
Foto DN/NS
Ao fim de tantos anos a viver em Tomar, cuidava já ter visto tudo. Estava redondamente enganado. Uma notícia recente, no site da Rádio Hertz, deixou-me embasbacado, estarrecido e esclarecido. Para sempre ? É o que falta saber.
De acordo com a referida peça noticiosa, na mais recente reunião do executivo, Carlos Carrão, Luís Ferreira e Pedro Marques afirmaram, cada um no seu estilo próprio, ser necessário, indispensável e urgente ajudar o União de Tomar. Ou seja, numa estranha e rara convergência, todas as tendências se declaram favoráveis a uma acção de socorro a favor do velho emblema nabantino. Apesar de manifestamente ignorarem a natureza, o montante ou a duração de tal ajuda. De tal forma assim é que Luís Ferreira declarou caber à direcção do referido clube indicar à autarquia que ajuda pretende realmente.
Temos assim que, numa câmara atascada em dívidas, de tal forma que até já contraiu novos débitos junto da banca para liquidar outros mais antigos a particulares; numa câmara que não consegue garantir sequer os serviços mínimos de forma decente; numa câmara que não tem meios para terminar as obras de saneamento na cidade antiga; numa câmara que deixa arrastar-se a conclusão das obras no Largo do Pelourinho; numa câmara que fechou os sanitários públicos, por não conseguir mantê-los limpos e em funcionamento; numa câmra, enfim, que tolera um cidadão tomarense a viver nuns sanitários, mesmo em frente da melhor unidade hoteleira da cidade; numa câmara assim, assiste-se ao despautério de todas as tendências políticas do executivo concordarem no desperdício de fundos públicos, para ajudar um clube local sem sede, sem estádio, sem património, sem jogadores negociáveis e sem qualquer projecto consistente, para além do pagamento da dívida ao fisco. Será isto realista e razoável ? Em nome de quê e de quem ? Terá sido para isso que vos elegeram ?
Não me venham com velhas glórias, com o prestígio da cidade ou com outras lampanas do género. Não sendo inimigo do União ou de qualquer outra colectividade tomarense, sou no entanto forçado, em nome da coerência e do realismo, a dizer que qualquer ajuda monetária apenas contribuirá para prolongar um pouco mais o martírio de um evidente cadáver adiado, que toda a vida esteve em crise. Quanto à razoabilidade dos seus actuais dirigentes, basta pensar que, quando o ano passado o Riachense renunciou à subida de escalão por si conquistada, logo o União pretendeu substituí-lo. Com que meios ? Bazófia ? Presunção ? Afigurações ?
Costuma dizer-se que "quando a esmola é grande o santo desconfia". No caso presente, temos até dois inimigos de estimação, que dizem um do outro o que Maomé nunca disse da carne de porco, perfeitamente de acordo para se avançar com mais uma ajudazinha. Não será fartura demasiada ? Têm mesmo a certeza que se trata de tentar ajudar a colectividade vermelha e preta ? Ou serão apenas episódios de uma encenação tendente a conquistar, em futuras consultas eleitorais, os votos dos unionistas ? Olhem que até já houve um candidato eleito assim, e depois verificou-se que afinal era só fumaça...
Poderão replicar que, igualmente endividado até às orelhas, o governo português vai, não obstante, ajudar a Grécia com a modesta soma de 877 milhões de euros. É verdade, mas totalmente diferente do caso nabantino autarquia/União. O Estado português só avançará essa soma se e quando solicitada, no quadro de obrigações internacionais livremente assumidas. E fá---lo-á a título de empréstimo, com um juro confortável de 5%. Dado que obterá tal soma a uma taxa mais modesta, ainda acabará por ter um retorno simpático.
No caso do União trata-se, pelo contrário, como sempre se tratou, de dar como esmola dinheiro proveniente do orçamento municipal, sem que alguém saiba em detalhe com que intenções ou objectivos.
Resumindo: O União merece ser ajudado ? Acho que não, admitindo que outros pensem o contrário. Devem todos os contribuintes tomarenses ser forçados a contribuir para o União ? É claro que não. E os que querem o contrário, têm bom remédio -metam a mão na consciência e a seguir ao bolso. Não andem sempre à mama do dinheiro dos outros, que tanta falta faz para outras tarefas mais úteis para todos. O tempo das vacas gordas já lá vai, e nunca mais voltará !
António Rebelo