Dá-se o caso de escrever também, e sobretudo, para memória futura, caso contrário é muito provável que não subscrevesse o que segue. O mesmo aconteceria se fosse eleito, militante partidário ou tivesse ambições políticas. Como não sou uma coisa nem tenho a outra, redijo com total liberdade e sentido de cidadania, que é como quem diz daquilo que julgo ser o bem comum. Como é sabido, o verdadeiro amigo não é aquele que nos diz aquilo que gostamos de ouvir, mas quem nos mostra as coisas como elas são, sobretudo quando desagradáveis.
Após este necessário intróito, os factos.
Em relativamente pouco tempo, o PS (agora parte integrante da circunstancial maioria que devia governar-nos), e os IpT, apresentaram propostas tendentes a solucionar a medonha situação do velho União de Tomar. A proposta dos socialistas foi vencida na Assembleia Municipal, facto que, sendo estranho, uma vez que em princípio os proponentes dispõem de maioria naquele órgão, demonstra que bastantes deputados municipais, forçados pela crise, começam a ser bem mais realistas. Quase de certeza, não por súbita tomada de consciência. Apenas porque já perceberam que, no actual estado de penúria, aquilo que for para o União não irá para eles. E vice-versa. É afinal o velho e insolúvel problema da cama demasiado grande, ou das mantas demasiado pequenas. Há sempre quem fique destapado, ou no mínimo com os pés de fora.
De qualquer forma, a proposta socialista era nitidamente eleitoralista, tal como acontece com a sua irmã mais recente, apresentada pelos IpT. Só que este última se compreende e se aceita melhor, dados os antecedentes desportivos e de gestão municipal de Pedro Marques. Ainda assim, tanto uma como outra mais não eram que cuidados paliativos para um doente terminal, ou se gostam mais de frases agrestes, para um cadáver adiado desde há anos.
Seja o que for que se diga, a verdade é que o desporto em geral, e o futebol em particular, são actividades parasitárias, que só sobrevivem sugando dinheiro aos sócios, aos espectadores, aos patrocinadores e ao orçamento do estado e/ou das autarquias. Têm excesso de apetite para a alimentação que conseguem arranjar. Daí a permanente crise, que afinal grassa por todo o lado. No tempo das vacas gordas, o elevado valor acrescentado produzido em muitas actividades, assim como a subsequente arrecadação de impostos e taxas sempre a aumentar, permitiam todas as benesses. Conjuntamente com os fundos de Bruxelas até tornaram possível essa autêntica desgraça nacional, que dá pelo nome de estádios do euro 2004.
Quanto ao União de Tomar, ao contrário do que por aí se diz, não representa dignamente a cidade e o concelho, nem nos prestigia, nem prestigia a comunidade tomarense, nem se prestigia a si próprio. Uma colectividade constantemente em défice e com graves problemas, que não dispõe de qualquer património negociável, que raramente cumpre a sua palavra, que não se porta bem com a administração fiscal desde há anos, não honra ninguém. E está longe de poder constituir um bom exemplo para os jovens, incluindo os seus próprios atletas, porque as pessoas em geral, e os jovens em particular, têm tendência a imitar aquilo que vêem fazer, sendo que as várias práticas unionistas (até a porfiada tentativa de sacar dinheiro aos cofres da autarquia) não se recomendam de forma alguma. Há, nitidamente, outras prioridades.
Pelo que, digo eu, o União já foi. Mais tarde ou mais cedo, mas já foi. Quanto mais tarde se verificar o óbito oficial, maiores serão as complicações imediatamente anteriores. É o que acontece com todos os organismos -nascem, desenvolvem-se, definham e morrem. De paragem cárdio-respiratória, costumam dizer alguns médicos na TV. No caso do clube tomarense, terá sido por falta de alimentação em quantidade (verbas, verbas, verbas) e em qualidade (dirigentes, dirigentes, dirigentes).
Os tempos estão cada vez mais difíceis e por alguma razão o astuto Marcelo Rebelo de Sousa, que tinha e tem à sua frente uma ampla avenida triunfal rumo à liderança do PSD, recusou peremptoriamente. Uma vez que, regra geral, os inteligentes "vêem" bem mais longe do que os espertos, talvez os tomarenses, incluindio os unionistas, não perdessem nada em meditar na atitude do conhecido comentador político.
António Rebelo