Mostrar mensagens com a etiqueta política economia crise troika medidas de austeridade. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta política economia crise troika medidas de austeridade. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 22 de abril de 2011

A VERDADE SOBRE AS INTENÇÕES DA TROIKA

Foto Hamilton/REA/Le Monde

Quase todos culturalmente desligados do mundo europeu, os jornalistas e repórteres lisboetas simulam esfalfar-se na busca incessante de novidades, oriundas dos peritos estrangeiros que doravante vão governar o país de facto. É triste e lamentável ver na TV aquela maralha toda, assediando os recém-chegados representantes dos nossos credores, quando é óbvio que estes nada lhes dirão. Nem eles nem os seus chefes. Pelo menos até 6 de Junho. Por razões óbvias. O ataque à nossa crónica crise não é um daqueles derbys do futebol, com abundantes comentários antes e depois. Os jornalistas é que, vivendo numa sociedade onde o futebol até "abre" telejornais, estão lamentavelmente convencidos disso. Sem se darem conta.
Quem não anda neste mundo por ver andar os outros, sabe que a citada troika é liderada pelo FMI, tal como este é governado por DSK - Dominique Strauss-Kahn, militante e dirigente socialista francês, enarca, presidente de câmara, deputado e ex-ministro da economia e finanças, virtual candidato vencedor das presidenciais francesas, (caso se apresente), de acordo com a sondagens, naturalmente com os mandatos suspensos, em virtude das funções supranacionais para as quais foi escolhido. Tal como é sabido que, para as questões sensíveis, o usual porta-voz do FMI/DSK é o seu amigo de longa data, companheiro nos bancos da ENA - a elitista Escola Nacional de Administração, que forma a fina-flor da alta administração gaulesa- e seu camarada no PS francês, Olivier Blanchard, agora economista-chefe do FMI.
Puro produto da alta meritocracia francesa, republicano convicto e devotado servidor da causa pública, Blanchard conhece bem todos os códigos de conduta e todos os matizes da comunicação. A informação parisiense refere amiúde que sabe usar a litota -aquilo a que por aqui se designa por subentendido, ou linguagem perifrástica. E qual é, neste momento, a posição do FMI em relação a Portugal e à crise em geral, através das palavras do seu credenciado economista-chefe?
Bom estratega e excelente diplomata, respondeu à primeira questão de uma recente entrevista respeitando escrupulosamente a arte da guerra. Antes de qualquer ofensiva da infantaria, blindada ou não, é crucial um uso intenso da artilharia pesada: "Temos razões de inquietação em relação aos Estados-Unidos, por não disporem de um plano credível, a médio prazo, para reduzir os défices orçamentais. O debate entre os dois grandes partidos, que terminou a 8 de Abril, com a adopção de um plano de austeridade de 39 mil milhões de dólares (27 mil milhões de euros) é insuficiente." Colocado assim no seu lugar o santuário do capitalismo mundial, onde de resto começou a crise, passou então à Europa e aos "países periféricos".  Modo subliminar de transmitir aos respectivos dirigentes que, se até os ultra-poderosos Estados-Unidos levam puxões de orelhas, é evitado continuarem a armar ao pingarelho. Farão o que lhes for imposto. E negociações, só para a fotografia! 
Se Sócrates não fosse, enquanto primeiro-ministro e secretário-geral do PS, um autista cego e surdo, Portugal pouparia muito tempo e evitaria muitas desgraças, que a obstinação nunca deu bons resultados.
"Os países europeus da periferia não vão conseguir salvar-se unicamente com sacrifícios orçamentais. Uma vez que não podem desvalorizar, por integrarem a moeda única -o euro- vão ser forçados a aumentar a produtividade, a baixar os salários, ou ambas as coisas.
O que supõe reformas estruturais, sobretudo no mercado laboral. Há que acabar com os contratos a prazo e os vitalícios. O que supõe também reformas no mercado dos bens, pois muitos sectores protegidos têm uma muito fraca produtividade. Em Portugal, por exemplo, o sector imobiliário é de uma grande ineficácia, dada a ausência de economias de escala, porque o excesso de regulamentação impede a constituição de um parque homogéneo.
O efeito destas reformas levará o seu tempo a fazer-se sentir. Antes que se vejam os respectivos resultados, os países em causa vão continuar a ter muitas dificuldades para se financiar nos mercados. Em qualquer caso, é absolutamente necessário que, tal como no resto da Europa, que se arrasta a 1,5% de crescimento e é forçada a efectuar reformas dolorosas, os países periféricos compreendam que os seus esforços terão ser prosseguidos durante muitos anos."
Mais claro do que isto é difícil. Nada a negociar. Sabemos muito bem o que devem fazer. Vamos obrigar-vos a fazer, sem vos pedir opinião. Vai ser doloroso, angustiante e muito longo. Tem de se acabar com a actual regulamentação do mercado do trabalho. Suprimir os contratos colectivos de trabalho. Liberalizar as actividades e as profissões agora legislativamente enquadradas. Desbloquear as rendas, os contratos de arrendamento e os despejos. Reduzir salários. (Anulando o 13º e o 14º mês, reduz-se entre 16 e 17% o rendimento anual) Aumentar o horário de trabalho. Reduzir drasticamente a função pública.
Vasto programa! Mas que só será tornado público a totalidade, bem entendido, após as eleições de 5 de Junho. Caso haja coragem política para tanto, por parte dos vencedores da consulta eleitoral. Depois será apenas questão de definir a respectiva calendarização. Quem cuidava poder continuar a viver à custa do orçamento de estado, bem pode ir arranjando outra mentalidade. Mais adequada aos novos tempos. Caso contrário vai ter problemas sérios! Não é verdade, senhores autarcas nabantinos?

(A entrevista de Olivier Blanchard, da qual foram copiadas a citações a azul, pode ser lida na íntegra em lemonde.fr, por quem saiba francês)