As obras da rotunda trouxeram mais uma vez para a ribalta da actualidade local a nossa triste situação de facto -somos geograficamente europeus mas indiossincraticamente norte-africanos. Aceito que não seja nada confortável, mas as coisas são o que são. Vejamos de forma detalhada.
O que choca nas caríssimas obras da nova Rotunda do muro-mijatório é afinal, se repararmos bem, comum a todas as empreitadas públicas, pelo menos aqui em Tomar, e que pode ser resumido numa expressão -um rosário de erros e carências. Em geral, o problema começa logo na ideia inicial ou fundadora. Mal alinhavada, pouco trabalhada, nunca confrontada com o debate de ideias, descamba quase sempre em soluções coxas ou empenadas. Neste caso rotundeiro ainda ninguém percebeu, por exemplo, qual a justificação para a demolição do anterior tanque central, uma vez que acabaram por fazer um praticamente igual no mesmo sítio.
Segue-se o projecto, logo na origem ferido de asa, porque passado ao papel tendo em conta as referidas soluções deficientes. Foi assim que ficámos com a inútil barraquinha do Mouchão, as retretes com recepção da Mata, ou a ribanceira sem acesso ao Mercado, no Flecheiro.
Uma vez que regra geral, salvo quando são da especialidade, os senhores autarcas não sabem ler desenhos técnicos, mas também não ousam informar-se com gente habilitada, para não exporem as suas carências, vem a seguir a aprovação de planos que os eleitos não sabem de forma detalhada a que correspondem, ou sequer se são exequíveis. Exemplos: o muro mijatório, o ex-estádio sem bancadas nem balneários, a ponte do Mouchão - Campo de treinos, o pobre caminho pedonal cidade - castelo pela Mata...ou o lamentável paredão do Flecheiro.
Já na fase da adjudicação, entram em jogo outros factores, que têm a ver com "palavrinhas", cunhas, financiamentos partidários, "lubrificações" diversas e acordos por baixo da mesa. Tudo isto, ou parte, torna depois extremamente complicada a execução da obra, pois além dos compromissos assumidos é igualmente imperativo conseguir lucros leoninos. Apesar de o preço oferecido ter sido a maior parte das vezes calculado às três pancadas. Com aliás o valor global da obra posta a concurso. Por vezes acontece até que o valor publicitado constitui uma ofensa ao bom senso. Há obras tomarenses, para ficarmos na zona, cujo preço final foi superior a outras semelhantes edificadas em grandes capitais europeias, com mão de obra muito mais cara.
Se disserem a um holandês ou a um alemão que aquela Rotunda custou aos cofres europeus e aos contribuintes portugueses 515 mil euros = 103 mil contos, perguntarão logo onde é que colocaram o revestimento em ouro.
Em virtude dos compromissos diversos anteriormente assumidos por ambas as partes, uma vez a empreitada concluída, o "dono da obra", representado pelo triângulo políticos-técnicos-fiscalização, não está nada motivado para exigir o estrito cumprimento do caderno de encargos, sobretudo na parte dos acabamentos. E isso nota-se em todas as obras públicas ou privadas.
E assim temos uma geral e evidente falta de qualidade, que nos torna a todos, aos olhos dos cidadãos (visitantes ou não) com mais mundo, mais parecidos com os norte-africanos do que com os europeus. E tal problema não se resume infelizmente às obras; é geral. Falta limpeza urbana, manutenção, conservação, bom gosto, brio profissional. Em vez disso, temos desleixo, desmazelo, deixa andar, tá bom assim, pró quié bacalhau basta, vai dar ó mesmo. É só andar por essa cidade fora, ou pelos arrabaldes das cidades médias portuguesas...
Temos até uma terrível sentença, para a qual nunca encontrámos equivalente por essa Europa fora: "O patrão paga mal, mas também se lixa que é mal servido!" Comentários para quê? A frase é eloquente e auto-suficiente. Não temos, na esmagadora maioria dos casos, trabalhadores qualificados, briosos e motivados, nem vontade de os vir a ter. Daria muito trabalho e custaria somas consideráveis. E no entanto é por aí que teremos de ir. Quando houver coragem. Quando a situação crítica a isso nos forçar. Como aconteceu nomeadamente na AutoEuropa.
Um exemplo flagrante, a concluir. Não nos foi contado. Aconteceu connosco. Num daqueles restaurantes a mais de 40 euros por cliente, com ementa portuguesa recheada de terminologia estrangeira, -sobretudo francesa- e empregados de mesa tipo "sapato engraxado, calça preta de vinco, camisa branca, nó "papillon" e casaco branco impecável". Consultado o cardápio, cada conviva faz a sua encomenda. Chegada a nossa vez, pedimos um cado verde e um "tournedos aux champignons", de acordo com o anunciado na ementa. Interpelação pronta e enérgica do empregado de mesa, do alto dos seus quarenta e tantos anos -"VOCÊ sabe o que é um "turnedó" ? Gargalhada geral à mesa, e nós a tentarmos remediar -Realmente não, mas O SENHOR vai-nos explicar, não vai? Então faça lá esse favor! Sorrisos contidos...e adiante que a fome aperta...
É por estas e por outras que os turistas estrangeiros (e até muitos portugueses...), preferem os países do terceiro mundo. A qualidade é sensivelmente a mesma, mas os preços são bem mais convidativos.