Desde há alguma tempo que, em termos políticos, Tomar passou a ser um caso de estudo, a nível da região centro. Sobretudo devido à sua acentuada decadência, a tornar evidente em cada dia que passa aquilo que não deve ser feito, mas igualmente por causa do seu arco político, com três formações, em vez de duas, na situação de potenciais vencedoras das eleições. Como nas grandes metrópoles, que claramente não somos, nem nunca viremos a ser, se continuarmos a trilhar este caminho rumo ao abismo da irrelevância.
A partir das últimas autárquicas, o nosso caso passou a ser ainda mais complicado, devido à estranha coligação celebrada entre rosas e laranjas, de forma clara em regime de dois contra um. O que significa tratar-se de uma aliança pela negativa, ao invés do que seria desejável e profícuo para o concelho. O que a determinou, como agora é evidente, foi o medo de cada um em relação aos dois outros. E o medo nunca foi bom conselheiro.
Somos, portanto, desde há praticamente um ano, governados por coligados, situação única nesta região do país. E muito rara a nível nacional. A agravar a situação, os últimos acontecimentos vieram explicitar que quem manda na dita mancebia é o PS ou, mais precisamente, o seu estratega Luís Ferreira, goste-se ou não da maneira como vem desempenhando o seu papel. As coisas são aquilo que são. Na sequência do insólito enxovalho de que foi vítima na Assembleia Municipal -com um influente dirigente nacional do PSD a votar favoravelmente uma moção do Bloco de Esquerda- Luís Ferreira fez o que devia. Se anteriormente Hugo Cristóvão, o presidente do PS local, já anunciara que caso os sociais-democratas quisessem acabar com a coligação, bastava que o dissessem, desta feita o vereador turístico-cultural sacou da metralhadora e faz fogo em todas as direcções. No seu blogue vamosporaqui.blogspot.com escreveu dedsignadamente o que segue.
"7 - Em termos estritamente políticos a gestão de comunidades como Tomar tem esta dificuldade acrescida: ao lidar com actores políticos cuja principal ocupação passa por desenvolver a inércia como actividade principal, torna difícil que a mesma comunidade ultrapasse as suas dificuldades."
Tradução em linguagem corrente: os eleitos laranja limitam-se a ocupar os lugares e a receber as remunerações; não fazem nada, pelo que isto cada vez está pior.
"10 - A coligação pós-eleitoral de Tomar serve essencialmente o interesse estratégico e específico do PSD. Não serve objectivamente os interesses do PS.
Se o PS decidir honrar tal acordo, só o poderá fazer consciente do elevado sacrifício eleitoral futuro que tal representa. Salvando Tomar, pode o PS estar a hipotecar a possibilidade futura de vira governar de forma liderante Tomar. Se for o PSD a dar o dito por não dito, desiste em absoluto de Tomar, como há alguns anos desistiu de Ourém e antes o havia feito em Torres Novas."
Tradução em português comum: Não me arranhem demasiado os tintins porque se insistem consulto a CP do PS, rebento com a coligação e vocês ficam nus e descalços em pleno deserto. Evitam de contra-argumentar. Estão atados para o bem e para o mal. Não têm alternativa, porque os vossos eleitos não valem um chícharo.
Neste charco, Corvêlo lá vai tentando continuar a patinhar, anunciando obras e mais obras, que nem ele, nem os acólitos, nem ninguém sabe para que servem realmente, para além de facultarem fartos proventos a quem as excuta. Quando alguém alerta para o crescente e imparável endividamento da autarquia, logo o presidente vem sossegar, argumentando que a dívida corresponde APENAS a um ano de receitas correntes. Só! Pois vendo a situação sob outro ângulo, as coisas são bem menos brilhantes. Nesta altura do campeonato a câmara apenas pode pedir à banca (se esta lhe emprestar, dadas as actuais dificuldades do mercado de capitais...), 13 milhões de euros. Legalmente não tem folga para mais. O que significa que, caso o tribunal arbitral dê razão à ParqT, como tudo indica, lá se irão cerca de 11 milhões de euros, reduzindo a dita folga para dois milhões. Apenas dois meses de défice, ao ritmo actual. Que tenderá a agravar-se, pois em 2011 as transferências do Estado para a autarquia serão bem menores, uma vez que vão reflectir as consequências da crise, que tem vindo a reduzir drasticamente a cobrança fiscal.
Podemos, portanto, dizer para concluir que, a fazer-se, o anunciado Complexo Museológico da Levada será o TGV de Corvêlo de Sousa. Só que o TGV de Sócrates levar-nos-á até Madrid, enquanto que o TGV de Corvêlo apenas vai levar-nos para o esterco. Triste sina a nossa!