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terça-feira, 1 de março de 2011

CRISE ECONÓMICA E CRISE DE MENTALIDADES


MAIS POR MENOS/MENOS POR MAIS

Sabem todos os que se interessam, de forma mais aprofundada, por estas coisas da economia que a instabilidade e a crise são situações normais no modo de produção capitalista. Neste momento em que praticamente por todo o mundo avultam sinais de mudanças fundamentais irreversíveis, em Portugal e em Tomar quase tudo como dantes. Alguém há-de providenciar soluções para os problemas que nos afligem. Que problemas? Sobretudo os apontados ontem, de forma vibrante, documentada e certeira, por Hugo Cristóvão, na Assembleia Municipal, onde coordena a bancada do PS. (Ler texto integral da intervenção em alguresaqui.blogspot.com). E logo a seguir o mesmo areópago municipal votou favoralmente, por 19 votos PS/IpT/CDU/BE, contra 13 PSD e duas abstenções, um não inscrito e um CDS, uma moção de censura ao executivo.
Tanto a corajosa mais inconsequente catilinária de Cristóvão, quanto a igualmente corajosa, oportuna mais inofensiva moção de censura, culminam o demasiado longo reinado dos "mais por menos/menos por mais". Com efeito, desde o 25 de Abril que sobretudo aqui pelo vale do Nabão se vem tornando cada vez mais evidente o comportamento  oposto, mas simétrico, de eleitores e eleitos.
Os primeiros, procuram obter sempre Mais, quer se trate de espectáculos gratuitos, de facilidades diversas, de subsídios ou de passeios. Em contrapartida, dão de si o menos possível. Regra geral, votam quando votam e chega. O resto (obrigações cívicas, solidariedade, deveres de cidadania...), quem quiser que trate disso. São portanto os partidários do mais por menos. 
Do lado dos eleitos, dado que a mentalidade é a mesma, pois resulta da mesma educação e da mesma vivência, a atitude é simétrica, mas oposta: procuram dar o menos possível em troca das benesses conseguidas. Por isso, ao longo dos anos, os encargos do munícipes com taxas, impostos e preços são cada vez mais gravosos, enquanto que os serviços facultados pela autarquia são cada vez menos e de menor qualidade. Basta pensar, por exemplo, na recolha do lixo. Apesar de os respectivos contentores serem cada vez mais raros e situados mais longe, os cidadãos são obrigados a liquidar uma taxa de resíduos sólidos que neste momento é praticamente o dobro da do Entroncamento. São portanto os eleitos do menos por mais.
Tudo isto seria bem menos grave, não fora o caso de a presente crise ser das mais profundas e longas desde há pelo menos 80 anos. Trata-se, segundo tudo indica, do desmoronar de princípios que julgávamos eternos, ninguém sabendo ainda o que aí virá. Face a tanta incerteza, há duas grandes posições dominantes. Fazer frente, procurar soluções, debater ideias, implementar remédios; ou deixar correr o marfim, confiar nos milagres, no destino, na acção dos outros. Aqui em Tomar continuamos a adorar esta última. "Entre mortos e feridos escapa sempre muita gente e alguém vai arranjar soluções".
Outras cidades, com outra envergadura, outras tradições e outras responsabilidades, têm a sorte de ter habitantes activos, que gostam de liderar e detestam ser rebocados pelos acontecimentos. Barcelona é um excelente exemplo. Muitíssimo maior do que Tomar? É sim senhor. Sem quaisquer soluções que nos possam interessar? Pelo contrário. Além dos "operadores de salubridade urbana", cada um com a sua alcofa e a sua vassoura, ou com as vespas verdes, com pequenos reboques para recolha e lavagem a alta pressão dos "bolos de cão", no recente debate "Barcelona faz frente à crise" (ver foto), foram ditas coisas importantes, que deveriam interessar sobremaneira aos tomarenses. Sobretudo aos eleitos, se...
Aqui vai um pequeno condensado. 
"Não há uma via única das cidades rumo ao êxito. Cada uma tem de fazer as suas próprias apostas. Mas penso que há um elemento comum. As cidades prósperas são as que fazem sonhar a juventude e lhe constroem ninhos para para que os jovens possam transformar esses sonhos em realidades." (Antón Costas, professor catedrático da Universidade de Barcelona)
 "São as empresas que têm de mudar a realidade. Mas as empresas catalãs ainda não efectuaram a indispensável mudança de mentalidade. Ainda não se deram conta de que agora já não é o produto que manda, mas sim o consumidor. No modelo actual, são as cidades que rebocam o resto do país; não o contrário." (Maria Reig, presidente de REIG CAPITAL, investidores).
"Gastámos como se as receitas fossem durar para sempre. Agora somos forçados a conseguir muita eficiência no sector público, porque não há recursos para continuar a assegurar muitos dos serviços actualmente gratuitos..." (Xavier Vives, IESE)
"Gostaria de ver uma cidade limpa, alegre e acolhedora, com eleitos actuando sempre a pensar na excelência, tal como se deve exigir aos empresários privados." (Josep Maria Pujol, presidente de uma grande empresa privada)

Assim vamos nós; assim vai  o mundo.

Foto e excertos de ELPAÍS, 27/02/11, suplemento Negócios, página 18