segunda-feira, 6 de junho de 2011

E AGORA TOMARENSES?

Com o PSD a vencer folgadamente a consulta eleitoral de ontem, conforme aqui se previu desde o início, Sócrates lá se resolveu a abandonar a liderança do PS. Atitude que, se tivesse sido tomada logo após a rejeição do Pec 4 e portanto antes do congresso/circo de suposta consagração como único senhor dos socialistas, poderia ter permitido um resultado global mais equilibrado. Mas a história não se faz com SES. Assim, é muito provável que o partido de Mário Soares venha a estar arredado do poder nos próximos 10/15 anos, caso o PSD não cometa demasiados erros. Finda assim a política do ilusionismo e do contorcionismo, infelizmente com elevados custos para os portugueses. Oxalá PP Coelho e o seu braço direito Miguel Relvas tenham sorte nos seus futuros desempenhos, porque bem a merecem, com a sua atitude sincera, humilde e empenhada.
Em Tomar, o PS sofreu uma das mais pesadas derrotas desde 1974, senão mesmo a mais pesada. Agora já sem a desculpa de que os IpT lhe "roubam" quase metade do eleitorado. E apesar da péssima actuação dos autarcas tomarenses do PSD. Não admira, se tivermos em conta que, em certos aspectos, a prática dos socialistas locais tem sido muito semelhante à de Sócrates. Apenas dois exemplos: A - Contrariando toda a argumentação da campanha eleitoral autárquica, o PS local resolveu logo a seguir subscrever um estranho acordo de partilha de benesses, cujo principal objectivo tem sido até agora o acesso à gamela orçamental. B - Apesar de semelhante argolada, Luís Ferreira não hesitou em criticar-me no seu blogue, na passada semana, por eu ter resolvido anunciar que votava PSD pela primeira vez na vida. Temos assim que ele engendrou e subscreveu com o PSD uma engenhoca política sem pés nem cabeça, só para auferir benesses, mas tudo bem. Eu, que nem estou no PS desde 1982, nem tenciono vir a obter quaisquer dividendos do meu voto, sou um malandro. 
Não admira que os eleitores tomarenses tenham cada vez mais reticências em relação a um partido que nos últimos tempos não tem primado pela clareza política, nem a nível nacional nem local. De tal forma assim é, que até António Alexandre um prestigiado ex-dirigente socialista local e nacional, bem como autarca do partido durante dois mandatos, que se mantém como militante e membro da Comissão Política local, afirmou ontem na Rádio Hertz que o PS tomarense tem de mudar radicalmente e com urgência, pois nestas eleições foi batido de forma severa em quase todas as freguesias , apenas tendo conseguido vencer em três: Além da Ribeira, Asseiceira e Paialvo.
Quanto mais tarde houver coragem para debater de forma franca e para tomar decisões difíceis, pior será para todos, eleitores socialistas ou não. Porque a triste realidade local é esta: a relativa maioria PSD não sabe para onde vai, mas a oposição também não. E sem planos adequados, sem uma rota previamente estudada e fixada, o barco tomarense continuará ao saber da corrente, no mar encapelado da actual crise de civilização, a mais profunda e grave de todos os tempos, cuja fase mais aguda ainda está para chegar.

domingo, 5 de junho de 2011

OBSTINADOS E COMPLICADOS



Conforme mostram os excertos supra, a imprensa espanhola tem destacado ultimamente o facto de muitos autarcas, em geral da extrema-esquerda e independentes, estarem a renunciar aos automóveis que lhes estão distribuídos. Perante atitude oposta dos edis dos maiores partidos -Partido Popular, Partido Socialista e Esquerda Unida- os respectivos órgãos de que fazem parte, debateram o assunto. Ficou-se então a saber que todos os eleitos locais dispõem de viatura oficial, motorista e escolta, unicamente por razões de segurança, impostas pelo Ministério do Interior. Face à inopinada  decisão de alguns eleitos em relação ao uso das citadas viaturas, foi decidido por maioria  solicitar ao governo que informe se continua em vigor a norma obrigando a usar os carros oficiais. Caso a resposta venha a ser negativa, as opiniões dividem-se. Uns entendem que deve deixar de haver viaturas oficiais atribuídas, outros sustentam que os presidentes de câmara, os membros dos governos regionais e os líderes de bancada as mantenham. Isto no país vizinho, que até agora tem conseguido evitar pedir ajuda externa., com autarquias como Madrid (2 milhões e 900 mil habitantes) ou Barcelona (1 milhão 495 mil habitantes).
Entretanto em Tomar (42 mil habitantes), ousou-se criticar uma improdutiva sessão da Assembleia Municipal sobre a crise e houve logo quem viesse clamar que se estava a procurar acabar com a democracia e não se sabe mais o quê. Ao que parece, está tudo muito satisfeito com a situação actual.: na maioria coligada, cada um tem o seu automóvel distribuído, o seu telemóvel e o seu computador, excepto Rosário Simões. Acontece até que o vereador vice-presidente ostenta um bólide superior ao da presidência, o qual, coitado, já ultrapassou há muito os 200 mil quilómetros. 
Num país e numa cidade em profunda crise, a insensata atitude dos autarcas e de alguns comentadores ocasionais seria lamentável. Como, porém, o país vai bem e a autarquia nabantina parece ser rica, ou pelo menos continua a agir como se o fosse, resta aguardar o devir com paciência. Sem nunca esquecer que por estas bandas continua a ser muito inconveniente ter razão antes do tempo.

DESCONVERSANDO

Quem por aqui nasceu e cresceu, tendo tido depois a ocasião de viver noutros lados, se para tanto tiver capacidade analítica, não pode deixar de anotar a principal qualidade da generalidade dos tomarenses: alergia total à mudança e à abordagem consequente, como forma de contribuir para que tudo continue na mesma.
Explico por outras palavras. Seja a grave crise em que estamos mergulhados. O normal, porque mais útil, seria debater o assunto de modo a encontrar as suas causas e, posteriormente, a ou as melhores soluções para o ultrapassar. Pois não senhor. Demasiado simples. Os tomarenses vêem preferindo lateralizar a discussão, realçando detalhes menores, ou mesmo sem qualquer relação com o assunto, como meio de evitar discutir o âmago da questão. Exemplos? Uma ainda recente sessão da Assembleia Municipal (cujo custo ascendeu a 5 mil euros) onde muitos eleitos falaram, sem que todavia nenhum tenha abordado frontalmente o que se pretendia -escalpelizar as causas da crise local, debater eventuais soluções e aprovar as necessárias. Ou as múltiplas atitudes dos leitores de Tomar a dianteira, apontando supostos culpados, acusando mesmo sem apresentar provas e repetindo à exaustão raciocínios que nem sequer respeitam a realidade envolvente, tipo "Estamos assim por causa de cicrano, de beltrano e outros privilegiados", "A+B+C foram os coveiros da cidade e do concelho", "Faz falta uma união de esquerda capaz de incentivar actividades produtivas a nível local". Não será afinal por mero acaso que temos na nossa língua comum várias expressões inexistentes alhures: "serrar presunto", "partir pedra", "discutir o sexo dos anjos", ou aquela recentemente popularizada pelo professor Catroga.
Lendo isto, cada leitor procurará logo sacudir a água do capote. Alegará que a nível nacional acontece praticamente o mesmo, o que sendo parcialmente verdade, não constitui justificação cabal. Parcialmente verdade, pois se durante a recente campanha eleitoral não se passou de "uma política patriótica e de esquerda" (seja lá isso o que for), "defender Portugal e o Estado Social" (De quem e com que recursos orçamentais?), "É tempo de mudar" (Para quê?) e "Com o FMI quem paga és tu" (Não somos também accionistas do FMI?), tal parece ter resultado do facto de existir já um programa de governo, imposto pelos nossos credores, chamado "Protocolo de Entendimento".
Não constitui justificação cabal, dado que, havendo no país municípios onde o desenvolvimento económico, social e demográfico é visível a olho nu (Leiria ou Aveiro, por exemplo), e mesmo alguns sem défice orçamental nem dívidas de qualquer espécie, não consta que tal seja conseguido por mero acaso, sem prévia e cuidada elaboração, debate, aprovação e implementação de planos realistas e adequados à envolvência. Mas dá demasiado trabalho, não é? E uma vez que eleitos e funcionários tanto recebem ao fim do mês assim como assado, deixa arder que logo se há-de apagar, quando houver mais vagar...
No fundo, o que os portugueses em geral e os tomarenses em particular não querem admitir de forma alguma, cuidando que assim conseguirão derrotar a inexorável marcha do tempo, é que o paradigma mudou radicalmente. Até tempos recentes, mas já idos, praticava-se muito a conhecida fórmula de Giovanni di Lampedusa, n'O Leopardo= "É preciso ir mudando qualquer coisinha, para que tudo possa continuar na mesma". Agora, quer queiramos quer não, "É indispensável mudar tudo, única via para salvaguardar o essencial." E quanto mais tarde, pior!

sábado, 4 de junho de 2011

PORTUGAL VISTO PELO "LE MONDE"

Fernando Passos, à esquerda e Tito da Silva, no café português "Le château", no 14º bairro de Paris (Foto J.M. Simões/Le Monde)


"A diáspora portuguesa em França não é nada meiga para com os seus concidadãos, confrontados com a crise económica e chamados às urnas em 5 de Junho"

"O FMI? SEMPRE CONSEGUIMOS RECUPERAR"

"Com 60 anos de idade, quase todos em França, José Gorito podia ter alguma empatia para com o seu país natal, dada a grave crise económica que o atinge. E poderia também criticar o FMI, que desbloqueou, em conjunto com a União Europeia, no passado dia 5 de Maio, 78 mil milhões de euros, exigindo em contrapartida severas restrições orçamentais. Ou alarmar-se, no seu alojamento de porteiro, que habita com a sua esposa desde 1978, num prédio burguês do 14º bairro de Paris, com as consequências para os seus concidadãos que não emigraram.
Porém, apesar das dificuldades económicas da sua pátria de origem, Gorito está mais envergonhado que solidário, tal como muitos dos 800 mil portugueses da diáspora em França. Numa altura em que os seus compatriotas são chamados às urnas no próximo dia 5 de Junho, para eleições legislativas antecipadas, até fala mais alto: "Nas aldeias a gente via muito bem que estavam a viver acima das posses!"
Assim fala a diáspora portuguesa, cuja maior parte chegou a França nos anos 60/70, aproximando-se agora da idade da reforma, tal como acontece com Gorito e muitos outros emigrantes portugueses da primeira geração. Marcados por um lado  pela sua história migratória, que os empurrou para vidas de trabalho e para doutrinas do tipo "produzir e poupar", mas por outro lado, por anos e anos de pacientes economias, que lhes permitiram tornar-se proprietários de residências de férias em Portugal, sendo portanto aí considerados como gente remediada, ao contrário do seu estatuto em França.
Daí provém a diferença de atitude. Reformado desde 1 de Maio, de uma carreira de técnico na Renault, Gorito saiu de Portugal quando ainda não havia estradas alcatroadas nem automóveis, segundo diz. Mas depois, de cada vez que voltava de  férias às origens, notava que "os restaurantes estavam sempre cheios e que as pessoas já não queriam Peugeots nem Renaults. Só Audis e Mercedes." E ele que nunca quis pedir dinheiro emprestado.
Num destes domingos de Maio, na câmara do 14º bairro de Paris, por ocasião do tradicional espectáculo de Primavera, organizado por uma associação folclórica portuguesa, Olinda Almeida, 68 anos, empregada doméstica, também barafustava contra as dificuldades da sua pátria. "Há dias, um dos meus patrões disse-me: "Quando vemos trabalhar os portugueses em França, não conseguimos perceber como é que há semelhante crise em Portugal. Temos de os ensinar a constituir mealheiros, disse-lhe eu."
Em 38 anos de trabalhos domésticos para diversos patrões, esta pequena mulher morena, camiseiro branco e calças pretas, aplicou sempre o mesmo método: "Se ganhas dez, só podes gastar 5. Em Portugal têm feito o inverso -ganham 5 e gastam dez." E foi assim que conseguiu uma casa de férias e alguns apartamentos em Portugal, que agora estão arrendados. Tem aliás a intenção de continuar a trabalhar até ao limite de idade: "Setenta anos, em França, não é?"
A sua atitude severa em relação aos compatriotas em Portugal agravou-se com a nova vaga de emigração que tem aumentado nos últimos anos, devido ao fraco crescimento económico do país. De acordo com várias fontes, entre 10 e 15 mil portugueses chegam anualmente a França desde há cinco anos. Entre estes novos emigrantes, chegou a segunda filha de Tito da Silva, 62 anos, reformado de uma empresa de limpezas.
Grande adepto de futebol, fala-nos na sede da equipa amadora franco-portuguesa que apoia. Uma pequena loja, com as paredes azuis decoradas com galhardetes e outros troféus. "Depois da licenciatura em engenharia civil, nem sequer procurou emprego em Portugal. Disse-lhe logo para vir para aqui. Tem 27 anos e  está agora a trabalhar na Bouygues [a maior empresa francesa de construção civil e obras públicas]", disse-nos todo orgulhoso.
Ao lado de Tito da Silva estava nesse dia Fernando Passos, 56 anos, físico avantajado e cabelos brancos que, tal como muitos outros portugueses, é dono de uma PME familiar. Muitos na área da construção. A sua na das telecomunicações. Vive bem, mas manifesta a mesma incerteza do seu amigo Tito.
Como ele e outros, ao longo dos anos, depositou a maior parte das suas economias na Caixa Geral de Depósitos. Por isso agora tem medo da bancarrota. E tornou-se eurocéptico: "Quando Portugal entrou para a União Europeia, em 1986, pensaram que iam ser como a França ou a Alemanha; e depois saiu tudo furado."
Para alguns, a crise até acaba por revelar uma certa perda do sentido de "Estado". "Quando as pessoas iam ver um pequeno empresário, perguntavam sempre "Com ou sem IVA?" E compreendiam logo que convinha dizer "Sem IVA", diz Gorito. O que levava com frequência a dizer "Sabe, em França pagamos impostos, mas servem para qualquer coisa!" É aos impostos que atribui uma parte do êxito da sua filha única, 37 anos, farmacêutica licenciada: "Estudou durante muitos anos e não nos custou nada caro!"
Tanto Passos como Silva tentam sossegar-se à maneira deles: "Não é a primeira vez que o FMI passa por Portugal e sempre temos conseguido recuperar! Mas talvez agora os portugueses aprendam o que é a austeridade e mudem de rumo."

Elise Vincent, Le Monde, 04/06/2011, página 3

IMAGENS TOMARENSES DE FIM DE SEMANA

Mais uma originalidade nas obras em curso na Estrada do Convento. Havia um passeio e colectores de saneamento, tudo feito há menos de cinco anos, durante os mandatos da António Paiva. Agora, o passeio foi à vida e o colector de saneamento, que se vê do lado esquerdo, é substituído por outros mais recentes, mais em baixo na foto.

Eis o que resta de uma das anteriores caixas de visita (à direita) e de um dos sumidouros (à esquerda). Geralmente, quem tem muito dinheiro é assim que manda fazer: substituir tudo, mesmo que ainda esteja em perfeito estado de funcionamento, como era o caso.
Com tão bons métodos de planeamento e gestão, é muito natural que os recursos orçamentais, cada vez mais escassos, não cheguem para tudo. Exactamente o que agora acontece com as ex-instalações da PSP. Propriedade da autarquia tomarense, foi montado um estaleiro, com grua e tudo, por uma firma privada, ao que parece para substituir o telhado. Retiradas as telhas, chegaram à conclusão de que afinal os barrotes existentes já não estão em condições. Desmontaram o estaleiro, levaram a grua e desde então, nem ditos nem modos. Devem aguardar que chegue o inverno, para depois mandarem fazer tudo de novo, incluindo pelo menos os tectos do 2º andar. Câmaras ricas, é o que é!
Verdade seja que alguns munícipes também nem as medem, como bem testemunha este veículo ao cimo da Calçada dos Cavaleiros. Apesar de lá em baixo, na entrada da dita, existir uma chapa de trânsito proibido... Ganda país! Ganda terra! Ganda gente!

UM LIVRO EXCELENTE PARA APERFEIÇOAR O "CONHECE-TE A TI PRÓPRIO"

Os Portugueses, Barry Hatton, tradução de Pedro Vidal, Edições Clube do Autor. S.A. info@clubedoautor.pt,  Maio de 2011

Numa altura de gravíssima crise, que ninguém sabe como nem quando vai acabar, nada melhor, no meu entender, do que documentar-se na medida do possível, de forma a tentar compreender onde estamos e como chegámos a esta triste situação. Britânico há muito residente em Portugal, jornalista e excelente observador, Barry Hatton é casado com uma portuguesa, de quem tem três filhas, também portuguesas. O seu livro é, quanto a mim, uma suculenta, enriquecedora e amena leitura sobre o povo que sempre fomos e somos, numa linguagem irónica e fingidamente distanciada, como só os ingleses sabem usar. Eis cinco excertos selecccionados, assim a título de amuse-gueule, que é como quem diz acepipes, em linguagem pessoana.
"Quando disse à minha filha mais velha, nascida em Portugal, então com 15 anos, que estava a escrever este livro, a sua resposta imediata foi: "Oh pai! Não nos faças parecer um bando de saloios, que é o que toda a gente pensa de nós." Tinha alguma razão. Até mesmo os portugueses concordam por vezes com isso. Não é invulgar  ouvir um taxista português a vociferar contra a falta de habilidade para conduzir dos seus compatriotas, nesta linha: "Somos um bando de camponeses a viver numa cidade." E quando num avião cheio de portugueses se começa espontaneamente a bater palmas por causa da aterragem bem sucedida da aeronave, é palpável o embaraço de alguns dos seus compatriotas." (Pág. 26)
"Um amigo português contou-me que o dono de um restaurante que conhecia, enganou um casal de ingleses, levando-o a pagar um preço muito mais elevado do que a conta, por um prato de sardinhas. E gabava-se da história. Mas quando uma das maiores empresas turísticas britânicas se retirou, porque a região se tornara demasiado cara, os donos dos restaurantes foram a correr ter com o governo para que os salvasse."(Pág. 43)
"Um jornalista estrangeiro recém-chegado... ...que se esforçava por compreender o português, fez uma nota mental para pedir uma entrevista com um homem chamado "Pá", que nunca tinha visto, mas que era repetidamente mencionado sempre que as pessoas discutiam. Deve ser, pensou o meu colega, alguém poderoso, alguma figura obscura que puxa os cordelinhos atrás do cenário -um general, talvez. Ou um político ligado ao KGB." (Pág. 193)
"Em especial nas pequenas vilas rurais, onde as relações são mais pessoais do que oficiais, os políticos locais mantiveram as mãos metidas na bolsa da UE e entregaram-se a gastos estouvados e frívolos, que perpetuavam o patrocínio e o nepotismo. A criação de riqueza perene foi muito frequentemente negligenciada. O presidente do Tribunal de Contas reconheceu, em 2008, que "muitas infra-estruturas foram construídas para ninguém." Foram uma manifestação da síndrome de "pontes-para-nenhures". (Pág. 224)
"Uma atitude desdenhosa em relação à noção de ordem talvez seja mais visível na confusão rural de Portugal. As cidades da província parecem ter sido planeadas nas costas de um guardanapo de papel, durante o almoço. Mesmo os locais que contêm notáveis jóias arquitectónicas e históricas, como Tomar, com o seu Convento de Cristo, do século XII, estão desfigurados pela arquitectura urbana desleixada. "Tomar é feia!", suspirou a minha mulher (portuguesa), enquanto a atravessávamos de carro." (Pág. 228)
Gostou? Então está à espera de quê?! Se está em Tomar, ala direito à Livraria book.it do Modelo/Continente. Ontem ainda restavam cinco exemplares. No expositor central, à esquerda de quem entra, na face virada para o exterior, livros expostos com a lombada para cima, sensivelmente a meio. Boa sorte...e  boa leitura!

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Como os estrangeiros residentes vêem os portugueses - 6


"Finlandesa, 27 anos, Sanna Nyyssölä está em Portugal à procura de trabalho. "É mais complicado aqui do que na Finlândia e é difícil porque sou estrangeira, mas estou a tentar." Bem humorada, avança: "Não levem a mal. Eu e a minha família sempre achámos que a Finlândia devia participar no apoio a Portugal. Fazer parte da UE também é ser responsável pelo bem-estar dos outros países."
Corria o ano de 2006 quando Sanna, ainda estudante de Musicologia na Universidade de Helsínquia, chegou pela primeira vez. Passou uma semana em Lisboa. Visitou a cidade e os arredores e, como boa turista,  quis ouvir o fado. "Foi no Restaurante Caldo Verde, no Bairro Alto, que descobri o fado vadio. Apaixonei-me pelo fenómeno e pensei que podia ser um bom tema para tese de mestrado." Dito e feito. Um ano mais tarde estava de volta para estudar. Teve uma bolsa durante dez meses e, entretanto, trabalhou no serviço de música da Fundação Calouste Gulbenkian, deu aulas de finlandês nos cursos de verão da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e concluiu a tese. Apresentou-a em Helsínquia e voltou para Portugal.
"Temos de trabalhar. Cá é tudo mais relax e às vezes precisamos de perguntar as mesmas coisas muitas vezes para conseguirmos uma resposta. Estou a enviar o currículo para teatros, produtoras, festivais. Estranho que não respondam. Nem sei se receberam." Se não encontrar trabalho, Sanna partirá: "Agora tenho saudades da neve, depois vou ter saudades das praias. Mas primeiro vou tentar. Os portugueses também precisam de ser persistentes. Quando querem uma coisa, devem lutar por ela. Por exemplo, os artistas que cantam fado vadio dizem que o fado que a Marisa canta não é exactamente fado. Mas admiram-na e , no íntimo,  gostavam de ser como ela. Vocês admiram algumas coisas que temos no norte da Europa, mas têm de se atrever a lutar por elas. E agora é a hora!"
Sanna também conhece os vídeos da fama. Acha-os até muito engraçados: "O português relata a história das conquistas portuguesas e lembra que mandaram roupas para nós durante a Segunda Guerra Mundial. É um trunfo vosso, mas têm outros. O vídeo finlandês é mais bem-humorado e apesar de tudo não fazemos piadas com a situação das finanças portuguesas."

Texto de Célia Rosa, Fotografia de Orlando Almeida/Global Imagens
Revista NS/Diário de Notícias, 28/05/2011