Como habitualmente, quem desembarque em Tomar à quinta-feira e leia a imprensa da zona, ficará com a impressão de que Pangloss, o célebre personagem de Voltaire, tinha razão: na região nabantina vai tudo pelo melhor, no melhor dos mundos possíveis. Desta vez, apenas uma excepção notória -Na primeira página de CIDADE DE TOMAR, Corvêlo de Sousa admite haver quem tenha interesse na sua demissão, conquanto não saiba quem. O que se percebe, pois na verdade ninguém parece desejar SÓ a sua demissão, mas a de todo o executivo. Única maneira de evitar que se mude um pouco, para que tudo possa continuar na mesma...ou pior!
Na mesma linha, convirá ler no referido semanário a relativamente longa análise de Hugo Cristóvão, o presidente do PS local, sobre as causas da recente derrota socialista a nível nacional, na qual apenas um ou dois parágrafos referem a situação local. Nós, os tomarenses, somos assim. Pretensos herdeiros dos navegadores de antanho, quando na verdade descendemos dos que cá ficaram, tendemos para o universalismo em detrimento do urbano. Julgamos ter soluções para os problemas alheios, sendo porém incapazes de resolver os nossos.
Outro indício desta estranha idiossincrasia nabantina é a manchete d'O TEMPLÁRIO: "Mais de 700 tabuleiros na festa". Em época de grave crise, cuja resolução está por encontrar, é algo que só pode levar a longas meditações, tendo como eco profundo a velha exclamação latina Oh tempo! Oh costumes!
Exagero da minha parte? Quiçá. Repare contudo o leitor na manchete d'O RIBATEJO: "Bombeiros cortam serviço de doentes ao hospital (de Santarém) por dívidas". O dito cujo deve-lhes 50 mil euros e a câmara escalabitana 150 mil. Apesar desta última não patrocinar desfiles de 700 tabuleiros...
O leitor continua a duvidar da bondade do meu raciocínio? Pois então faça o favor de ler esta chamada de título, na primeira página d'O MIRANTE: "Homem morreu trucidado por um comboio no Entroncamento. Usava aparelho auditivo e estava na linha porque não há passagens desniveladas para passageiros." Na mais movimentada gare ferroviária do país, apesar dos milhares de milhões de euros aqui despejados por Bruxelas, ainda não há passagens subterrâneas. Mas há dinheiro para rotundas, para pavilhões, para campos de ténis, para festas e para oferecer excursões comezaina+tintol+bailarico, como forma de conquistar votos futuros...
E depois aparecem uns leitores extremamente simpáticos, especialistas em achismo, a garantir que afinal a grave crise em curso não resulta dos maus políticos, dos maus gestores e do mau governo. Não senhor! Os verdadeiros culpados, acham os citados comentadores, são os aposentados com pensões minimamente dignas. Foram eles que geraram os monstruosos défices do governo central, dos governos regionais, das autarquias e das empresas públicas. Aquele primeiro-ministro que resolveu aumentar a função pública em 3,9%, já durante a crise mas em véspera de eleições, foi apenas um político benemérito. Tanto assim que, dois anos mais tarde, implementou o corte de 10% sobre os vencimentos e pensões antes melhorados. Ganda país! Ganda povo!










