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domingo, 2 de maio de 2010

PARA ONDE VÃO OS NOSSOS IMPOSTOS - 1

Após a leitura da mensagem anterior, alguns leitores mais sensíveis alvitraram ser demasiado deselegante apodar de ignorantes os nossos autarcas. Têm razão, mas não foi isso que se escreveu. Com a crescente complexidade do mundo, em cujo seio somos forçados a viver, ignorantes somos nós todos. Há, todavia, dois grandes grupos - 1 - Os que sabem que não sabem; 2 - Os que nem isso sabem.
Os primeiros têm a honestidade, a franqueza e a humildade necessárias para confessar a ignorância e pedir esclarecimentos a quem saiba. Nada mais natural. É para isso que servem os quadros superiores, os assessores, os conselheiros, os especialistas, os consultores, etc. Os outros têm o hábito de se fechar na sua torre de marfim, fingindo que sabem tudo e nada perguntando. Aqueles vão aprendendo; estes cada vez sabem menos.
Regra geral, os eleitos que temos, salvo uma ou outra rara excepção, pertencem ao segundo grupo. Infelizmente para eles, desgraçadamente para nós todos. Porque na verdade até são pessoas sãs, normalmente inteligentes, socialmente frequentáveis e politicamente válidos, conquanto criticáveis, como todos nós. O problema é que uma vez sentados na cadeira do poder, têm tendência a perder o Norte, a considerar que fazem parte de um escol, a resvalar para a esperteza saloia. Acontece que, como é sabido, um esperto é apenas um inteligente de curto raio de acção. Não alcança para além de uma certa distância física ou temporal. Donde os peculiares problemas do país e da nossa cidade, como por exemplo a crise e o paredão-Muro das lamentações.
A provar o que acaba de ser dito -que os autarcas tendem a resvalar para a esperteza saloia- trazemos para aqui uma iniciativa autárquica tomarense de Julho do ano passado. Nessa altura a Câmara contratou, por 9355 euros + IVA = 1.871 contos, almoços e lanches para o "Passeio dos Idosos". O tema foi aqui abordado, tendo alguns dos nossos leitores opinado que os velhotes têm direito a essas coisas gratuitas, oferecidas tanto pela Câmara como pelas Juntas de Freguesia, após uma vida inteira de trabalho e de problemas. É o chamado "raciocínio à grega". O povo tem todos os direitos e nenhuma obrigação. Infaustamente, os helenos acabam de ser privados, de uma assentada, do 13º e do 14º meses. É a crise. E os nossos conterrâneos e demais compatriotas que se vão pondo a jeito. Os ventos rudes sopram agora na nossa direcção.
Face às acima referidas excursões e outros passeios, há um outro grupo, mais cínico, que diz em privado não ser nada caro comprar votos entre dez e quinze euros cada um, uma vez que quem paga são os contribuintes. Trata-se de mais um erro de perspectiva; da tal esperteza saloia. Ao custo dos almoços e lanches há que somar o aluguer dos autocarros privados, o combustível, o desgaste de material e o motorista do da Câmara e os prejuízos evidentes das agências de viagens, pagadoras de impostos, que evidentemente perdem muitos clientes com essas saídas tudo pago, à custa dos contribuintes.
A isto os senhoras autarcas responderão que há neles uma real preocupação com a terceira idade e com os casos sociais. Que nem sequer pensaram alguma vez na compra de votos. Pois ! Mas o Sousa continua a viver nas retretes, o talibã morreu numa casa abandonada, a Sandra também, e o Albergue nocturno da Calçada dos cavaleiros continua em ruínas...
Reconheça-se, no entanto, que a autarquia é a única, neste momento, a poder levar de borla os idosos de carrinho com o Carrão. Pois então !