quinta-feira, 16 de junho de 2011

ANÁLISE DA IMPRENSA REGIONAL DESTA SEMANA





Como habitualmente, quem desembarque em Tomar à quinta-feira e leia a imprensa da zona, ficará com a impressão de que Pangloss, o célebre personagem de Voltaire, tinha razão: na região nabantina vai tudo pelo melhor, no melhor dos mundos possíveis. Desta vez, apenas uma excepção notória -Na primeira página de CIDADE DE TOMAR, Corvêlo de Sousa admite haver quem tenha interesse na sua demissão, conquanto não saiba quem. O que se percebe, pois na verdade ninguém parece desejar SÓ a sua demissão, mas a de todo o executivo. Única maneira de evitar que se mude um pouco, para que tudo possa continuar na mesma...ou pior!
Na mesma linha, convirá ler no referido semanário a relativamente longa análise de Hugo Cristóvão, o presidente do PS local, sobre as causas da recente derrota socialista a nível nacional, na qual apenas um ou dois parágrafos referem a situação local. Nós, os tomarenses, somos assim. Pretensos herdeiros dos navegadores de antanho, quando na verdade descendemos dos que cá ficaram, tendemos para o universalismo em detrimento do urbano. Julgamos ter soluções para os problemas alheios, sendo porém incapazes de resolver os nossos.
Outro indício desta estranha idiossincrasia nabantina é a manchete d'O TEMPLÁRIO: "Mais de 700 tabuleiros na festa". Em época de grave crise, cuja resolução está por encontrar, é algo que só pode levar a longas meditações, tendo como eco profundo a velha exclamação latina Oh tempo! Oh costumes!
Exagero da minha parte? Quiçá. Repare contudo o leitor na manchete d'O RIBATEJO: "Bombeiros cortam serviço de doentes ao hospital (de Santarém) por dívidas". O dito cujo deve-lhes 50 mil euros e a câmara escalabitana 150 mil. Apesar desta última não patrocinar desfiles de 700 tabuleiros...
O leitor continua a duvidar da bondade do meu raciocínio? Pois então faça o favor de ler esta chamada de título, na primeira página d'O MIRANTE: "Homem morreu trucidado por um comboio no Entroncamento. Usava aparelho auditivo e estava na linha porque não há passagens desniveladas para passageiros." Na mais movimentada gare ferroviária do país, apesar dos milhares de milhões de euros aqui despejados por Bruxelas, ainda não há passagens subterrâneas. Mas há dinheiro para rotundas, para pavilhões, para campos de ténis, para festas e para oferecer excursões comezaina+tintol+bailarico, como forma de conquistar votos futuros...
E depois aparecem uns leitores extremamente simpáticos, especialistas em achismo, a garantir que afinal a grave crise em curso não resulta dos maus políticos, dos maus gestores e do mau governo. Não senhor! Os verdadeiros culpados, acham os citados comentadores, são os aposentados com pensões minimamente dignas. Foram eles que geraram os monstruosos défices do governo central, dos governos regionais, das autarquias e das empresas públicas. Aquele primeiro-ministro que resolveu aumentar a função pública em 3,9%, já durante a crise mas em véspera de eleições, foi apenas um político benemérito. Tanto assim que, dois anos mais tarde, implementou o corte de 10% sobre os vencimentos e pensões antes melhorados. Ganda país! Ganda povo!

DE REGRESSO COM MUITO GOSTO

Após uma semana de viagem turística pelo norte de Itália (Milão, Turim, Génova, Bolonha, Ravena, Ferrara, Modena), regresso mais desempoeirado e pronto para continuar a escrever em Tomar a dianteira. Quanto mais não seja para, à maneira de agradecimento, poder ler aqueles comentários de cidadãos tão bem formados que ainda nem sequer perceberam que a vida privada de cada um é algo que apenas ao próprio diz respeito, sobretudo que a pessoa em questão nem sequer exerce ou exerceu qualquer cargo político. Estava portanto enganado o Jean-Jacques Rousseau ao postular que os homens são naturalmente bons. No que concerne ao tomarenses, é mesmo o contrário: são naturalmente maus e só a vida em sociedade os obriga a disfarçar. Mas assim que podem acoitar-se no anonimato...
Em  todo o caso, par aqueles que ao saberem desta minha viagem murmuraram "Ah cão!!! Não há animal nenhum que não tenha sorte!", resolvi publicar uma foto dos meus tempos de juventude. Para que conste que este meu hábito de viajar já vem de muito longe. E sempre acompanhado por outros patos bravos...
Neste meu regresso ao ambiente nabantino, desejo a todos muita saúde, sorte e paciência. E logo à noite já haverá outra vez a usual análise da imprensa regional. Até lá.

terça-feira, 7 de junho de 2011

ACTUALIZAR-SE NUNCA FEZ MAL A NINGUÉM


Uma vez que aqui em Tomar, a antiga Nabância, há cada vez menos nabos, não só em virtude da lei da vida, mas igualmente porque tem aumentado a olhos vistos o desenvolvimento pessoal, entendo que é tempo de fazer mais uma reciclagem. Seguindo de resto os amáveis conselhos de vários leitores.
Após madura reflexão, decidi-me uma vez mais pelo norte de Itália, para visitar algumas cidades que ainda não conheço, nomeadamente Milão, Turim, Bolonha, Modena, Ferrara, Pavia, e assim. Mas sobretudo, estando na Lombardia, para aproveitar a ocasião e aprender mais sobre os Lombardos, o região mais dinâmica de Itália, bem como acerca da couve lombarda, cuja cultura no vale do Nabão poderá vir um dia a substituir com vantagem a dos nabos. Quem sabe?!
Pelo que, com licença de Vossas Senhorias, este vosso humilde servo estará de regresso a Tomar a dianteira no próximo dia 16. Habituem-se!, diria o Vitorino. Façam o favor de ser felizes!, gostava de dizer o Solnado. É a vida!

RECORTES DA IMPRENSA INTERNACIONAL


Do "Nouvel Observateur" de 2/06/2011, página 57, com a devida vénia e os nossos agradecimentos:

"Um segurança interroga: "Há professores de Educação Física e Desportiva?" Levantam-se vários braços."Podem entrar", acrescenta. A fila reorganiza-se, disciplinada. Hoje, 26 de Maio, é dia de grande afluência ao Centro de Informação e de Orientação Profissional do Boulevard Montparnasse, em Paris. Em parceria com  o Polo Emprego [equivalente do nosso IEFP], a Reitoria parisiense do Ministério da Educação pretende constituir um stock de professores reservistas, para assegurar as substituições durante o próximo ano escolar. Esta espécie de feira de emprego é uma novidade. No passeio, militantes sindicais distribuem panfletos. "O ministério da educação reduz os lugares do quadro -grita indignado o delegado sindical do SNES- e quer sistematicamente recrutar contratados a 1.500 euros mensais a tempo inteiro, que acabam por nunca conseguir, ou, pior ainda, a auxiliares eventuais, que ficam ainda mais baratos."
Os candidatos da longa fila nem sequer o ouvem, ou fingem não ouvir. O que querem é trabalhar, mesmo mal pagos. Quinhentas pessoas responderam ao anúncio da Reitoria. Com um fato completo que já conheceu melhores dias, e de gravata, Jean Charles, 54 anos, foi despedido de um colégio privado de Neuilly [equivalente da Lapa, em Lisboa]: "Procuro um lugar de conselheiro de orientação."
Um homem de rabo de cavalo, de origem iraniana, vai vegetando com um doutoramento em artes plásticas. Só pede para poder ensinar a sua especialidade... Antes da sua licença de maternidade, Sarah era vendedora. Agora quer ensinar espanhol. "Como não tenho qualquer experiência de ensino, é capaz de ser uma desvantagem." No átrio do Polo Emprego, funcionários vão verificando os processos de candidatura: habilitações, carta de motivação, currículo...Logo a seguir, três empregadas da Reitoria vão perguntando a cada um: "Nome?, disciplina?" Os candidatos vão passando docilmente, respondem às perguntas, preocupam-se com o seguimento. Agora, cada um tem de afrontar o inspector da disciplina que escolheu. Um quarto de hora apenas, para o convencer. Rafael, 24 anos, cabelo curto, físico de rapper, deve passar a agregação de matemática este ano [tem portanto licenciatura + mestrado+ dois anos de preparação = 19 anos de escolaridade].Conta ao inspector o seu percurso de jovem da cintura de Paris, com pai de poucos estudos: apenas 15 anos de escolaridade. "Tive sorte, encontrei professores que me inculcaram a vontade de aprender e de ensinar." O inspector gosta. Entre os "aprovados", os "recusados" e os "a rever", coloca-o na primeira lista, em primeiro lugar e destacado.
Mas a Reitoria não faz promessas. Só virá a ser chamado quando e se houver necessidade. O trabalho precário será pago a 26,70 euros por hora. É pegar ou largar!"

Caroline Brizard


Nota final
No país do facilitismo e numa terra onde para chegar ao Paraíso basta subir a antiga rua principal, pareceu-me fundamental traduzir esta pequena reportagem. Não vá dar-se o caso de haver já por aí respeitáveis cidadãos (sobretudo jovens) a pensar que agora, com a nova maioria, os bons velhos tempos da fartura, dos subsídios, do dolce fare niente, dos empregos para toda a vida, das promoções automáticas, dos aumentos anuais superiores à inflação e das reformas  a 100% dos últimos cinco anos de ordenados, são já ali em baixo ao virar da esquina... O sonho comanda a vida, mas raramente enche os bolsos, ou garante sequer as refeições.

RECORTES DA IMPRENSA DE HOJE


O diário espanhol EL MUNDO (centro-direita) de ontem, fornece na sua página 23 uma informação sobre Miguel Relvas que deve encher-nos de contentamento como tomarenses.  Refere o dito periódico que "...o eurodeputado social-democrata Miguel Relvas...." A ser assim, uma vez que até domingo passado Relvas apenas desempenhava como eleito o cargo de presidente da AM tomarense, agora só falta apurar se somos Estrasburgo ou Bruxelas ou "ambas as duas simultaneamente ao mesmo tempo".

Após esta local do Correio da Manhã de hoje, todo o cuidado é pouco. Eu, se tivesse como apelido Faria ou Rosa do Céu, seria tentado a ir procurando outro poiso... Cá por coisas!

OBRAS PÚBLICAS À LA NABANTINA

A empreitada em curso na Estrada do Convento já aqui deu que falar. Volta-se ao assunto porque o subempreiteiro encarregado da  consolidação dos taludes não teve dúvidas: perante um projecto mal executado, respeitou-o de forma estrita. O muro de suporte que logicamente devia estar atrás da árvores, obedece estritamente aos parâmetros indicados no projecto... que visivelmente não teve em conta a existência das árvores...
...apesar de haver muito espaço livre, o que teria permitido alargar a via, deixando-as  no passeio a construir. Agora andam lá trabalhadores de outra empresa "para desenrascar a situação".
As fotos acima mostram o talude (ribanceira) entre o parque de estacionamento e a Estrada do Convento. Era suposto que as obras em curso naquela artéria resolvessem de vez e de forma adequada o problema da sua urgente consolidação. Pois não senhor! Nesta última foto apercebe-se, à direita e entre as árvores, o novo muro de betão, lá em cima. Tudo indica, por conseguinte, que vamos continuar a ter uma paisagem tipo século XIX decadente... enquanto não houver desabamento.
Na mesma área, o empreendimento ParqT -que já tanto deu que falar- previa imensas maravilhas, entre as quais uma vasta zona arborizada e ajardinada no terraço. Foram até colocados projectores, um dos quais se vê nesta foto.
Apesar de ter ao seu serviço 574 funcionários, a autarquia não tem jardineiros. Os espaços verdes urbanos são manutencionados por sociedades privadas, em regime de avença. Não admira por isso que o previsto espaço ajardinado, na cobertura do parque de estacionamento, agora propriedade da autarquia, esteja neste estado. A dez metros dos Paços do Concelho, que rico postal turístico!
Deixado aos caprichos da natureza, o citado espaço a ajardinar até tem sistema de rega automática e tudo, conforme se vê na foto. O que não impediu a morte prematura de várias árvores plantadas logo no início.
Para finalizar, por agora, o sumptuoso ascensor, totalmente inútil, visto que as instalações para café/pastelaria/cervejaria/bar/esplanada, que se vêem ao fundo, à esquerda, nunca chegaram a abrir... Bem dizem os lordes conservadores ingleses: "Não se pode dar muito dinheiro ao pobres. Estragam tudo, sujam tudo e fazem demasiado barulho!"

segunda-feira, 6 de junho de 2011

HÁ UMA NOVA ESPERANÇA E AINDA BEM, MAS...

.Os resultados eleitorais de ontem foram claros, tendo por isso propiciado o surgimento de uma nova esperança, como sempre acontece em tais situações. Convirá, contudo, moderar as expectativas, tanto a nível nacional como local. Isto porque, conforme já aqui referi em postes anteriores, na Europa dos 27 a crise é geral e com tendência para o agravamento, excepto na Alemanha, Holanda e Luxemburgo. Em todos os restantes casos, ainda nenhum governo encontrou solução capaz para o problema da quadratura do círculo: Como tornar sustentável o modelo social europeu?
De Atenas a Dublin, Paris ou Bruxelas, passando por Lisboa e Madrid, o crescimento estagna, o desemprego é elevado e o défice público aumenta. De tal modo que as agências de notação vão colocando em observação negativa mesmo as capitais em princípio acima de qualquer suspeita, como Bruxelas, Paris ou Roma. Nos casos mais graves, como é do conhecimento geral, já houve pedido e obtenção de ajuda externa, condicionada a draconianas medidas de austeridade, eufemisticamente designadas como "estruturais".
Na Grécia, que foi o primeiro "doente" assistido, após dezenas de greves gerais, provocadas pela terapêutica imposta pelo FMI e a UE, é já claro que a primeira fase do tratamento não resultou, tornando indispensável mais uma forte dose de "soro". Em termos económicos, não surpreende que assim seja, porquanto a receita da troika é contraditória -pressupõe por um lado a melhoria da situação, pelo aumento das receitas e a moderação das despesas, mas provoca por outro lado a recessão, ao limitar o crédito e logo o consumo, reduzir os investimentos do estado e emagrecer a função pública.
Tudo indica que em Portugal o futuro governo será confrontado com idêntica situação, a revelar a amarga verdade: Até agora ainda nenhum economista de nenhum país conseguiu apresentar, e muito menos implementar, uma solução eficaz para a crise, mesmo recorrendo a medidas impopulares em doses cavalares. Há apenas o semi-sucesso do governo espanhol (PSOE) que conseguiu evitar até agora o recurso ao resgate externo. Convém no entanto esclarecer que o problema dos nossos vizinhos tem a ver sobretudo com o rebentamento da bolha da construção civil, que provocou sérias dificuldades no sistema bancário, mais propriamente nas "cajas de ahorros", as caixas de crédito.
É verdade que os governos regionais, as chamadas autonomias, salvo raras excepções, estão praticamente em estado de cessação de pagamentos, mas em contrapartida, o défice do governo de Madrid é moderado e a sua dívida soberana perfeitamente sustentável. Pelo contrário, Atenas e Lisboa ultrapassam já todos os limites, tanto num como no outro caso.
E eis-nos entre a espada e a parede. Apesar de toda a boa vontade do futuro governo PSD/CDS, Portugal, que já está em recessão, assim irá continuar, de forma ainda mais acentuada, provocando uma inevitável redução das receitas fiscais. Para a tentar ultrapassar, há que fomentar as exportações, o que implica mais competitividade dos nossos produtos, a qual só poderá resultar da desvalorização da moeda, da redução de salários ou da diminuição dos descontos obrigatórios a cargo do patronato. No estado actual das coisas, tudo indica que foi esta última a via escolhida, até porque a primeira não é possível, uma vez que estamos na zona euro, e a outra seria demasiado impopular. Mas é muito provável que lá tenhamos de ir, faltando por enquanto saber como irá ser compensada a aludida redução em 4 pontos percentuais da TSU. Caso venha a ser pelo aumento de impostos, nomeadamente pelo IVA, estaremos a agravar por um lado o que tentamos aliviar pelo outro.
Mas então não existe mesmo nenhum remédio eficaz? perguntará o leitor. Há sim senhor, mas comporta fortes hipóteses de o doente morrer da cura. Refiro-me à redução drástica das despesas do estado, de forma a possibilitar o aumento da competitividade externa pela redução geral dos impostos. Infelizmente, ninguém no seu perfeito juízo ousará propor, nesta altura do campeonato, uma tal medida bárbara, que para ser mesmo eficaz atiraria para o desemprego forçado pelo menos 25 ou 30% dos funcionários públicos e poderia até ser edulcorada por uma redução transitória da ordem dos 50% em todos os vencimentos e  reformas superiores a 2 mil euros. Mas nada obsta a que vão já pensando no assunto, pois lá diz o nosso povo que "para grandes males, grandes remédios". E como o pior ainda está para acontecer, caso não se encontre entretanto outra saída... Quando se vier a verificar que também em Portugal o memorando da troika na prática aquilo que garante é apenas o pagamento atempado aos nossos prestamistas, num primeiro tempo, tal com vem acontecendo na Grécia, algo de extremamente corajoso terá de ser feito.
E a nível local? Pior um pouco! Após um longo rosário de asneiras, designadamente na área económica, a realidade começa a impor-se. O que tem de ser, tem mesmo muita força! Corvelo de Sousa acaba de comunicar aos presidentes de junta que não haverá mais cedências gratuitas dos autocarros municipais. Lá se vão os célebres e tão apreciados passeios tipo "comezaina+tintol+bailarico", à borla, bem entendido! tão do agrado do nosso amado eleito senhor Carlos Carrão. E o funeral ainda agora começou a sair do tanatório... Quando começarem a ver quão grande é o respectivo acompanhamento, alguns deixarão de dormir tão descansadamente como até aqui. Já não era sem tempo!