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O sonho chinês de Xi Jinping
"Com que linhas se cose afinal Xi Jinping, o novo líder chinês entronizado no final do 18º Congresso, em meados de Novembro? A começar pelo estilo, deverá privilegiar "a diligência e a sobriedade", declarou o novo secretário-geral do partido aos membros da comissão política, no passado 4 de Dezembro.
A televisão central do Estado difundiu nos ecrãs de todo o país oito normas de execução permanente, dirigidas a todos os novos quadros dirigentes: As estradas deixarão de ser cortadas para dar prioridade aos cortejos oficiais. A comunicação social oficial deve evitar destacar reuniões que não tenham valor informativo, acabando com o pretexto usado até aqui de noticiar apenas a sua realização. As delegações aos estrangeiro não devem entregar relatórios ocos. Os estudantes chineses em cada país deixam de ser obrigados a ir receber tais delegações com ramos de flores. Deve evitar-se publicar livros ou assinar inscrições sobre os monumentos. As viagens oficiais far-se-ão sem ostentação, devendo evitar-se os banquetes. Tudo isto porque há sempre alguém à espreita: os governantes chineses são vigiados a toda a hora pelos internautas, prontos a denunciar o menor sinal exterior de corrupção.
Os primeiros gestos de Xi Jinping e os rituais a que se entregou foram igualmente escrutinados à lupa. Decidiu deslocar-se à provincia meridional de Cantão na sua primeira "viagem de inspecção" fora de Pequim. Os observadores estabeleceram imediatamente uma relação com a viagem ao sul de Deng Xiao Ping, em 1992, que serviu para relançar a abertura, após Tiananmen, bem como uma homenagem ao seu pai, Xi Zhongxun, arquitecto das zonas económicas especiais de Cantão, no final dos anos 70.
A transição chinesa faz-se na continuidade. Xi Jinping exerce como vice-presidente há cinco anos e, por detrás da fachada da direcção colegial, já deixou a sua marca na governança da China, nomeadamente na esfera da estratégia. Dizem-no encarregado, desde 2011, da célula de coordenação política sobre as questões relativas ao mar da China do Sul. A linha dura está longe de vir a ser abandonada. A ilha-província de Hainan anunciou no final de Novembro novas normas que permitem à guarda costeira inspeccionar e expulsar embarcações, numa vasta área marítima reivindicada pela China. No princípio de Dezembro iniciou-se uma querela com Hanói (Vietnam), após arrastões chineses terem cortado os cabos de exploração de um barco vietnamita de prospecção de petróleo.
O "grande renascimento da nação chinesa", mencionado várias vezes por Xi Jinping no seu primeiro discurso perante a imprensa, em 15 de Novembro, é uma noção à qual o novo secretário-geral do partido parece muito apegado. Desde então, os sete membros da comissão permanente efectuaram uma única aparição oficial em conjunto, aquando de uma visita à exposição permanente do Museu Nacional Chinês, intitulada ..."A via do renascimento". Ou seja, uma encenação espectacular da recuperação da China pelo Partido Comunista, após as "humilhações" do século XIX. As derrapagens trágicas da história do regime (Grande Avanço, Revolução Cultural e Massacre de Tiananmen) não são mencionadas. O tom nacionalista é evidente, por exemplo numa grande reprodução que mostra na China antiga os emissários de todos os países do mundo a prestar tributo ao imperador chinês. "O conceito de renascimento da nação chinesa está baseado na ideia de que a China deve retomar o lugar a que tem direito na Ásia, e que é uma potência benévola, que estende a sua protecção ao resto da Ásia, pelo que o mundo, e sobretudo os americanos, devem aceitar esta ideia", diz-nos a especialista em geopolítica Valérie Naquet, após ter visitado em Novembro a mesma exposição em Pequim.
Para este momento de comunhão ritual com a história do partido, Xi Jinping foi muito cuidadoso nas palavras: "Todos falam de um sonho chinês. Creio que o renascimento da nação chinesa é o maior sonho da nação nos tempos modernos." Este sonho chinês de Xi Jinping não foi muito bem acolhido na blogosfera "É um sonho do Estado, que implica o reforço do poder do Estado", opina o professor da Academia da ciências sociais Yu Jianrong, que o comparou no seu microblogue ao sonho americano, adição de sonhos individuais protegidos por direitos contidos na lei. Em três semanas de reinado, Xi Jinping conseguiu ainda assim fazer algumas concessões à comunidade cada vez mais numerosa de universitários, advogados, blogueiros ou militantes, que ocupa a tribuna das ideias e exige reformas. Tal como aconteceu no 30º aniversário da Constituição chinesa, no passado dia 4 de Dezembro. A Constituição garante teoricamente a maior parte dos direitos fundamentais, mas não tem nenhum peso na realidade quotidiana. "Um país governado pela lei, deve sê-lo em primeiro lugar pela Constituição, e uma governança respeitadora da lei deve ter por base a Constituição", prometeu Xi Jinping.
No mesmo dia, milhares de queixosos oriundos das províncias e detidos ilegalmente na capital, enquanto aguardavam a expulsão para as localidades de origem, foram libertados da "prisão negra". "Parece ter sido uma medida temporária, para comemorar o dia do Estado de direito (4 de Dezembro), considera o militante Huang Qi, dinamizador do site de defesa dos direitos humanos 64tianwang, que revelou o caso. "Mas os começos são sempre difíceis e a abertura de uma porta começa sempre por uma fresta. Façamos votos para que haja outras operações do mesmo tipo." Um outro tipo de sonho chinês, certamente."
Brice Pedroletti, Lettre d'Asie, Le Monde, 11/12/2012, página 27
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