1 - Os últimos dias têm sido férteis em manobras de bastidores. Tudo no sentido de encontrar quanto antes uma solução para o cada vez mais grave drama humano e político local. No sentido de procurar habilitar tanto os protagonistas, como os restantes eleitores interessados, resolvemos tentar pôr tudo em pratos limpos.
2 - A presente crise na estranha coligação resulta do facto que, logo no início, aqui assinalámos, tendo sido os únicos a fazê-lo -O insólito casamento de conveniência não podia ter vida longa, devido, entre outros, a dois obstáculos dificilmente ultrapassáveis: interesses contraditórios e traição de ambos em relação aos que os elegeram.
3 - O referido acordo de mancebia política, e de repartição de lugares à mesa do orçamento municipal, foi feito partindo designadamente da falsa premissa de que a informação local continuaria, como em mandatos anteriores, mansa, cordata, obediente, e muda quando convém. Erro crasso. O "incidente Lobo Antunes", por exemplo, foi noticiado unicamente pelo MIRANTE, um jornal de fora, de pouca audiência em Tomar, mas logo difundido por Tomar a dianteira, cuja audiência é igualmente modesta, porém qualitativamente muito superior. Os efeitos práticos dessa difusão estão agora à vista de todos. Ou pelo menos dos que não usem óculos de lentes partidárias.
4 - Estamos em condições de garantir que a moção do Bloco de Esquerda, aprovada com o voto de qualidade de Miguel Relvas, bem como o deliberado empolamento do incidente Lobo Antunes, não passam de meros argumentos circunstanciais para apoiar uma determinada estratégia partidária do PSD. Na verdade, muito antes de tais ocorrências já os novos dirigentes sociais-democratas insistiam com Corvêlo de Sousa para renunciar, deixando o lugar para Carlos Carrão e permitindo a entrada no executivo de José Perfeito. Uma vez na presidência, Carlos Carrão logo poria fim à coligação, passando a governar, consoante as circunstâncias, com o apoio dos IpT ou do PS. Ou até de ambos.
5 - O fracasso desta estratégia tornou-se evidente quando o actual presidente, insistentemente convidado a sair, nunca tomou tal decisão, tendo até sido apodado por alguns dirigentes locais de "mentiroso compulsivo".
6 - Dadas as circunstâncias, Tomar a dianteira consultou algumas fontes de total confiança, tendo conseguido apurar que as etapas seguintes seriam uma exigência pública de renúncia imediata e, posteriormente, se necessário, retirar a confiança política ao actual presidente. Tudo isto antes de existir sequer o agora célebre "incidente Lobo Antunes". E muito menos a teleguiada moção.
7 - Posteriormente, a actual e a anterior direcção laranja terão conseguido chegar a acordo, faltando no entanto apurar os respectivos contornos. Em todo o caso, a situação da autarquia é agora de tal modo grave e complicada, que se pode falar de uma evidente homologia com a crise nacional. Com efeito, se o primeiro-ministro, em vez de ostentar o seu usual optimismo balofo, tivesse tido a coragem de promulgar, em Maio passado, as medidas de austeridade já então indispensáveis, teria evitado a vergonha de ser agora desmentido pela conjuntura e forçado a implemetar decisões bem mais gravosas para todos. Que de qualquer maneira são insuficientes e provocarão inevitavelmente uma grave recessão, de consequências por agora imprevisíveis.
8 - Da mesma forma, se Corvêlo tivesse renunciado em tempo oportuno, quando tal lhe foi ditado pelo PSD local, a crise nabantina seria agora diferente, com Carrão ao leme, secundado por Perfeito, e eventualmente já sem a actual e estranha coligação. Como a história nunca se fez nem se faz com SES, estamos agora todos confrontados com uma situação cujo desfecho positivo é altamente problemático.
9 -Com tanta peripécia, no póquer político local, cada jogador foi marcando tão ostensivamente as suas cartas, que agora todo o actual baralho está irremediavelmente viciado. Resta portanto, a nosso ver, uma única saída benéfica para todos. Dolorosa, mas benéfica para todos: Dar lugar a novos jogadores e mandar vir um baralho novo. Autárquicas intercalares são nesta altura a única solução racional, viável e profícua, para tentarmos sair do presente pântano nabantino.
10 - Luís Ferreira escreve no seu blogue (vamosporaqui) que, se o PS decidir continuar coligado, pode por esse facto vir a ser muito prejudicado em futuras eleições. Tem toda a razão. Mas todas as outras formações políticas do tabuleiro local estão na mesma situação. Quanto mais se prolongar esta marcha cada vez mais rápida rumo ao abismo, mais virão a ser punidos futuramnte pelo eleitorado. Isto porque, pelo menos aqueles cidadãos mais informados, já percebeam que, apesar das proclamações e promessas várias, feitas aquando da pretérita campanha eleitoral, afinal todos os eleitos estão sem roupa e com uma mão à frente, outra atrás. Ou, noutra imagem, com uma mão cheia de nada e a outra de coisa nenhuma, no que toca a projectos estruturados para ultrapassar este doloroso "definhanço". É uma pena e bastante penoso, mas é assim.
11 - O PS reúne hoje à noite. Audácia precisa-se. Realismo é indispensável. As coisas são o que são. Não aquilo que nos agradaria que fossem.