quarta-feira, 10 de março de 2010

ENQUANTO NOS DOER...


Os leitores farão o favor de desculpar a insistência. Nós aqui no blogue, temos um princípio que procuramos nunca traír: nenhuma das observações, positivas ou negativas, feitas pelos comentaristas, cai em saco roto. Podemos não responder e até perdoar, mas não esquecemos. Por outro lado, ao invés do conhecido fado "Cantarei até que a voz me doa", nós, enquanto nos doer, continuaremos a "cantar".
Partindo de anteriores observações, segundo as quais a comparação aqui feita era demagógica, porque num dos recibos havia acertos, fomos de novo à procura e, como quem procura sempre acha, aqui temos o resultado: Em cada consumo mínimo de 5 metros cúbicos, os consumidores tomarenses pagam mais 6,49 € em relação aos de Ourém e perdem um metro cúbico de água. Os recibos supra são como aquele algodão do anúncio televisivo -não enganam ! 6,49 não é grande coisa ? Pois não ! São 1.298 escudos mensais =15.576 escudos e menos 12 metros cúbicos ao fim de cada ano ! Para quem vive da política, não é nada, realmente. Para os pobres trabalhadores, pensionistas e outros reformados...
O compadre Zé da Bilha e outros apaniguados vieram igualmente com uma história da carochinha, afirmando que a VEOLIA, uma multinacional privada, implantada dos USA à China, está a fornecer água em Ourém a perder dinheiro e que só em 2013 é que os consumidores de Ourém vão ver como elas lhes mordem. Trata-se de uma reles patranha, que envergonha quem a engendrou, se tal pessoa souber realmente o que é vergonha. Consultados os competentes serviços anti-dumping da Comissão Europeia (a internet permite estas coisas com rapidez; basta dar-se ao trabalho) foi-nos dito que tal prática é estritamente proibida e severamente punida em toda a UE, pelo que devemos enviar qualquer prova cabal em nosso poder e imediatamente haverá inquérito, eventualmente seguido de multa e de suspensão da concessão, se for caso disso. Estamos esclarecidos, compadre Zé da Bilha ? Faça o favor de arranjar outra desculpa que a anterior era demasiado tosca.
Aproveitando o ensejo, esclarecemos todos os nossos concidadãos, que mais de 35 anos após Abril ainda não conseguiram habituar-se a viver em democracia, agindo em conformidade, daquilo que nos parece ser básico. Eis portanto, em linguagem metafórica, os princípios dundamentais da cidadania democrática:

A - Cada doente tem o direito e o dever de se queixar quando lhe dói, esclarecendo onde lhe dói.
B - O facto de exercer o direito de se queixar, não significa que tenha sempre razão.
C - Cabe ao médico ouvir os doentes, examiná-los, estudar as queixas, estabelecer o diagnóstico e indicar a terapêutica.
D - O doente tem o dever de comunicar sempre ao médico os efeitos da terapêutica por ele indicada, sem nunca procurar impôr a sua própria medicação.

Os senhores clínicos terão a bondade e a humildade de desculpar esta abusiva intromissão em seara alheia, motivada por alguns sindicalistas e outros trabalhadores, que não concordam com o congelamento de vencimentos e outras medidas de austeridade. Como se coubesse aos doentes indicar a terapêutica para a doença que afecta o país, ou como se uma tuberculose, por exemplo, se pudesse curar com aspirinas. Trata-se, em resumo e afinal, de tentar fugir com o dito à seringa, por parte de quem sabe muito bem que tem de levar as injecções, quer queira, quer não.

terça-feira, 9 de março de 2010

HAJA PACHORRA !!!

No ex-estádio 25 de Abril foi que todos sabemos. Para resolver o problema da insuficiência de corredores na pista de atletismo, gastaram-se alguns milhões de euros e agora temos os ditos corredores regulamentares, mas deixámos de ter balneários e bancadas. Valeu a pena ?
Na Corredoura colocaram-se vários projectores de solo, que nunca tiveram qualquer utilidade prática. Para quê?
Agora com o POLIS, estamos na mesma: uma esplanada cujo utilidade prática se não vislumbra, instalações sanitárias praticamente confidenciais, mas não houve verba suficiente para rebocar e pintar o muro de cemitério velho virado para Santa Maria, nem sequer para acabar de calcetar ou ajardinar a faixa entre o referido muro e o passeio.

Alheios a estas parolices, poetas e pintores continuam a gostar muito da nossa terra, e nós continuamos a ficar muito inchados de contentamento, como se contribuíssemos minimamente para essa atracção. Manda a verdade dizer que, regra geral, os turistas portugueses gostam muito de Tomar, mas nem tanto dos seus habitantes, que consideram trombudos crónicos. E não é que, salvaguardadas as naturais excepções, têm toda a razão ?!

Além de comportamentalmente peculiares, os tomarenses também têm tido em geral nítida falta de sorte com os projectistas que por cá têm exercido a sua arte. Para não irmos mais longe, basta reparar nesta via pedonal, à ilharga da nova ponte paivina. Aquele desvio ali ao meio terá sido para evitar que os transeuntes adormeçam enquanto caminham ? Ou apenas para gastar mais pedra e mais tempo de mão de obra qualificada ? Isto para não dizer que estamos perante uma representação do feitio de muitos tomarenses -aparentemente singelo, mas na verdade bastante retorcido, sem qualquer necessidade ou proveito.

Conforme tem acontecido com quase todas, senão mesmo com todas as obras, também por estas bandas os acabamentos deixam muito a desejar. Por um lado, ainda ninguém percebeu a utilidade do paredão, nem sabe qual ou quais os motivos que determinaram a sua interrupção a meio percurso entre as duas pontes. E há pelo menos um processo em tribunal contra a autarquia, de um comerciante que deixou de ter acesso motorizado à sua garagem. Mais uma indemnização em perspectiva ? Por outro lado, imediatamente a jusante do açude insuflável, o panorama da margem poente é este. A diagonal a preto e branco, do lado direito, indica onde estava a margem há dois meses. Mais uma ou duas pequenas enchentes, e lá se vai a pista ciclável. Também, a falta que faz por ali, uma vez que nem sequer tem saída...

O PROCESSO DE DIVÓRCIO JÁ COMEÇOU ?

Mal foi conhecida a estranha e circunstancial coligação 3+2, escrevemos aqui que se tratava de um casamento à alentejana. Escrevemos igualmente que, em tal tipo de casamento, geralmente quem manda é a noiva, pelo que os eleitos do PS, ao subscreverem o estranho acordo, se tornaram na prática reféns do PSD local. Houve naturalmente quem não concordasse, quem fizesse chacota, e até quem protestasse. Decorridos pouco mais de três meses, é agora geralmente aceite que vimos bem.
A vitória da oposição interna no PSD tomarense mais não foi que um êxito de todos os laranjas que sempre foram e estão contra a coligação, cuja anulação não tardarão a impôr oficialmente. Isto porque, liderados por um cidadão que, pelo menos para já, mostra saber bastante de política pragmática, entenderam desde o início que as coisas estavam às avessas. Ao declarar estar convencido de que o PS tarde ou cedo retirará o tapete ao PSD, Delgado está apenas a arranjar um pretexto para o divórcio que ele e os seus apoiantes pretendem.
Com larga experiência de vida e da política, o novo líder local dos social-democratas não pode ignorar que, no contexto tomarense, os eleitos socialistas não têm qualquer tapete para retirar. É claro desde o início que, como em qualquer casamento tradicional à alentejana, os rosas apenas levaram a malita com os seus pertences, neste caso os dois votos. A noiva, por seu lado, levou o enxoval completo -pelouros a tempo inteiro, um ou outro lugar de nomeação definitiva, viaturas, telemóveis, ajudas de custo e protagonismo. É ela, por conseguinte, que deve liderar e/ou "tirar o tapete" (os pelouros a tempo inteiro e etc.) se e quando assim o entender. E os dois comparsas do PS estão não só reféns, mas também completamente desarmados em termos de eventuais retaliações. Tanto no executivo com na A.M. para poderem contrariar a relativa maioria, impedindo-a eventualmente de governar, precisariam pelo menos da colaboração objectiva dos IpT. Acontece que, por razões sobejamente conhecidas, essa é uma hipótese praticamente arredada. Nas relações entre as pessoas existem, tal como na energia nuclear, dois tipos de átomos -os que se atraem e os que se repelem. Entre Pedro Marques e Luís Ferreira imperam, praticamente desde sempre, os átomos que se repelem.
Não adianta procurar determinar agora qual ou quais a razões de tal situação. Importa apenas assinalar que, praticamente arredada qualquer hipótese de voto conjunto tendo em vista tramar a relativa maioria PSD, os laranjas só não farão o que entenderem (se e quando tiverem alguma coisa para implementar) por manifesta incapacidade política própria.
Para já, é óbvio que a tendência Delgado viu bem e está agir em conformidade: Mais vale só que mal acompanhado. Mas os cidadãos continuam a aguardar que haja um executivo com planos consequentes e previamente debatidos, pois a navegação à vista geralmente acaba contra um imprevisto rochedo e costuma haver perda de vidas e de bens. Oxalá não seja o caso.

segunda-feira, 8 de março de 2010

EM SANTARÉM, TAMBÉM

QUANDO VIRES AS BARBAS DOS VIZINHOS A ARDER...

Segundo o PÚBLICO de hoje, num trabalho assinado por Jorge Talixa, a persistência da crise e a consequente estagnação daí resultante, estão a provocar impactos muito fortes nas receitas das autarquias. O presidente da autarquia santarena, Moita Flores, declarou ao citado jornalista que a receita mensal do município caiu para metade, o que representa menos 2,2 milhões de euros mensais, em média.
Garantiu aquele autarca que as medidas por si tomadas, que todavia não especificou, nos últimos quatro anos e meio, melhoraram em muito a situação financeira da câmara. Admitiu, porém, que continuam a padecer de pontuais problemas de falta de tesouraria, os quais até já obrigaram a atrasar o pagamento de alguns subsídios aos funcionários.
"Temos neste momento algumas dificuldades de tesouraria, mas todas as câmaras têm registado uma baixa de receitas. Estamos a deixar de receber uma média de 2,2 milhões de euros em cada mês que passa. Isto representa metade das receitas previstas e coloca a todos dificuldades económicas", explicou Moita Flores.

oxoxoxoxoxoxoxo

Tomar a dianteira considera Moita Flores um cidadão de muito mérito e elevada craveira intelectual e política. Não podemos, contudo, dadas as circunstâncias, deixar de pensar que se equivocou num pequeno detalhe. Ao afirmar que "Todas as câmaras têm registado uma baixa de receitas", provavelmente não se lembrou de Tomar onde, segundo tudo indica, a quebra de receitas ainda não se verificou. Pelo menos, o persistente e prolongado silêncio dos senhores autarcas nabantinos a tal respeito, aponta no sentido de que nessa área não há problemas, quanto mais agora penúria. Se houvesse importantes quebras nas receitas orçamentadas, os nossos eleitos não deixariam certamente de comunicar aos cidadãos a sua e nossa complicada situação. Dado que o silêncio se mantém, tudo vai pelo melhor, no melhor dos mundos, como diria o senhor Pangloss.
Tanto mais que as recentes comemorações da fundação do castelo e da urbe, deram a todos bastos sinais de riqueza e abundância. Oitocentos foguetes, cinquenta morteiros, uma vintena de peças de fogo de artifício, bandeirolas em grupos de sete nas entradas da cidade e na praça, vá-se lá saber porquê e para quê, comezaina "à borliú" para todos os que apareceram, uma página a cores no PÚBLICO, são tudo iniciativas de um município com dinheiro a rodos. Ou estaremos enganados ? Tudo não passará afinal, bem vistas as coisas, de inconsciência, exibicionismo, promoção pessoal, delapidação de dinheiros públicos, a fazer falta noutros sectores, de fogo de vista, em suma ? A resposta cabe aos responsáveis, mas igualmente a cada eleitor/pagante.

E o PEC ? E o PEC ?

O PEC, na nossa tosca opinião, peca por ser demasiado tímido, como aliás já aqui foi escrito anteriormente. Faltando saber o que sobre ele determinará a Comissão Europeia, é significativo que vários especialistas próximos do governo, que ontem citámos, (ver post anterior) o considerem damasiado brando e insuficiente. Claro que vai na boa direcção, ao indicar que não vão ser só os do costume a pagar as favas. Tudo bem por aí. O pior é que, o implicitamente esperado crescimento económico não será de modo algum suficiente, o que forçando a adopção de novas medidas bem mais gravosas, o mais tardar no início do próximo ano, quando se verificar não terem sido atingidos os objectivos propostos. Quanto a nós, falta apenas apurar, neste momento, se essas medidas mais duras serão impostas apenas por Bruxelas ou se terão o beneplácito tácito do governo português.
Se o governo informar, ou der a entender aos portugueses que, embora não concordando com os peritos da UE, se vê forçado a implementar as medidas injustas por eles propostas, estar-se-á a preparar para eleições, que provocará custe o que custar... É assim a política de alto coturno. Apresentam-se planos demasiado optimistas, apenas ou sobretudo para ganhar tempo, na esperança de conjunturas mais favoráveis.
Aquela da privatização da TAP, por exemplo, vê-se mesmo que é só para mobilar o discurso, tal como tem vindo a acontecer, aqui nas nabantinas berças, com a venda do ex-Convento de Santa Iria, que mesmo de borla teria dificuldade em encontrar interessados, tal o estado em que se encontra. Ou o museu da Levada, que a crise já levou...numa terra sem museus mas com um municipal e nutrido serviço de museologia.

ECONOMIA: MEDIDAS DURAS PRECISAM-SE

(Clicar sobre a ilustração para ampliar)

Do DIÁRIO DE NOTÍCIAS de ontem, com a devida vénia, duas posições políticas em relação ao PEC, aprovado pelo governo na generalidade. A da esquerda é de Basílio Horta, actual líder da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal. É portanto um alto funcionário nomeado pelo governo e da sua confiança. A outra é da SEDES e tem a assinatura de quatro nomes bem conhecidos dos portugueses: Campos e Cunha, ex-ministro das finanças de Sócrates, Medina Carreira, ex-ministro das finanças de um dos governos de Mário Soares, Henrique Neto, grande empresário e militante do PS, João Salgueiro, ex-presidente da Associação Portuguesa de Bancos.
Publicamo-las naturalmente para informação dos nossos leitores, mas igualmente para que os que nos acusam de pessimismo crónico, quando não de má-língua, tenham a satisfação de verificar que estão cheios de razão. Ou será o contrário ?
Na verdade, quem vive há muitos anos neste país e procura andar informado, não pode ignorar que somos os ases da desculpa. De tal forma que, caso houvesse um "Nobel da desculpa", já teríamos aí algures uma prateleira com uma resma de tais diplomas. E continuaríamos sem concorrência à altura...pelo menos aqui em Tomar, onde abundam as desculpas para o que quer que seja.
E daí ? E daí, o PEC anunciado parece-nos não só um embuste, como já foi referido, mas até uma habilidade simplória para ganhar tempo e forçar a UE a ficar com o ónus das decisões impopulares, que são inevitáveis antes do final do ano que vem, o mais tardar. Noutros termos: Ao vaselinar de tal forma a questão da nossa indispensável recuperação financeira, alardeando sistemáticamente um optimismo que nada justifica, Sócrates diluiu deliberadamente o efeito de choque, uma das mais importantes consequências psicológicas de qualquer plano de recuperação -a mudança de paradigma referencial. Juntando a isso a garantia de que não haverá aumento de impostos e apregoando que o crescimento económico vai permitir reequilibrar as contas sem mais sacrifícios, (o que nos parece mera poesia lírica), mostrou a todos os cidadãos mais atentos que se trata apenas de um plano para entreter, até que Bruxelas se veja forçada a "puxar-nos as orelhas" e a impôr medidas realmente impopulares (corte nos vencimentos da função pública, supressão do 14º mês, ou de parte dele, por exemplo). Aliás, o facto de o citado PEC só ter sido discutido e aprovado após a apresentação do Orçamento na A.R., mostra bem que se trata de algo para não ser levado muito a sério. Caso contrário, o orçamento teria sido elaborado em função do PEC e ambos teriam sido apresentados e discutidos conjuntamente no parlamento.
Que implicações tem esta política a nível local ? As piores. Indicia que, mais tarde ou mais cedo, a autarquia vai receber menos verbas em sede de FEF (ou lá como é que isso se chama agora). Por outras palavras, assim ou assado, vai receber menos dinheiro de Lisboa. Deixa prever que, neste evidente jogo de empurra Bruxelas>Lisboa>Bruxelas, os prometidos fundos europeus podem muito bem ser menos pontuais e menos substanciais do que o previsto. Torna cada vez mais necessária a adopção de um projecto e a indicação de um rumo, tanto para cidade como para o concelho, sob pena de naufrágio, muito mais cedo do que aquilo que os senhores políticos locais pensam. Não se prevêem melhoras na economia, nem a curto, nem a médio prazo, pelo que limitar-se a aguardar melhores dias é, nesta conjuntura, a pior das políticas. Equivale a morrer de sede com água ao lado, só para não ter o trabalho de estender o braço, encher o copo e beber. Têm a palavra os senhores eleitos...

domingo, 7 de março de 2010

PEC, ESTILOS DE VIDA, MENTALIDADES E FEITIOS



Fotografias tiradas o ano passado, junto das estações de caminho de ferro de Florença, Pisa e Luca.

Vai por aí um coro de incitamentos para que a nova direcção concelhia do PSD desfaça a circunstancial coligação 3+2, ou, no mínimo, que ponha os dois eleitos do PS na ordem. Reconhecendo que têm todo o direito de o fazer, pedimos licença para discordar. O problema tomarense não resulta só nem principalmente da coligação, nem sequer dos autarcas que temos ou que tivémos. É sobretudo a consequência das decisões do corpo eleitoral nabantino, que ainda não percebeu estarmos apenas a colher os amargos frutos das árvores que sistematicamente temos semeado.
Os autarcas poderão, quando muito, ser acusados de terem apresentado a candidatura a lugares para os quais, como é cada dia mais evidente, não têm jeito, nem pulso, nem ideias, nem gabarito intelectual para o seu desempenho. Não estão à altura daquilo que os munícipes têm o direito de esperar, tendo em conta as generosas retribuições mensais auferidas. Porém, a partir do momento em que foram sufragados, a responsabilidade vai inteirinha para todos aqueles que, embora avisados e bem avisados, designadamente neste blogue, lhes deram os seus votos, apesar de não terem apresentado qualquer programa, projecto, plano, ou sequer um mero esqueleto de um deles.
Nestas condições, manter ou desfazer a estranha coligação, ter a liderança dos dois vereadores do PS, ou dos dois independentes mais o do PSD, como diz o povo, é igual ao litro. Não muda nada de substancial. Nem para lá caminha. E é urgente que mude, se possível de forma radical, porque vêm aí tempos ainda mais negros que o actual. E quanto mais tarde mudarmos, mais difícil vai ser encontrar um novo rumo mais promissor. Basta pensar que, desde o 25 de Abril, muito pouca coisa mudou para melhor nesta nossa terra. O estádio está pior, o mercado idem, o mercado grossista idem, o mercado semanal idem, o Mouchão idem, o Parque de Campismo idem, a recolha do lixo idem, a limpeza urbana idem, o ex-bairro Salazar idem, o da Senhora dos Anjos idem, etc.etc.etc. Praticamente, o único sector que melhorou, e muito, foi o conjunto eleitos+funcionários da autarquia. São muito bem pagos, tendo em conta aquilo que produzem, têm instalações novas, ar condicionado, computadores, impressoras, faxes, fotocopiadoras, telemóveis e material consumível (esferográficas, papel, tinteiros, tonner, etc. etc. enquanto nalgumas escolas por vezes nem sequer há dinheiro para coisas básicas), entram às nove e vão ao café a partir das dez e meia, entram às duas e vão ao café antes das quatro. Quanto aos eleitos, bastará dizer que nenhum dos actuais membros do executivo alguma vez ganhou cá fora tanto como está a agora a embolsar. Convém ter tudo isto presente para perceber que não há, por assim dizer, salvo imprevisível hecatombe política, qualquer hipótese de encurtar o actual mandado. É pena, mas é assim. Quem vos mandou votar em tais candidatos ? Alguma vez alguém viu um cão de pata curta vencer uma corrida de galgos ?
Enquanto isto ocorre por terras da Nabância, lá em baixo, em Lisboa, o governo aprovou o PEC na generalidade. Trata-se, na nossa modesta opinião de eleitores de Sócrates, de mais um embuste para entreter os portugueses. Antes de mais, na designação escolhida -Plano de Estabilidade e Crescimento- este último termo não passa de mero paleio de agência de comunicação. Uma vez que o documento prevê o congelamento dos salários e das pensões, bem como o fim dos principais benefícios fiscais e, eventualmente, mais um aumento do IVA, como poderá haver crescimento se o rendimento disponível vai forçosamente baixar ? Os empresários, por muito boa vontade que tenham, vão produzir para vender a quem, se não há poder de compra ? Para exportar ? Mas para onde, se os nossos principais parceiros também estão em crise, e a implementar planos de estabilidade, alguns bem mais gravosos do que o nosso ? Tudo indica pois que o desemprego vai aumentar e as falências vão continuar, apesar do optimismo de circunstância alardeado pelo primeiro-ministro.
Face a esta sombria conjuntura, os tomarenses continuam a agir como se nada fosse com eles, vivendo "habitualmente", como disse um dia Salazar. Aguardam provavelmente que as coisas melhorem, voltando ao que sempre foram. Infelizmente, para eles e para nós, desta vez estão redondamente enganados. Logo a seguir ao 25 de Abril éramos a segunda cidade do distrito, em termos absolutos, já somos a quarta e estamos na iminência de ser ultrapassados por Torres Novas. Continuem anestesiados com até agora, não se mexam, confiem nos que elegeram, não pensem no "Ajuda-te e Deus ajudar-te-á", nem no "A sorte ajuda os audazes", e depois vão queixar-se ao Muro das Lamentações, a Jerusalém. Se tiverem dinheiro ou crédito para isso, bem entendido.
E a que propósito vieram aquelas fotografias, perguntarão alguns. Apenas para demonstrar que, embora igualmente europeus do sul, dos tais "PIGS" ou "Países-cigarras", os italianos não têm a nossa mania das grandezas. Não se vêem por lá terrenos incultos, nem automóveis junto das estações da Trenitália, ao contrário do que acontece aqui em Tomar, junto à CP. Racionais e modestos, vão até aos transportes públicos de scooter, que é mais barata e gasta muito menos. E não andam constantemente a armar ao pingarelho, ou aos cágados. Vão aprendendo com a experiência. Mas para tanto, é preciso ter um mínimo de inteligência prática, lá isso é verdade !

EM FRANÇA: CAMA E MESA NOS MONUMENTOS NACIONAIS

O palácio de Oiron-Deux Sèvres-França, jóia do renascimento, foi revitalizado como museu de arte contemporânea

Com a persistência da crise, é chegada a hora de procurar rentabilidade por todo o lado. Nem os monumentos históricos pertencentes ao Estado escapam. Para aumentar o número de visitantes e, sobretudo, as receitas, o governo francês encara a hipótese de fornecer cama e mesa em palácios multi-seculares, fortalezas ou abadias, à maneira dos Paradores, rede espanhola de hotelaria pública, criada em 1928.
O projecto de reconversão avança desde a assinatura, em 6 de Novembro de 2009, pelo ministro da cultura, Frédéric Mitterrand, e Henri Novelli, secretário de estado do comércio e do turismo, da convenção-quadro "Cultura e turismo", que permite a actividade económica "razoável e respeitadora" das jóias classificadas do património estatal gaulês.
Os vinte monumentos potencialmente escolhidos para hotéis, cujo impacto é mais perigoso do que o dos restaurantes, previstos para treze locais históricos, estão a ser objecto de um estudo específico, encomendado pelo Centro dos Monumentos Nacionais (equivalente ao IGESPAR+Monumentos Nacionais+Direcções Regionais de Cultura) à "Atout France", Agência Nacional de Desenvolvimento Turístico (empresa pública). O Centro dos Monumentos Nacionais tem a seu cargo a manutenção, o restauro e a exploração turística de cem monumentos franceses, visitados em 2008 por 8,5 milhões de pessoas. Pouca coisa, realmente, quando comparado com os 5 milhões de entradas pagas só no Palácio de Versalhes, e ainda por cima conseguido sobretudo graças aos 6 líderes nacionais, que representam 66% das receitas globais: Arco do Triunfo (um milhão e meio de entradas), Mont S. Michel, Basílica de S. Denis, Panteão Nacional, Cintura de Muralhas de Carcassonne e Notre-Dame de Paris.
A maioria dos monumentos geridos pelo Estado consegue menos de 20 mil visitantes anuais. Os menos rentáveis não chegam sequer aos 1o mil, ou mesmo aos 5 mil, como por exemplo Gramont, belo palácio renascença, Assier, um palácio classificado desde 1841, ou Chareil-Cintrat (1.6oo visitantes em 2008), encantador palácio renascença, conhecido pelos seus quadros.
Demasiado frágeis para acolher visitantes, alguns edifícos classificados nunca chegaram sequer a abrir as portas ao público. É o caso de Jossigny, a menos de 300 quilómetros de Paris, jóia arquitectónica do século XVIII, doado ao Estado em 1950, com os terrenos circundantes, e pilhado em sucessivos roubos por arrombamento. Outros monumentso ainda, continuam fechados para obras de restauro, ninguémn sabe até quando.
... ... ...
A estes palácios pouco frequentados, em relação aos quais o Estado nem sabe, muitas vezes, o que há-de fazer, mas que foram seleccionados pelo Centro dos Monumentos Nacionais, e cujos responsáveis não consultados foram informados por correspondência há pouco tempo, há que adicionar as abadias e os antigos quartéis agora devolutos, cujas instalações são mais adequadas para implantações hoteleiras. Ainda assim, está fora de questão dificultar o normal acesso dos visitantes aos espaços com interesse turístico.
É sabido que a protecção do património e as complexas normas da hotelaria nunca emparelham com facilidade. A este óbice, que é dificilmente ultrapassável, devido às próprias servidões dos monumentos, convém juntar as exigências de rentabilidade dos potenciais investimentos. Como sublinha Christian Mantei, director geral adjunto de Atout France, a quem foi confiado o estudo exploratório, "o essencial dos investimentos hoteleiros é agora aplicado nas cidades. As pessoas que estão convencidas de que vão ganhar fortunas à custa do património à guarda do Estado, estão redondamente enganadas."
Efectuar um diagnóstico económico da região, dos seus recursos, do seu potencial turístico, da sua atractividade, dos acessos, da concorrência, eis a primeira étapa do estudo de Atout France. (Exactamente como se faz em Tomar, não é verdade ? - Pergunta do tradutor.) "O mercado evoluiu. Os visitantes procuram os monumentos tal como sempre foram. Não podemos descambar para a ostentação", afirma o senhor Mantei, que pretende privilegiar dinâmicas locais em vez de grupos hoteleiros. Serge Louvau, ex-secretário geral do Museu do Louvre, acrescenta que "um monumento que não corresponde a uma necessidade social nunca terá viabilidade económica."

Florence Evin - Le Monde

Tradução e adaptação de António Rebelo (Esta versão em português é apenas a parte que pareceu mais importante do texto original.)