É sabido que há leitores deste blogue um bocadinho alérgicos à liberdade de expressão, a partir do momento em se publicam posições não coincidentes com determinadas doutrinas partidárias. É o caso designadamente das transcrições que regularmente aqui são publicadas, da autoria de José António Saraiva, director do semanário SOL. Pois tenham paciência, amigos leitores; também eu detesto pagar impostos, mas como tem que ser...
"Imobilismo"
"Defendo há muito tempo que Portugal precisa de um "choque vital". E esse choque vital passa pela redução drástica da despesa do Estado, de modo a libertar dinheiro para a economia. O Estado gasta muito dinheiro de forma não reprodutiva, e isso tem contribuído para asfixiar o crescimento económico. Sucede que só um partido está hoje empenhado nesse objectivo: o PSD.
... ... ...Todos os outros partidos não querem a mudança. Uns por razões ideológicas, outros por razões oportunistas.
Os partidos de esquerda, que durante muitos anos foram progressistas, estão hoje numa posição defensiva, pois o seu papel é defenderem com unhas e dentes as "conquistas dos trabalhadores", obtidas depois do 25 de Abril e nos anos de vacas gordas. É esta essencialmente a posição do PCP, mas também a do BE.
O caso do PS é diferente. É um partido do funcionalismo público e da pequena burguesia urbana, e a sua matriz é estruturalmente conservadora. Não é um partido de grandes mudanças. António Guterres e sobretudo José Sócrates tentaram transformar um pouco essa vocação, apontando num sentido mais liberal, mas não tiveram grande sucesso.
E a passagem do PS para a oposição levou-o a adoptar uma atitude de resistência activa às reformas, criando problemas por tudo e por nada, e acabando por não se distinguir muito do PCP e do BE.
Resta o CDS, que tem uma posição diversa da esquerda, até porque está no governo, mas -não nos esqueçamos- é um partido ideologicamente conservador. Não está vocacionado para fazer reformas. É por isso que, perante a obrigatoriedade imposta pela troika de mudar muita coisa, os centristas se mostram de dia para dia mais incomodados.
... ... ...
A divulgação do relatório do FMI sobre a reforma do Estado veio pôr a nu o conservadorismo ou a falta de coragem da esmagadora maioria do país. A quase totalidade das forças políticas e sociais, e das figuras públicas, reagiu como se o relatório tivesse peçonha. "Não me associem a isso!" -foi a reacção quase generalizada.
... ... ...Disse-se que o relatório era "precipitado", que vinha "tarde demais", que tinha "números desactualizados", sempre com o mesmo objectivo: fugir à discussão sobre a reforma do Estado.
Acontece que, por muito que se fuja ao tema, o problema está lá. E o problema é este: o Estado não pode continuar a gastar o que gasta.
Pensemos apenas no seguinte: o défice público, por força dos compromissos com a troika, tem de continuar a baixar; não podendo os impostos subir mais (e não havendo muito mais "anéis", como a EDP ou a ANA, para vender), resta-nos reduzir a despesa. Não há como fugir daqui.
Mas a única força política que hoje assume esta necessidade é o PSD. Todas as outras fogem com o rabo à seringa -não só a tomar medidas, mas mesmo a discutir as medidas. Como fazer então? Acho que não vai ser possível fazer nada -e que esta questão pode muito bem levar ao fim do governo. Vamos cair num impasse. Por um lado há que reformar o Estado, mas por outro há uma grande maioria contra essa reforma. Registe-se: O PCP está contra. O BE está contra. A CGTP está contra. O PS está contra. A UGT, quando as medidas apertarem, está contra. O CDS vai tentar empatar. E, last but not least, uma boa parte do PSD também está contra. ... ... falo dos candidatos do PSD às autarquias que, com medo de perderem as eleições, vão estar na primeira linha das críticas ao governo (veja-se o lamentável ataque de Carlos Carreiras a Carlos Moedas). Ora, como será possível reformar o Estado com uma esmagadora maioria do país contra?
A reforma do Estado não irá pois fazer-se e esse fracasso (e a correspondente pressão política e financeira) poderá provocar a queda do executivo. No meio disto tudo, só não percebo o contentamento de muitas pessoas de esquerda. Não entendem que, se o governo cair, a esquerda ficará com a batata a escaldar nas mãos (uma batata ainda mais quente do que hoje, pois os mercados voltarão a "atacar-nos")?
Se o governo cair, o que fará a esquerda? Aumentará ainda mais os impostos? Reduzirá brutalmente os encargos do Estado, fazendo aquilo que hoje nem quer discutir? Não fará uma coisa nem outra e correrá com a troika daqui para fora?
E a seguir, quando os cofres se esvaziarem, dirá que a situação deixada pela direita era tão má, tão má, tão má, que não é possível pagar aos funcionários públicos?
Este quadro de terror não está tão longe quanto se pensa."
José António Saraiva, SOL, 18/01/2013, página 2
Foi decidido publicar estes excertos, por um lado, porque aqui também é Portugal, o que nos devia obrigar a seguir com toda a atenção os problemas do país. Por outro lado, porque a situação da autarquia nabantina é semelhante -também vai ser obrigada a reduzir o que gasta, e muito. Mas aqui começam as diferenças.
Tanto a relativa maioria como a dividida oposição maioritária parecem ter chegado a consenso, nos termos do qual o mais importante é não fazer ondas até às próximas autárquicas. Assim se explica a pachorrenta postura dos sete magníficos, quais patos vogando no charco tomarense.
Com três detalhes pitorescos: o manifesto imobilismo estudado do PSD, a evidente fractura do PS e o contraditório apelo à mudança e à escolha do que é diferente, por parte da candidata socialista, quando a nível nacional o PS vai lutando com unhas e dentes contra qualquer mudança ou qualquer diferença. E depois admiram-se que os políticos estejam cada vez mais desacreditados. Pudera!