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quarta-feira, 7 de abril de 2010

ELES LÁ EM CIMA, NÓS CÁ EM BAIXO

Geograficamente é uma evidência; olhando para o mapa da Europa, estamos cá em baixo. Mas se fosse só em termos geográficos... Desgraçadamente, na cultura, na organização social, nas estruturas produtivas, nas vias de comunicação, nas mentalidades, até parece que não fazemos parte do mesmo continente. E não será só, nem sobretudo, por causa da localização. Afinal, a Catalunha ou a Galiza também são "cá de baixo" e seria puro pretensiosismo tentarmos a comparação com essas duas regiões autónomas espanholas. Sob todos os pontos de vista, menos um -o improviso. Porque é da improvisação como método de governação que provêm quase todas as nossas maleitas.
Somos os campeões do "logo se vê", "dá-se um jeito", "havemos de nos desenrascar", "remedeia-se", "não vale a pena", "vai dar ao mesmo", "tanto faz", "correu mal", "não estava previsto"... são frases comuns, tanto na função pública, como no privado, tanto na rua como em casa. Com os excelentes resultados que todos conhecemos. E com os quais, infelizmente, somos confrontados todos os dias. Por falta de treino, por falta de formação, por falta de ensino adequado, por falta de hábitos racionais, por falta de persistência, por falta de método, por falta de estruturas, por falta de projectos vinculativos.
Veja-se o caso da política. A nível local, para não complicarmos demasiado. Que situação temos ?
-Péssima ! Quais são as perspectivas ? -As piores ! Porquê ?!?! Qual o projecto do PSD ? E do PS? E dos IpT ? E do CDS ? E da CDU ? E do BE ? E do TPL ?
Onde é que constava que, caso não obtivessem maioria absoluta, PSD e PS juntariam os trapinhos numa coligação ? Quais os reais objectivos de tal consórcio entre os inimigos da véspera?
A estafada desculpa de que é assim por todo o lado, já não colhe. Por lado porque não corresponde à verdade; por outro lado porque, mesmo correspondesse, não seria ainda assim uma situação saudável ou normal numa democracia robusta e participada.
Veja-se a ilustração supra. "O método Aubry: primeiro um programa, a seguir uma candidata ou um candidato. O debate sobre o projecto do PS está a começar: reforma fiscal, reformas e aposentações, "social-ecologia"... As eleições primárias para designar o candidato ao Eliseu (Palácio onde reside e trabalha o presidente da República) serão, em princípio, no Verão de 2011."
Para os mais arredados destas coisas, a senhora Martine Aubry, formada pela ENA, a ultra-selectiva Escola Nacional de Administração (razão porque os seus alunos são designados por "enarcas", igualmente porque dominam a administração e as grandes empresas francesas), é presidente da câmara de Lille, uma grande cidade do nordeste da França, já foi ministra do trabalho e exerce também o cargo de secretária-geral do Partido Socialista Francês, para o qual foi eleita o ano passado. É filha de Jacques Delors, segundo os especialistas o melhor presidente da Comissão Eurpeia até hoje, apesar de nunca ter frequentado o ensino superior.
Pois é uma senhora com tal perfil, tais referências e tal currículo, que decidiu desencadear o processo tendente a eleger o candidato socialista às eleições presidenciais, a realizar em 2012.
Em Portugal, as presidenciais realizam-se um ano antes, conforme é do conhecimento geral. Como estamos de preparação ? Como estamos de estruturas de preparação ? É assim que queremos apanhar de uma vez por todas o comboio europeu ? Quando é que aprendemos que ao sabor da corrente nem sequer sabemos para onde vamos, se é que vamos para algum lado ?

sexta-feira, 12 de junho de 2009

NOVOS TEMPOS NOVAS MODAS

António Rebelo
As actuais estruturas políticas de representação são uma herança dos séculos XIX e XX. Sobretudo daquele. Quando as comunicações eram lentas, as organizações em pirâmide permitiam a circulação das informações, sobretudo do vértice para a base. Com o advento da comunicação electrónica instantânea, as estruturas intermédias deixaram de ter utilidade óbvia, continuando a existir sobretudo pela força dos hábitos. Um exemplo: Conforme ocorreu na recente campanha eleitoral de Obama, se o líder pode comunicar imediatamente com os seus milhões de apoiantes, para que servem as estruturas intermédias entre as bases e o topo? nO caso português, qual a utilidade actual das estruturas distritais dos partidos?
Novos tempos, novas modas. Agora os eleitores querem e conseguem obter muito mais informação, muito mais rapidamente. Tendem por isso a votar de forma cada vez mais fundamentada nos dados anteriormente recolhidos.
Manda a verdade dizer que, em Tomar, só o Partido Socialista se adaptou ao novo contexto comunicacional. Não só a secção local dispõe de um blogue, regularmente actualizado, como o seu presidente e o líder da Assembleia Municipal, estão no mesmo caso. Convém realçar este facto, porque sendo uma incontestável vantagem competitiva, acarreta igualmente alguns dissabores. Afinal, nenhuma situação, por muito boa que seja, tem só vantagens. Até a chuva, cuja utilidade ninguém nega, é incómoda para os que são apanhados sem impermeável, sem guarda-chuva ou sem abrigo.
No actual contexto político tomarense, de acentuada e evidente decadência, a opinião pública local, ou pelo menos a opinião publicada, coincinde na apreciação de que os candidatos já conhecidos à autarquia são todos boa gente, mas pouco adequados à situação que se vive. Acham, por isso os eleitores, (os mais informados e portanto líderes de opinião) que estando todos praticamente em igualdade de circunstâncias, com mais inconvenientes que vantagens, serão os projectos a apresentar que irão determinar o vencedor. É aqui que as coisas se complicam.
Face ao silêncio da imprensa local, tenho afirmado aqui repetidamente, e mantenho, que nenhuma das forças políticas locais dispõe até agora de qualquer projecto viável ou sequer digno do nome. O PSD, pouco habituado a essas coisas, parece tencionar guiar-se pelo "Tomar 2015", os IpT pela listagem de intenções de há quatro anos, o PS pela "Agenda para o desenvolvimento de Tomar", de 2004/5, a CDU e o BE por algumas ideias generosas mas largamente insuficientes.
Quando confrontados com a citada ausência de projecto viável e adequado aos tempos que correm, só os socialistas locais têm reagido, contrapondo que basta consultar o blogue PSdigital para tomar conhecimento de tudo o que os socialistas propõem aos tomarenses. Foi isso mesmo que fiz e devo dizer que o resultado não me parece nada encorajador.
Nalguns aspectos, os socialistas locais têm razão. Neste, por exemplo: "Ao assumir que o desenvolvimento do concelho assentava em 4 vectores estratégicos... ...mais não fez o PS que sistematizar o seu pensamento, coincidente em parte com o ainda eficaz "Plano estratégico de Tomar" [aprovado pela AM em 1997], mas que carecendo sempre de actualização e reformulação, ou não vivêssemos numa sociedade de mutação rápida e profunda..."
Há, porém, outros pontos em que os rosas locais tanto se esticaram que se espalharam ao comprido, conforme se pode ver nestas propostas, copiadas do "Contributo do PS para a discussão sobre a cultura", de Setembro de 2006: "Facilitação da criação de um Centro Ibérico de Esoterismo... ...reformulação/abertura/articulação de uma Rede de Parques de Campismo... Reformular o Parque de Campismo Municipal, na zona de implantação do Plano de Pormenor respectivo, com infra-estruturas condignas, fazendo as necessárias alterações ao respectivo Plano de Pormenor (Polis)... ... ...Garantir em 2007 o funcionamento do novo Parque de Campismo Municipal da Machuca... ...Desenvolver uma estratégia articulada com os outros municípios... ...para a constituição até 2o13 de uma orquestra semi-profissional."
Fico por aqui, pois seria fastidioso continuar, até porque está já demonstrado o que se pretendia. Regra geral, os projectos partidários não passam de listas de boas intenções, algo desligados da realidade e, por isso mesmo, em muitos aspectos, quando nascem já são velhos. É o caso deste, inquestionávelmente anacrónico.
A partir daqui, os dirigentes locais tem dois caminhos possíveis: A - Aceitam a crítica e metem mãos à tarefa de arranjar um projecto capaz e realista, a apresentar ao eleitorado em Outubro, o mais tardar. B - Insistem na tecla de que os críticos são uns malvados que querem é prejudicar o partido e roubar-lhes os lugares. Nenhuma das opções é cómoda, mas sendo a curva cada vez mais apertada, quanto mais cedo "derem o corpo à curva", menos riscos terão de sofrer um acidente grave...
(O negrito e a parte entre [ ] são de Tomar a dianteira)