias de Beit Hanoun e Beit Lahiya, bem como os edifícios da cidade de Gaza.
Zvi Pasternak e os membros da comissão de turismo  visitaram as 70 quintas e falaram com os mil habitantes do mochav. Perguntaram a cada um qual a contribuição prática que poderá dar em prol da dinamização do turismo local. Mas se Tzameret Zamir já abriu uma olaria, não foi só para o turismo, mas igualmente para acalmar as crianças. Nada de ilusões! "Por vezes é muito difícil; tenho ganas de ir embora, de largar tudo; mas vontade de ficar, porque aqui é a nossa casa, e isso é que conta."
Em Netiv Has'asara, o circuito turístico passa pelo "caminho para a paz", uma inscrição de letras gigantes em pleno muro de separação, que são pouco a pouco decoradas com azulejos pintados pelas crianças da aldeia. Os turistas são convidados a juntar-se ao projecto "com a esperança de que um dia o nosso desejo colectivo de uma vida de paz e de tranquilidade se realizará."
Esperança? Entre Janeiro e Outubro deste ano foram mortos 67 palestinianos de Gaza, contra 108 em 2011. Quanto aos feridos, os totais respectivos são 277 e 467.

Laurent Zecchini, Lettre do Proche-Orient, Le Monde, 11/11/2012, página 23

E venham mais congressos de turismo. Enquanto ainda há dinheiro para folias.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Um sonho que durou pouco

 EL PAÍS, Negócios, 11/11/2012, página 6
"Primeiro Plano.
"Os canhões apontam para Paris. Alemanha, Bruxelas e as instituições internacionais avisam a França que, sem reformas, pode vir a ser a próxima pedra do dominó da crise."

EL PAÍS, Negócios, 11/11/2012, página 8
"Pierre Moscovici, ministro das finanças francês: 
"Sei que todos querem que façamos reformas. Vamos fazê-las."

Compreensivelmente, os socialistas portugueses, arredados do poder por indecência de execução, rejubilaram com a vitória do socialista francês François Hollande, na eleição presidencial. Consideraram que iria fazer a demonstração de que há outro caminho, diferente da austeridade e das reformas estruturais. Infelizmente para todos, seis meses mais tarde constata-se que o sonho durou pouco. Estes dois recortes do espanhol EL PAÍS, geralmente considerado da esquerda rigorosa, são assaz elucidativos. A França tem de actuar quanto antes na área da economia e finanças, sob pena de vir a enfrentar um resgate semelhante aos já em vigor na zona euro, designadamente o português.
Se dúvidas subsistem ainda, nomeadamente no que concerne ao prezado conterrâneo Luís Ferreira, eis o que noticia o insuspeito LE MONDE de ontem:

"Berlim manifesta inquietação com a "falta de acção" de François Hollande"

"O ministro das finanças alemão terá solicitado um relatório sobre as reformas estruturais a implementar em França"

 "Já havia na diplomacia os "non-papers", documentos sem existência oficial que explicam em "off" o ponto de vista governamental. O ministro das finanças alemão acaba talvez de inventar o "não-pedido".
De acordo com um artigo publicado no passado dia 9 pelo semanário Die Zeit, Wolfgang Schäuble solicitou oficiosamente, na quarta-feira, dia 7, aos cinco economistas que aconselham o governo germânico, um relatório  sobre a situação em França e sobre o que conviria fazer para o relançamento da economia gaulesa.
Se o presidente do referido conselho desmentiu que o ministro tenha efectuado tal pedido, aquando da entrega das previsões para 2013, no governo alemão, um porta-voz do ministério das finanças limitou-se a um surpreendente "no comment". E aproveitou até para recordar que "o ministro se preocupa em permanência com as medidas a implementar nos países da zona euro" e que "muitos países necessitam de levar a cabo reformas estruturais". Pouco depois, aproveitou para convidar os jornalistas a contactar com um dos conselheiros do governo germânico, Lars Feld, que declarou à Reuters que "as preocupações são cada vez maiores devido à falta de acção do governo francês sobre a reforma do mercado laboral".
O governo francês teriam motivo para ficar chocados com semelhante pedido, de tal forma seria um exemplo de desconfiança entre as duas capitais. Quanto aos alemães, tèm uma outra razão para se ofender: o referido conselho de economistas é independente e, desde a sua criação, há meio século, nunca trabalhou senão sobre a Alemanha.
Seja qual for a verdade factual, é incontestável que a Alemanha se mostra cada vez mais inquieta sobre a saúde económica da França. No seu relatório, os economistas consideram que, "tendo em conta as tendências recessivas da zona euro, a situação em França é cada vez mais preocupante. A segunda economia da zona euro estagna há três trimestres, enquanto que o PIB se situava no segundo trimestre deste ano 0,3% abaixo do valor registado um ano antes. Os indicadores conjuntura não mostram qualquer evolução favorável da situação."
Tal como a Comissão Europeia, os citados economistas germânicos duvidam da capacidade da França para conseguir reduzir o défice a 3% do PIB em 2013. "Tal evolução parece tanto mais difícil quanto é certo que a nova taxa de IRS de 75% para os rendimentos anuais superiores a um milhão de euros, poderá vir a gerar um contexto hostil aos investimentos." Como sintetiza o Deutsch Bank, num estudo publicado no passado dia 9, "a França continua a ser uma criança problemática".
Alguns íntimos de Angela Merkel já nem usam luvas quando comentam a política de François Hollande. "Seria bom se agora os socialistas franceses começassem realmente a implementar as reformas estruturais. Seria bom para a França e para a Europa", declarou sexta-feira passada ao  Spielgel On line Volker Kauder, presidente do grupo parlamentar CDU no Bundestag.
Sendo certo que estas declarações de dirigentes conservadores têm segundas intenções, denotam igualmente uma verdadeira preocupação da Alemanha. Se a França se afunda, toda a zona euro corre o risco de entrar em recessão, incluindo a Alemanha. A tarefa será árdua para o primeiro-ministro francês, que no dia 15 se desloca a Berlim, para explicar à chanceler alemã a política francesa."

Frédéric Lemaître, Le Monde, 11/11/2012, página 12

HOSPITAL DE TOMAR

É urgente encontrar quem saiba negociar

Jornal i, 12/11/2012, página 27

Quando esta manhã redigi o texto anterior e nele falei do inevitável encerramento a médio/longo prazo de dois dos três hospitais do CHMT, ainda tinha lido a notícia supra, de um diário de hoje, a qual não permite sequer dúvidas: "Ministério da Saúde defende maior reestruturação nos próximos meses. ...é preciso fundir serviços e equipas, para evitar redundâncias e sobreposições das estruturas antigas."
Trata-se portanto do anúncio sorrateiro de mais alterações tácticas, tendo em vista o objectivo estratégico final: a sobrevivência de uma única grande  unidade hospitalar no norte do Ribatejo. Qual das três? Excelente pergunta!
À partida, Tomar ostenta várias vantagens. Se porém os seus representantes insistirem em agir como até aqui, metendo sistematicamente os pés no prato, organizando "manifestações apartidárias de utentes", com representantes posteriormente recebidos na AR pelo deputado PCP da zona, inserindo deputados municipais na manobra e falando como quem atira com cornos às enguias, já perdemos.
Se, pelo contrário, aparecer quem saiba usar a argumentação adequada, de forma credível, nos locais indicados e em tempo oportuno, tudo aponta no sentido de que o hospital sobrevivente seja o de Nª Srª da Graça. E, parafraseando o ex-presidente do IPT, "mais não digo por agora". Neste caso, porque os outros competidores também vão decerto ler este comentário. Ó se vão!

Duas tribos incomunicáveis

É verdade. Num país tão pequeno e já com mais de oito séculos de independência, onde todos falam a mesma língua e nenhuma região reclama a independência (a não ser o pacóvio Jardim, para sacar mais ajudas do "contenente"), chegámos a esta fractura nacional: duas tribos que se falam e convivem, mas não se compreendem nem vivem no mesmo mundo. Cf. reacções indignadas às declarações de Isabel Jonet, a configurar casos de censura prévia e pensamento único.
A nível local -que é o que mais interessa, pois à escala do país a nossa influência provinciana é nula- basta atentar nas recentes reacções dos presidentes de junta face à decisão governamental de agrupar freguesias, no comentário de Luís Ferreira ao texto anterior ou nas sucessivas e infrutíferas manifestações a favor da suspensão da reforma hospitalar, para constatar que, lado a lado, convivem uma população pachorrenta mas realista e outra mais activa mas fantasista, no sentido em que age como se vivesse numa outra sociedade. Vejamos mais em detalhe.
Dados oficiais indicam que 75% dos portugueses dependem do Estado e que 43% não pagam IRS nem IRC. Não consegui aceder às percentagens concelhias. Porém, observando à volta, sou levado a concluir que as ditas percentagens serão ainda mais elevadas. Ou seja, a actividade privada, a única que produz riqueza transaccionável, é por estas bandas residual e demasiado parasitada pelas estruturas públicas. Nestas condições, que esperar?
Nos países comunistas, que entretanto implodiram, não foram a contestação popular nem os opositores  políticos que os derrocaram; foi a economia, constantemente anemiada pela enormes despesas militares e de segurança e por isso incapaz de corresponder aos anseios das populações. Outro tanto está a acontecer em Portugal e particularmente em Tomar. Com uma autarquia demasiado pesada e excessivamente burocrática, dependendo de um governo idem idem, aspas aspas, é óbvio que se impunha e impõe um único verbo: CORTAR. Cortar a direito, doa a quem doer, tendo em conta bem entendido a necessária protecção dos mais indefesos (crianças, idosos, doentes, incapacitados...). Os outros que vão ocupar postos de trabalho, onde os houver disponíveis. Ou empreender.
A comunicação social dá relevo à actual vaga de emigração, procurando dramatizar a coisa. Não há para tanto. Nos anos 60/70 do século passado, cerca de um milhão de compatriotas atravessaram as fronteiras "a salto", rumo a França, à Alemanha, à Bélgica, à Suiça. Iam sem emprego prometido e uma vez chegados eram obrigados a conseguir carta de trabalho e autorização de residência, designadamente em longas filas desde as cinco da manhã nos ex-matadouros de La Villete, no sector norte de Paris. E agora que saem legalmente, de avião e sem necessidade de autorizações de trabalho ou residência nos países da UE, ainda se queixam? É a geração mais preparada de sempre? Pois nem tanto. Os do século passado é que saíam preparados para tudo, incluindo os sacrifícios e os bairros da lata. Os de agora, se excluirmos os médicos, investigadores científicos, enfermeiros, engenheiros e pouco mais...ostentam diplomas, é verdade, mas sabem fazer alguma coisa com qualidade, além de reivindicar?
Em conclusão, creio que o melhor é "voltar à terra", manter os pés bem assentes no chão e procurar dar o corpo à curva. As coisas são o que são. Não adianta iludir-se ou tentar iludir os outros No meu pobre entendimento, dentro de 25 anos no máximo (tenho pena de já cá não estar para ver), já não haverá juntas de freguesia e quanto a municípios, só com mais de 50 mil habitantes. O que significa que o de Tomar, se nada de profícuo for feito entretanto, está condenado. Quanto aos hospitais, aqui no Médio Tejo apenas subsistirá um custeado pelo Estado. E o glorioso 15 tem os dias contados, tal como o Politécnico no seu formato actual. É triste mas a caminhada para o futuro não poupa nada nem ninguém. Se até a França já está com a corda no pescoço...

domingo, 11 de novembro de 2012

De cu tremido, por tuta e meia

Escrevi no texto anterior que em Tomar pagamos para andar de Rolls Royce mas andamos a pé, por falta de burros. Fui impreciso, sem querer. Manda a realidade esclarecer que também há um pequeno grupo de conterrâneos que ao longo do ano pode andar de cu tremido por tuta e meia. Estou a falar dos TUT - Transportes Urbanos de Tomar. Cujos percursos se fazem perfeitamente a pé, salvo para aquelas pessoas que têm dificuldades de locomoção. Que são muito raras, diga-se de passagem. Sei do que estou a falar, pois todos os dias  me cruzo com vários mini-autocarros, que nunca vi cheios, ali para os lados do hospital e/ou da Choromela.
Se sou contra os TUT? Na modalidade actual, sou. No meu tosco entendimento, faz algum sentido gastar anualmente 400 mil euros de impostos = 80 mil contos, para permitir que meia dúzia de pessoas -algumas das quais nem impostos pagam- possam andar de cu tremido, quando efectuar os mesmos percursos a pé só lhes faria bem? 
Há os tais deficientes motores? Há sim senhor. E quantos são? Não ficaria muito mais barato oferecer a cada um deles uma scooter eléctrica adaptada? Era bem melhor para o ambiente.
Como habitualmente, a relativa maioria laranja vai-se calando, julgo que por dois motivos: primeiro porque não tenciona pagar o calote; depois porque, permitindo tais passeatas urbanas ao preço da uva mijona, espera conseguir umas centenas de votos nas próximas autárquicas, para as quais o actual presidente ainda não desistiu de vir a encabeçar uma lista, que crê ganhadora, contra toda a evidência. Não há pior cego que aquele que não quer ver.
Outro tanto parece pensar a oposição que temos, pelo que se mantém praticamente muda e queda sobre o assunto, apesar de uma ou outra picardia, só para enfeitar. E têm razão, sob o ponto de vista eleitoralista. Acabar nesta altura com semelhante escândalo pouparia muito dinheiro -que poderia servir por exemplo para financiar refeições e outras ajudas sociais básicas- mas condenaria os causadores da façanha às chamas do inferno, tendo em conta a tacanha mentalidade do eleitorado que temos. Acontece contudo que se não for agora, terá de ser inevitavelmente no próximo mandato. E nestas coisas da política, quanto mais tarde, pior maré. Basta atentar no que sucedeu com o governo do malabarista Sócrates. Tantas fez que acabou por perder o controlo dos malabares...