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quinta-feira, 21 de abril de 2011

VENDE-SE O COLISEU DE ROMA PARA EVITAR A SUA RUÍNA - 4

"Um panorama desolador, que levou à demissão não só Bondi mas igualmente dos seus dois vices. Primeiro o professor Salvatore Settis e logo depois Andrea Carandini, que finalmente decidiu reconsiderar, quando o governo prometeu recuperar parte dos 150 milhões de euros este ano retirados do  Fundo Único do Espectáculo (FUS), mediante a subida de um cêntimo em cada litro de gasolina. 
O governo defende-se, argumentando que em tempo de crise o custo do pessoal da área da cultura absorve 70% do orçamento público. Acrescenta que se devem reduzir os quadros, pelo que até 2013 não haverá mais admissões de funcionários no sector público cultural. "Estão a estrangular-nos", responde Luigi Ficacci, superintendente da pinacoteca bolonhesa. "Fui forçado a rescindir o acordo com uma associação de reformados, que supria a falta de pessoal (40 vigilantes para 30 salas), por poucos euros/hora. Enel ameaça cortar-nos a luz. Estou sem dinheiro para pagar a electricidade. Estamos agora a pagar facturas do ano passado, naturalmente acrescidas de juros. De forma que não tenho mais verba disponível. É impossível organizar exposições temporárias, que trariam mais visitantes e seduziriam mecenas privados. Por este caminho, vamos desaparecer do mapa. Estamos convertidos num sujeito passivo, que só dá prejuízo ao estado."
Na verdade, um animal ferido de morte. Os visitantes foram quase 46 mil, em 2008. Agora já não chegam a 33 mil e continuam a minguar, à medida que reduzem o financiamento do estado. "Comporto-me como administrador-delegado de uma sociedade à beira da falência, não como um funcionário do estado. Passo o tempo a preparar projectos e a levá-los a bancos, fundações e outras empresas. Procuro desesperadamente conseguir fundos, mas é cada vez mais difícil". A Fundação Prada acaba de assumir o restauro de quatro gessos do XVIII. "Vão gastar só 25 mil euros, mas conseguem assim vincular a marca a um arquétipo da beleza. Sem esse dinheiro, não se podia fazer nada. Se calhar é a única via que nos resta."
O conflito de interesses não podia faltar. Electa Mondadori, divisão artística do grupo presidido pela filha mais velha de Berlusconi, explora em regime de concessão 43 lojas de museus e monumentos, desde o Coliseu e Forum Romano, em Roma, a Capodimonte e o Madre, em Nápoles. Em 2009, facturou 29 milhões de euros e conseguiu 70% do total de concessões estatais a empresas de serviços culturais. Em contrapartida, também em 2009, a Superintendência apenas obteve 5 milhões na mesma área, segundo o já citado programa Ballaró.
A ministra do turismo, Michela Vittoria Brambilla (incentivadora do spot Mágica Itália, graças as suas relações amistosas com Berlusconi), anunciou recentemente num programa televisivo que "O meu ministério está a fazer folhetos em vários idiomas e tantas, tantas, tantas outras coisas, para valorizar o património italiano."
Pompeia vai caindo aos poucos, um sapateiro explora o Coliseu de Roma, há teatros que fecham, a cultura e o espectáculo agonizam, a gestão do património mais belo do Mundo está, cada vez mais, em mãos privadas. Um só par de mãos. As de Berlusconi. Você já sabia?"


Nota final de Tomar a dianteira:

Este longo relatório fúnebre de uma determinada política cultural que já teve o seu tempo, é igualmente um requiem antecipado pelo actual modelo português de gestão cultural (monumentos, museus, palácios, arqueologia, eventos).
O leitor terá decerto reparado que os próprios profissionais do sector, muito causticados pelas sucessivas reduções orçamentais, já encaram o recurso ao sector privado como o caminho do futuro. O único possível, dado que o Estado já não tem os meios orçamentais de que dispunha durante o longo período de expansão económica, conhecido na Europa além-Pirinéus como "os trinta gloriosos" (1945/1975).
Em Portugal, como sabemos, fomos bastante infelizes na nossa felicidade -Lográmos a democracia graças aos militares de Abril, quando as vacas gordas -sabêmo-lo agora- já  estavam de malas aviadas, rumo a continentes mais atrasados e por isso mesmo bastante mais acolhedores. Onde se situam os agora chamados países emergentes, cujas economias vão de vento em popa, enquanto por aqui a crise é cada vez mais grave.
Ah! Se se os portugueses -particularmente aqueles que habitam localidades ricas em património- pudessem entender o que se passou e está passando em Itália, daí tirando as respectivas lições, outro galo nos cantaria! Mas quê! Já o romano que por cá andou se foi lastimar que "os lusitanos nem se sabem governar, nem querem que os governem". Passaram mais de 2 mil anos, mas continua a ser verdade. Até quando?
Na minha modesta opinião, até que haja quem nos ature e nos sustente. Alemães, finlandeses, austríacos, holandeses e outros europeus do norte,  já começam a refilar. No fundo, a mesma atitude que temos por estas bandas em relação aos ciganos. Em ambos os casos com alguma razão, seja dito em abono da verdade.