"Acabei de tirar o Cartão do Cidadão. Poder votar em Portugal e no Brasil é uma dupla responsabilidade, sobretudo agora." Fabrício Nobre, o engenheiro carioca que viajava pela Europa quando conheceu uma portuguesa na fila do pequeno-almoço de um hotel em Londres, diz que não tem razões de queixa. Nem de Portugal nem dos portugueses. Aqui casou, aqui nasceram as suas duas filhas, uma com 3 anos, outra com 3 meses. No país há dez anos, Fabrício começou por trabalhar por conta de outrem, até que decidiu montar o seu negócio: "Na altura podia ter ido para o desemprego, ou usar as ferramentas que o governo dava para criar o próprio emprego. Eu preferi as ferramentas." Escolheu bem. Fabrício tem uma pequena empresa de software de gestão e entre os seus clientes está uma das empresas onde trabalhou. Começou sozinho. Hoje tem dois colaboradores. O brasileiro, que já se naturalizou português, mantendo também a nacionalidade de origem, diz que nunca teve a sorte de viver num país onde as pessoas sentissem tanto brio em trabalhar como no Japão. "Em Portugal, acho que se gasta muita energia a reclamar e pouca a produzir. Os políticos fazem mal uns aos outros, os sindicalistas organizam passeatas, o voto não é obrigatório e as pessoas, como não confiam, não se mobilizam para votar. Eu venho de um país igual ou pior, mas sonho com um melhor. E se tiver de escolher essa nação, eu quero que seja Portugal." Até por isso, Fabrício diz que tem a preocupação de saber onde vai ser usado o dinheiro do pacote de ajuda externa. "Estou confiante. Mas independentemente de quem ganhar as próximas eleições, a troika tem de vir cá com regularidade, para controlar o uso da grana. Ou isso ou, como diz um amigo meu, entreguem a gestão disso aí ao Belmiro deAzevedo, porque o cara nunca brinca em serviço,"
Texto de Célia Rosa, Foto de Orlando Almeida/Global Imagens Revista NS, Diário de Notícias de 28/05/2011 |