Ainda não votou? >>>
"Grandes escândalos imobiliários no Québec"
"A comissão Charbonneau denuncia a importância da corrupção nos meios políticos"
"No nono andar de um prédio do centro de Montreal desfilaram durante o Outono dezenas de testemunhas perante a juiz France Charbonneau. A comissão de inquérito sobre as empreitadas de obras públicas, que dirige, adiou agora os seus trabalhos até 21 de Janeiro de 2013.
Até agora, a juiz já ouviu tudo e mais alguma coisa sobre os últimos 15 anos. Funcionários da rede viária, empreiteiros, militantes partidários encarregues de recolher fundos e especialistas da mafia italiana confessaram dia após dia aquilo que sabiam sobre um formidável "sistema", que custou milhões aos contribuintes quebequences entre 1990 e 2000.
"É muito curioso como o sistema se desmoronou logo que houve coragem de o enfrentar", ironizou Jacques Duchesneau, deputado provincial e ex-chefe da polícia de Montreal. Foi graças a ele que se descobriu o escândalo, em 2011, mediante um inquérito sobre irregularidades nas empreitadas de construção e reparação de estradas do Québec, ao qual o primeiro-ministro liberal da época, Jean Charest, concedeu uma aprovação contrariada. O "Relatório Duchesneau" conseguiu provar uma ligação directa entre a indústria, o financiamento oculto dos partidos e a corrupção de funcionários.
A Comissão Charbonneau "já provocou a queda de dois presidentes de câmara", afirma o ex-polícia agora deputado, que espera que a juiz consiga "demonstrar os estratagemas por detrás dos indivíduos". A Unidade permanente anti-corrupção, criada em 2011, investiga o mesmo caso, com o seu exército de verificadores, investigadores e analistas. Há também a "esquadra Marteau", da polícia de Montreal, cuja existência a partir de 2009 terá levado o "cartel dos esgotos" da capital a moderar bastante os empolamentos dos custos das empreitadas. Ultimamente formulou também acusações por fraude e corrupção contra eleitos municipais.
O próximo da lista poderá ser Gilles Vaillancourt, que em meados de Novembro se demitiu de presidente da câmara de Laval, a terceira cidade do Québec. É suspeito de ter recebido luvas sucessivas, como pagamento por várias empreitadas. São também acusados vários engenheiros civis ligados às rodovias de Montreal, assim como vários empreiteiros de origem italiana, entre os quais Tony Accurso (personalidade muito conhecida nos meios da construção civil e obras públicas, suspeito de pertencer à mafia) e Lino Zambito.
Este último causou sensação na Comissão Charbonneau, ao explicar a mecânica do "sistema" de obtenção de empreitadas públicas. Admitiu ter dado durante anos 3% do valor dos contratos conseguidos em Montreal a um intermediário ligado à mafia, que por sua vez entregava o dinheiro à UnionMontréal, o partido do presidente da câmara Gérald Tremblay. Confessou igualmente ter contribuído em 2000 e seguintes com mais de 88 mil dólares canadianos = 68 mil euros, para os partidos provinciais, sobretudo para os liberais então no poder.
Na capital o "sistema" funcionava muito bem. Gilles Surprenant, ex-engenheiro de obras públicas, foi bem claro perante a juíz: em dez anos recebeu de empresas de obras públicas vários presentes, almoços e jantares, viagens turísticas, bilhetes para o hoquei sobre gelo e gratificações num total de 736 mil dólares, em troca de empreitadas nos esgotos, em que empolava os custos. Logo a seguir, um dos organizadores do partido do presidente da câmara, Martin Dumont, acusou-o de ter deliberadamente fechado os olhos sobre um orçamento paralelo que alimentava o partido com dinheiro sujo. Após tais revelações, Gérald Tremblay demitiu-se no início de Novembro, mergulhando Montreal numa complicada crise.
Chantal Rouleau foi uma das primeiras eleitas da capital a alarmar-se. Presidente do Bairo de Rivière des Prairies, a leste da ilha, insurgiu-se em 2010 contra a venda a promotores imobiliários por 1,6 milhões de dólares, em plena bolha imobiliária, de um terreno municipal que fora comprado por 6 milhões.
Segundo declarou, o processo em curso é "doloroso mas positivo. Estão a limpar a ferida mas há necessidade de uma unidade de inquérito em Montreal, como forma de evitar o retorno de tais práticas condenáveis. Tal como se faz a limpeza em casa. Com regularidade."
Duchesneau afirma que "funcionários roubaram centenas de milhões de dólares", mas declara-se mais preocupado face ao papel dos eleitos "que estavam ao corrente do estratagema", do qual alguns até se aproveitavam. Estimando em cerca de 70% a percentagem de dinheiro sujo no financiamento das campanhas eleitorais no Québec, propõe uma revisão completa do sistema de adjudicação de empreitadas e do financiamento dos partidos políticos: "Ousar ir até ao fim, com coragem, vai permitir reconstruir a casa com alicerces mais sólidos, com mais leis e mais fiscalização."
Anne Pelouas, Le Monde, 02/12/2012, página 4
Sem comentários, para não irritar o meu amigo Templário. Antes quero perder uma ocasião do que um amigo, ainda por cima conterrâneo.

