Fotos Georges Gobet/AFP
Com a crise a agravar-se em Portugal, quando os portugueses em geral continuam a aguardar, esperançados, uma melhoria que não se vislumbra, talvez seja útil publicar três imagens do nosso país visto por estrangeiros. Duas são visuais, do fotógrafo Georges Gobet, da Agência France Presse. Ambas retratam o ministro das finanças, Teixeira dos Santos, nesta última com a ministra francesa das finanças Christine Lagarde. Para não influenciar, abstenho-me de qualquer comentário, ficando a aguardar os pontos de vistas dos leitores. Que ideia dá do ministro em cada um dos clichés?
A terceira imagem é bem mais detalhada e foi redigida por Marie de Vergès, analista económica do Le Monde.
O longo descontrolo de um país com fraquezas estruturais
"Sem crise imobiliária, sem crise bancária e sem batota nas contas públicas... A pressão extrema dos mercados que levou Portugal a solicitar ajuda externa, na quarta-feira passada, castiga um descontrolo muito diferente daqueles que ditaram o auxílio europeu à Grécia e à Irlanda. É sobretudo a fraqueza de uma economia praticamente sem crescimento desde há anos que explica a crise portuguesa. Desindustrialização, precariedade, falta de competitividade, eis as três doenças da economia portuguesa na última década.
Entre 2002 e 2008, Portugal registou um crescimento de 0,8%, duas vezes menos que o conjunto da zona euro. Quanto ao PIB por habitante, "estagnou à roda de 72% do nível da zona euro desde 1999, enquanto que durante o mesmo período a Espanha passou de 85% para 95%", refere Sabine Le Bayon, economista do Observatório Francês das Conjunturas Económicas - OFCE.
Que é feito daquilo a que alguns chamaram outrora o "milagre português"? No final dos anos 90, o governo de Lisboa foi considerado como o bom aluno da turma europeia, tendo integrado tal como a Alemanha ou a França a primeira carruagem dos Estados que adoptaram a moeda única. Portugal bateu então records de crescimento e registou uma das mais baixas taxas de desemprego da Europa, à roda de 4,5%.
Com a adesão à União Europeia, em 1986, as transferências financeiras europeias tinham permitido uma rápida modernização das infraestruturas. Filiais das grandes empresas europeias implantaram-se no país, atraídas pelos baixos salários. O investimento estrangeiro aumentou consideravelmente, mascarando as fraquezas estruturais herdadas da ditadura.
"Convém não esquecer que quando aderiu à Europa, Portugal era um país quase subdesenvolvido", afirma Michel Drain, geógrafo, investigador jubilado do CNRS e especialista do país. "Não tinha carvão. O tecido económico resumia-se à agricultura e a pequenas indústrias familiares, como o calçado e o vestuário."
Durante toda a década de 90, o nível de vida aumentou rapidamente, sem todavia anular totalmente as enormes desigualdades. "As auto-estradas financiadas pelos fundos europeus atravessavam zonas cuja população tinha fome", resume Jean-Marie Pernot, investigador no Institut de recherches économiques et sociales - IRES.
O país continuou assim a desenvolver-se de forma algo ilusória. Com a entrada no euro, as taxas de juro baixaram. As famílias aproveitaram o crédito barato para se endividarem em excesso, ao mesmo tempo que o governo socialista, no poder até 2002, praticou um política de facilidades.
Portugal foi o primeiro país da união monetária a ser alvo, logo em 2002, de um processo por défice excessivo: em 2001 ultrapassara o célebre limite dos 3% do PIB, fixado pelo pacto de estabilidade. Esta derrapagem assinalou o princípio do desencanto. O milagre português transformou-se em miragem.
Desde então, disciplinado, o país deseja voltar a cumprir as normas europeias, adoptando sucessivos planos de austeridade. A economia entrou em recessão. Aquando da passagem do século, a adesão à UE dos Estados da Europa Central e Oriental foi mais um duro golpe. Privou Portugal da vantagem competitiva dos baixos salários. Muitas empresas deslocalizaram-se para os novos parceiros europeus.
Ficou um território na extremidade da Europa, afastado dos mercados mundiais, com uma população pouco qualificada e uma economia especializada em sectores de fraco valor acrescentado. A indústria têxtil não resistiu às exportações chinesas. A espiral do afrouxamento económico dificultou os esforços para sanear as finanças públicas.
O governo resolveu multiplicar os programas de austeridade, provocando a redução drástica do consumo. "Portugal caiu na ratoeira das políticas restritivas que se vão sucedendo e contribuem para aumentar a precariedade, em detrimento dos investimentos estruturais de longo prazo", afirma Jean-Marie Pernot.
Essa fragilidade é agora cada vez mais evidente no aumento exponencial dos famosos "recibos verdes". Mais de 900 mil portugueses, um em cada cinco trabalhadores, recebem por esse sistema, que os priva de subsídio de desemprego ou por doença."
Marie de Vergès, Le Monde, 10/04/2011, página 12

