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domingo, 2 de janeiro de 2011

OPTIMISTAS, PESSIMISTAS E REALISTAS

Um dos primeiros comentadores portugueses a ser apelidado de pessismista encartado foi o antigo ministro das finanças de um governo de Mário Soares, Medina Carreira. De então para cá muita água passou sob as pontes. Tanta que agora até já solicitam ao antigo ministro uma visão positiva da economia do país. Foi o que fez o Expresso/Economia de 30/12/10, numa entrevista conduzida por Ana Sofia Santos, que aqui reproduzimos, com a devida vénia e os nossos agradecimentos à autora e ao conceituado semanário.

"-Chamam-lhe pessimista. Isso não o incomoda? - Não ligo a ignorantes. Se olharmos para o horizonte de 1960 a 2000, vemos uma economia sempre a cair e um Estado sempre a gastar mais. Era fácil perceber ao que iríamos chegar. 
-Confirmaram-se os seus alertas. -Preferia que não, mas as minhas previsões não foram inventadas. Íamos chegar ao ponto em que a situação iria ser insustentável. Só não se sabia quando. Foi em 2008, poderia ter sido adiado para 2012, mas esta crise teve um efeito de acelerador. Isto só não era visível para os optimistas que andam por aí a perturbar o país. Costumo dizer para porem uma dona de casa no Governo, porque teria muito mais senso. 
-Há solução? -Claro! O problema não é a solução. O problema é o estado em que vamos ter de viver até que Portugal se recomponha. Não acredito que dez milhões se deixem ir ao fundo de braços cruzados. Quero acreditar que, pela primeira vez em democracia, iremos ser capazes de ter contas públicas equilibradas. Só no Estado Novo é o que o Estado deixou de dever muito dinheiro ao estrangeiro. É perturbante, mas os números não enganam. Nós hoje devemos ao estrangeiro, em termos relativos, mais do que em 1850, quando o Fontes Pereira de Melo fez as grandes obras públicas...
-Qual seria o seu plano? -Em primeiro lugar, as pessoas com mais responsabilidades, primeiro-ministro ou presidente da República, deviam ir à televisão explicar como é que chegámos aqui. Há 25 anos entrámos na Comunidade Europeia com a promessa do desenvolvimento do país. Veio a globalização, perdemos o escudo e agora estamos de cócoras, a mendigar empréstimos. Entrámos num espaço livre de comércio e nunca nos preparámos para exportar...Por isso andamos agora a pedir emprestados 50 milhões de euros por dia.
-Acredita que para sairmos do charco há que conquistar a confiança da sociedade?  -Hoje é a mentira que impera. Os políticos dizem uma coisa em Bruxelas, outra aqui. Num momento não aumentam os impostos, no outro já aumentam. Este é o nosso fado. A classe dirigente põe-se a cavalo na sociedade para tratar das suas vidas e este pano de fundo não muda no plano empresarial.
-Reconhece na sociedade portuguesa capacidade para "dar a volta por cima" em momentos difícies como este? -Não é por culpa dos portugueses enquanto povo que Portugal chegou ao estado em que está. Trabalhei numa metalúrgica no Barreiro e, por vezes, testemunhei  esforço, a dedicação, a capacidade para inventar uma solução para um problema (surgido fora des previsões), por parte dos operários. Davam tudo de si na fábrica, porque se sentiam bem tratados e valorizados. Eram tratados como gente.
-Além dessa experiência, identifica outros bons exemplos? - A forma como lidámos com mais de 600 mil pessoas que perderam tudo em África. Só um povo muito capaz é que podia registar um aumento súbito de 6% da população sem grandes sobressaltos. Em dois, três anos, o problema estava ultrapassado. Para mim, foi o maior feito da sociedade portuguesa após o 25 de Abril.
-Os portugueses têm capacidade de união? -Sim, união e integração no objectivo que se pretende. Mas tem que lhes ser explicado o objectivo, como se atinge e quais os problemas que podem surgir.
-Identifica bons exemplos de empresas portuguesas? - Tenho dificuldade, porque hoje as boas empresas são monopolistas ou oligopolistas. Se eu vendesse gasolina, seria um bom gestor, porque era eu que fazia o preço. Nas chamadas telefónicas passa-se o mesmo... Nestas empresas há de certeza pessoas que gerem com muita capacidade, mas estão em sectores que não competem com ninguém. É uma gente especial, que eu preferia que estivesse na CP, Carris ou Transportes Colectivos do Porto, nas empresas difíceis.
-E no Estado? - A máquina fiscal hoje é excelente. Reconheço o mérito do Paulo Macedo (ex-director-geral dos impostos). Não há serviço público igual e não deve haver paralelo a nível europeu. O Serviço Nacional de Saúde também é bom, o problema é que não há um sistema que salvaguarde as urgências hospitalares apenas para os casos graves. Estamos a manter um monstro para tratar de vulgaridades.
E no mundo da política, identifica pessoas com valor? - Não o posso fazer porque não conseguiria indicar todas aquelas que desprezo, nem todas as que prezo. Indico-lhe uma que desapareceu recentemente, Hernâni Lopes, um grande homem ao nível técnico, profissional e moral,, um símbolo de seriedade e de verdade. Outro, Silva Lopes, um homem excepcional.
-Um político que fale verdade, pode ganhar  eleições? - Os nossos políticos acham que não. Eu penso exactamente ao contrário. Temos de ter eleições com base no maior rigor informativo possível. Quem quiser ganhar as próximas eleições e governar, devia apresentar as caras de cinco ministérios-chave, entre os quais as Finanças, Educação e Justiça. Defendo algo deste género: "O nosso programa são estes cinco sujeitos de vida limpa, com profissões, pessoas em que se pode acreditar e que se comprometem a atacar os nossos dois grandes males -o financeiro e o económico."

O negrito é da responsabilidade de Tomar a dianteira. Indica, como habitualmente, as passagens com as quais há maior concordância e que podem ser transpostas para a situação local, mediante as necessárias adaptações.