domingo, 8 de Novembro de 2009

CONTINUIDADE E DEFINHAMENTO...

Tinha decidido fornecer hoje à noite uma pitada de história local. Para focar/lembrar alguns factos que podem muito bem constituir ensinamentos importantes sobre o nosso futuro a construir. Entretanto li os jornais e encontrei no PÚBLICO este tema que me pareceu importante.
É meu entendimento que a nível nacional o silêncio sobre a crise resulta, sobretudo, de dois factores: 1 - A direita (PSD/CDS) viu desmentidos na prática os pretensos méritos do liberalismo, com a necessidade de importantes intervenções governamentais para evitar falências em série. Mesmo na pátria do capitalismo puro e duro -os Estados Unidos. 2 -A esquerda (PS, PCP, BE) mostra-se cautelosa, dado que, apesar da gravidade e persistência da crise, a direita tem subido e ganho eleições por essa Europa fora, quando afinal o inverso seria mais lógico. E depois parece haver um certo cansaço em relação ao sacerdote Louçã e ao seu manifesto irrealismo nalguns pontos, bem como uma lenta mas contínua erosão do Mosteiro do Jerónimo. Adiante.
No que a Tomar se refere, há também a considerar o relativo "entontecimento transitório" após o choque provocado pelo "juntar dos trapinhos" PSD/PS, que surpreendeu e escandalizou muitos eleitores. Com toda a razão, de resto. Tanta coisa de parte a parte, e afinal para quê ter votado num ou noutro ? Não teria sido mais correcto fazer a coligação e anunciá-la aos eleitores antes das eleições ?
Sentindo-se, em muitos casos, enganados, os eleitores mais adestrados nestas coisas pensam também que estamos perante uma aliança de mútua conveniência dos militantes envolvidos, que infelizmente vai prolongar por mais algum tempo a continuidade do definhamento, em vez de possibilitar a ruptura, encetando um período de transformação e afirmação. E escrevo "prolongar por mais algum tempo" tendo em conta que, segundo Hernâni Lopes, "...A tendência mais provável num cenário onde a continuidade gera definhamento, é que este seja um factor adicional de continuidade, num círculo vicioso que será operante até se chegar a um ponto de ruptura." Entretanto teremos perdido mais uns anitos em vão. Após o que os eleitores, já anteriormente escaldados, saberão que tanto faz votar PSD como PS. Lindo. E muito mobilizador, não é ?
E vamos agora à tal pitada de história local, que tem tudo a ver com o que antecede. Todos os tomarenses sabem que Tomar começou a ser fundada, lá em cima, a partir de 1 de Março de 1160. Sabem igualmente que o período áureo nabantino vai de 1420 a 1557, que é como quem diz da conquista do controlo da Ordem de Cristo pelo Infante D. Henrique ao final do reinado de D. João III. Com uma fase já decadente a partir da reforma de 1529. O que poucos terão reparado é no longo período obscuro que vai de 1168 (concessão do foral velho) até 1420, do qual apenas se sabe, geralmente, que houve a adulteração do dito foral, em data indeterminada com precisão, a extinção dos templários, em 1312, a "fundação" da Ordem de Cristo, a ida para Castro Marim e o regresso a Tomar em 1325.
E o resto ? É costume dizer-se que os povos felizes não têm história, podendo bem ter sido esse o caso dos tomarenses até 1420. Isto porque, de acordo com Marx, autor maldito mas ainda assim analista económico de muito valor, apesar dos seus evidentes erros, qualquer desenvolvimento económico pressupõe um período mais ou menos longo de poupança, designado por "acumulação primitiva". O tal capital inicial, sem o qual, ainda hoje, os projectos, por muito bons que sejam, ou dificilmente avançam, graças à banca e/ou ao estado, ou não avançam mesmo.
Ciente da necessidade de conseguir fundos, o Infante D. Henrique visou ao mais alto nível de riqueza do país, quando pediu ao pai para tentar obter do papa a sua nomeação como governador e administrador da Ordem de Cristo, que acabou por dominar entre 1420 e 1460. Durante esse longo período, diz-nos o seu cronista Zurara, "lançou a empresa das navegações com os seus cabedais e as rendas da Ordem de Cristo." Sabemos igualmente que tal empresa, apesar dos elevados cabedais envolvidos, só muito mais tarde veio a ser rentável. À data do seu falecimento, o Infante deixou dívidas, as quais só vieram a ser pagas no reinado de D. Manuel, entretanto Mestre da Ordem de Cristo, na qualidade de herdeiro do herdeiro do Infante, e rei de Portugal.
As grandes obras do Convento, do Infante D. Henrique, de D. Manuel I e de D. João III/Dona Catarina, não foram por conseguinte nenhum presente do infante ou da coroa portuguesa. No primeiro caso tratou-se apenas de edificar acomodações para o próprio. Nos dois outros, de mera aplicação dos rendimentos dos cabedais anteriormente aplicados.
A partir de 1529, quando passaram de cavaleiros e comendadores a simples frades de cógula (Reforma de Frei António de Lisboa), foi a longa decadência, com duas pequenas interrupções, uma durante o período filipino e outra logo após a restauração. Até que em 1834 acabou tudo e os tomarenses ficaram órfãos de facto. Desde então habituaram-se a viver directa ou indirectamente à custa do orçamento de estado, tendo-se mostrado até ao presente incapazes de definir o seu próprio futuro. Parecem aguardar que apareça um D. Sebastião salvador, numa manhã de nevoeiro, em vez de procurarem conseguir novamente uma razoável "acumulação primitiva", sem a qual...
E aqui reside o nó górdio. A autarquia vive há vários anos acima dos seus recursos, esperando que o governo e/ou a banca lhe vão permitindo continuar a esbanjar. O governo está na mesma delicada situação, pelo que tenderá reduzir e não a aumentar as transferências para o poder local. Quanto à banca, dois aspectos: 1- Quanto mais empréstimos, mais altos os juros; 2- Com o previsível aumento da euribor, o actual serviço anual da dívida autárquica, da ordem dos 2 milhões de euros, upa! upa!
Mas enquanto funcionários e autarcas forem recebendo a tempo e a horas, está tudo bem. Ou não ?

OS FACTOS E A OPINIÃO

Desenganem-se os ferrenhos adeptos das duas forças políticas que presentemente governam a câmara. E deixem-se de paranóias. Ninguém persegue os vossos amados eleitos, nem exerce deliberadamente aquilo a que as senhoras e os senhores em questão apodam erradamente de má-língua. A situação económica local é suficientemente grave -e a economia condiciona tudo o resto- para se perder tempo com tais ninharias inglórias.
No que nos diz respeito, trata-se apenas de mostrar factos incontroversos e sobre eles emitir opiniões fundamentadas, naturalmente sujeitas a erros de perspectiva, como tudo o que é humano. Por exemplo, dizendo que, tal como o governo, a câmara tomarense também tem a mania de viver acima das suas posses, estamos apenas a alertar para uma situação evidente. Realmente, se a autarquia nabantina não gastasse sitematicamente mais do que aquilo que recebe, para que seriam os sucessivos e consideráveis empréstimos?
Pois a partir daqui, enquanto os tais adeptos ferrenhos, geralmente ignorantes que se desconhecem, consideram que está tudo bem, pois não havia outra solução, nós opinamos que a situação é insustentável a curto/médio prazo, pelo que é forçoso buscar e encontrar outra maneira de viver. Que isto na política, na economia ou na medicina, não é como no futebol. No futebol, ganhe quem ganhar, aconteça o que acontecer, a vida continua tal como anteriormente, salvo para alguns dirigentes, treinadores ou jogadores. Pelo contrário, na economia, na política ou na medicina, um simples acto insuficientemente ponderado pode vir a provocar a morte do paciente. Repentinamente, a curto, médio ou longo prazo.
A actual situação tomarense parece-nos extremamente grave, não só porque insustentável, como já foi dito, mas sobretudo porque os nossos eleitos parecem persuadidos de que tudo se há-de resolver com umas aspirinas (empréstimos), enquanto não se ultrapassa a crise e volta a fartura. Acontece que, sem novas políticas, nunca mais se conseguirá ultrapassar o actual marasmo económico, dado que a época das farturas, do crescimento a 3% ao ano, é coisa do passado, que nunca mais voltará.
O reputado economista e ex-ministro Hernâni Lopes, é muito claro sobre este assunto: "A Europa foi condicionada pelo que se pode designar como uma "ilusão de óptica". A expectativa de que o seu crescimento excepcional nas três décadas que se seguiram à segunda guerra mundial poderia continuar por tempo indefinido. Justificava-se que, no pressuposto de que essa expectativa se iria confirmar, se instalassem dispositivos de políticas sociais e programas de despesas públicas que garantiam a segurança de estilos de vida libertos da necessidade de se preocupar com a formação de poupanças, para satisfazer o tradicional motivo de precaução.
...De facto, a taxa média de crescimento anual registada na Europa e no mundo ao longo de séculos, não justifica a expectativa de se poderem prolongar por um tempo indefinido os valores obtidos entre 1945 e 1975..."
(Hernâni Lopes, A economia no futuro de Portugal, páginas 74/75).
Convém ainda acrescentar dois factos agravantes. Por um lado, devido à nossa especificidade política na Europa do pós-guerra, a fartura proveniente do crescimento económico iniciou-se entre nós só no final dos anos 60 e acentuou-se nos anos a seguir ao 25 de Abril, com a economia "puxada" pelo consumo interno, vindo a esmorecer com a entrada na moeda única. Por outro lado, a tradicional morosidade lusitana é particularmente evidente em Tomar, onde apesar de vivermos uma situação económica desgraçada, os nossos autarcas fazem de conta que está tudo bem, que não é nada com eles, que não há nada a fazer, bastando ir aguentando para que tudo acabe por se resolver.
Nestas condições, quando finalmente forem obrigados pelo agravamento da envolvência sócioeconómica a tomar medidas, já as características da presente crise terão evoluído, pelo que as medidas que neste momento seriam correctas já estarão ultrapassadas. Aqui fica o aviso, para o que considerarem conveniente.

FINALMENTE SOLUÇÃO EM S. JOÃO !


Após uma primeira sessão plenária para esquecer, seguida de várias reuniões privadas, os eleitos para a Junta de Freguesia de S. João Baptista, conseguiram finalmente portar-se à altura da torre da igreja, chegando a um acordo que honra todas as partes envolvidas.
Face aos resultados obtidos na reunião formal de ontem, a junta passa a ser constituída por Augusto Barros (IpT), Joaquim Patrício (IpT), Sílvia Fonseca (IpT), Telmo Farinha (PSD) e Francisco Faria (PS), todos eleitos por unanimidade.
A assembleia de freguesia terá uma mesa composta por Tavares Martins (IpT), Francisco Madureira (PSD) e Carlos Santos (PS), eleitos por unanimidade, menos um voto em branco.
O anterior presidente da junta, Acácio Norte (PSD), renunciou ao mandato, o mesmo tendo feito a segunda da sua lista, pelo que o terceiro, António Madureira, passa a vogal.
Desejamos felicidades e facilidades para todos.

sábado, 7 de Novembro de 2009

UM MODELO DE DESENVOLVIMENTO...

Foto O MIRANTE
"Não me posso considerar herdeira de uma situação tranquila, ligar o piloto automático e deixar passar os anos, até ao final do mandato. Falta o mais importante, que é criar um modelo de desenvolvimento para Rio Maior." Assim falou Isaura Morais, (PSD), a nova presidente da Câmara de Rio Maior, nas comemorações dos 173 anos da criação daquele concelho. Temos assim que, após um trabalho notável, ao longo de vários mandatos, do socialista Silvino Sequeira, que entre outras coisas dotou a cidade das salinas com uma fileira desportiva completa (escola superior de desporto, centro de estágios integrados, campos, pistas e piscinas), a sua sucessora se mostra preocupada com o futuro, e tem toda a razão. O que hoje é excelente, um dia destes já estará ultrapassado, pelo que se torna imperioso ir sempre inovando, com bases tão sólidas quanto possível.
Em Tomar, onde como é sabido há mais de dez anos que não existe qualquer modelo coerente de desenvolvimento, o nosso presidente limitou-se a dizer, no seu discurso de posse, que vêm aí tempos difíceis.
E disse bem, embora provavelmente nem imagine quão difíceis serão. Na verdade, após gastos de milhões em obras de espavento, mas sem quaisquer retornos transaccionáveis, a actual equipa PSD começa a colher agora aquilo que semeou nos últimos três mandatos -preços, taxas e licenças a convidarem os munícipes a irem viver para concelhos mais sensatos, moderados e acolhedores, o que de resto têm feito. Por isso, as receitas são cada vez menos, as despesas fixas cada vez mais e os empréstimos cada vez mais difíceis. Basta dizer que os encargos anuais com a dívida já ultrapassam os dois milhões de euros. E ainda os juros não começaram a subir, o que vai acontecer a partir do segundo trimestre do próximo ano...
Entretanto, em termos de modelo de desenvolvimento, tudo parece indicar que os nossos autarcas tencionam continuar a guiar-se por um documento manifestamente atamancado, pomposamente intitulado "Tomar 2o15 - Uma nova agenda urbana", com propostas incoerentes e inadequadas aos tempos que correm, bem como frases fantasistas, para tentar enganar lorpas. Exemplos: "No dealbar do século XXI, Tomar evidencia não só uma vitalidade patente em vários indicadores, como perspectivas para robustecer e diversificar a sua base económica, recuperando-a e actualizando as suas vocações históricas: cidade de serviços, polo de inovação e de competitividade, cidade de cultura e de saber."(página 8) ..."Tomar necessita de uma NOVA AGENDA URBANA que, em coerência com a sua vocação e com as linhas de orientação seguidas até aqui, defina a acção a seguir até 2015 de modo a se cumprir o objectivo máximo de se tornar mais competitiva, mais atractiva, mais sustentável e mais solidária, valorizando um património notável, criando novos referenciais de qualidade urbana e afirmando-se como um espaço de oportunidade para viver, para investir e para trabalhar." (página 11)
Decadência, definhamento, desmazelo, fuga da população, pobreza, desemprego, fraca qualidade de alguns serviços autárquicos, património municipal cada vez mais arruinado, nada disto parece ter importância para quem nos administra há vários mandatos. Tratando-se de pessoas inteligentes, salvo uma ou outra notória excepção, a patente passividade só pode ter uma explicação -a "cegueira do poder", maleita demasiado frequente e de difícil remissão, que leva as suas vítimas a não enxergarem a realidade envolvente. Salazar, Tomás, Caetano, Franco, Fidel Castro, Putin, são exemplos de tal doença. Para não mencionar autarcas que temos tido...
Este ano houve sete listas concorrentes, nas recentes autárquicas. Se continuarmos por este caminho, rumo ao abismo, em 2021, se ainda formos concelho, é muito duvidoso que apareça sequer uma lista concorrente. Ninguém terá então pachorra para continuar a ser alvo dos justificadíssimos insultos dos eleitores nabantinos. Oxalá esteja enganado !

UM LIVRO NADA AGRADÁVEL MAS INDISPENSÁVEL

Distribuído ontem com o semanário SOL, "A ECONOMIA NO FUTURO DE PORTUGAL" é, na minha tosca opinião, um livro que destoa e incomoda. A sua leitura pouco tem de agradável, mas é absolutamente indispensável para quem queira tentar perceber em que país e em que época está vivendo.
É um livro que destoa porque o seu estilo agreste parece fugir deliberadamente daquilo que actualmente "vende" -os livros digestivos ou "de aeroporto". É um livro que incomoda, e incomoda duplamente. Aquilo que diz raramente é optimista e a forma como o diz é tudo menos acessível. E isto apesar de proclamar exactamente o oposto: "A segunda norma do método refere-se à orientação da escrita, onde a opção seguida será privilegiar um sentido positivo e afirmativo." (pág. 46) "A terceira norma do método estabelece o estilo de escrita, evitando as fórmulas convencionais da linguagem técnica e burocrática para privilegiar a terminologia que esteja mais próxima do real." Assim devidamente prevenido, o leitor terá direito a muitas páginas desde género: "Todavia, também depende do que for a qualidade dos dirigentes políticos, económicos e sociais para promoverem a adopção de comportamentos sociais viáveis, designadamente aqueles que terão de se ajustar à passagem do contexto clássico dos confrontos internos que se decidiam em estruturas de jogo de soma nula (o que um grupo social ganhava correspondia à perda que o outro grupo social teria de suportar, porque o que estava em disputa era o que existia dentro das fronteiras que fechavam o espaço relevante para este confronto distributivo) para o novo contexto das relações competitivas em espaços abertos que se decidem em estruturas de jogo de soma variável (em que todos os grupos sociais internos podem perder ou ganhar em relação a outros grupos sociais externos, que passaram a ser intervenientes directos nas relações conflituais porque todos operam no mesmo mercado globalizado)". (pág. 151)
Além desta escrita complexa, mas alegadamente simples segundo os próprios autores, há também alguns axiomas de muito difícil digestão para muitos eleitores, porque sendo insidiosamente acutilantes, são igualmente fotografias na nossa realidade. Tanto a nível nacional como citadino. Este, por exemplo: "Todas as sociedades humanas contêm mecanismos implícitos (no essencial de matriz biológica) de formação de uma classe estruturada detentora do poder formal -é o que, genericamente, se designa como "classe política".
"A experiência milenar mostra que, boa ou má, melhor ou pior, a existência de uma classe política é permanente e de todas as sociedades -embora com frequentes e, por vezes, profundas transformações. A questão nuclear do discriminante entre sociedades radica-se a um nível mais fundo, que designamos pela questão da ocorrência, ou não de uma "elite dirigente".
"Já não se trata de uma estrutura organizada em função de e com vocação para a detenção e o exercício do poder formal; trata-se de uma conjunto -digamos um grupo social auto-formado e auto-consciente e com um grau relativamente elevado de reconhecimento colectivo- capaz de produzir e difundir um corpo estruturado de ideias que, permeando a sociedade, lhe transmitem os comportamentos essenciais..."
Livro encruzilhada, com aportes de economia política, sociologia, geografia, história, gestão, psicologia, etc., A ECONOMIA NO FUTURO DE PORTUGAL, embora o não diga abertamente, propõe a alteração completa das prioridades, admiravelmente resumidas, nos idos de 4o do século passado, pelo general De Gaulle. Disse ele um dia, na sua linguagem militar -"Mandem avançar a tropa; a intendência será forçada a seguir". Em linguagem civil -tenham ideias, avancem com elas, na cultura, no ensino, nas infraestruturas, na saúde. Os recursos logo aparecerão. Sessenta anos mais tarde, acossados pelas dificuldades inerentes à globalização e à mudança cada vez mais acelerada, os membros da equipa de Hernani Lopes (os autores do livro) aconselham exactamente o oposto: Temos de avançar com a intendência, isto é, criar riqueza, criar valor acrescentado, criar mais valia, efectuar e /ou reforçar a acumulação primitiva. O resto virá por acréscimo, tal como acontece com os ratos ao cheirar-lhes a queijo. Ou, como eles escrevem de forma humorística, "Depois de recordados os seis pontos estruturais da gestão de empresas, o último dos princípios de referência que serão tidos em conta na elaboração deste texto são as sete regras da responsabilidade: estudar, estudar, estudar, trabalhar, trabalhar, trabalhar, trabalhar -ou seja, três vezes estudar, quatro vezes trabalhar. As sete regras de responsabilidade, por si só, não são uma garantia de sucesso, nas empresas ou no trabalho analítico. Não as cumprir, porém, é uma receita segura para o fracasso." (pág. 53)
A ECONOMIA NO FUTURO DE PORTUGAL, Hernâni Rodrigues Lopes (coordenador), José Poças Esteves, equipa técnica e consultores da SaeR, Edição O SOL, 285 páginas, 12€50, em qualquer venda de jornais.

sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

VITORINO JÁ DESENCANTADO ?


"Vou tentar melhorar o desempenho dos serviços. Trata-se de um pelouro em que o desempenho pode ser positivo, sem que isso implique um agravamento no orçamento da câmara. O problema que temos, nesta altura, é de restrição orçamental (negrito nosso); é uma questão que afecta todo o país e todos os serviços, pelo que não me desagrada estar numa área que pode melhorar, sem precisar de grandes investimentos por parte da autarquia. Tenho quatro anos para colocar todo este processo a funcionar melhor." Assim falou ontem José Vitorino à Rádio Hertz. Os serviços em questão são os do DAU -Departamento de Administração Urbanística, que foram chefiados por Paula Marques até à sua saída para outras paragens mais hospitaleiras.
Muito realista, diria até terra-a-terra, esta declaração do vereador socialista denota algum desencanto, se calhar proveniente da passagem das altas camadas para a problemática realidade. Por outras palavras, a troca do manto diáfano da fantasia pela nudez chocante da verdade.
A tarefa que diz ter escolhido parece-nos em simultâneo ingrata e inglória. Ingrata, visto que cada burocracia tem a sua lógica, as suas rotinas, a sua própria estrutura à margem da oficial cadeia hierárquica. Tentar alterar, mesmo ligeiramente, algum destes elementos é considerado de facto um ataque infame e injustificado. Pois se sempre assim foi, para quê mudar agora ? Assim sendo, se alguma pequena mudança for conseguida, logo que o vereador virar costas tudo voltará ao que era. É bem conhecido o anexim "Expulse os hábitos nefastos e eles regressarão a galope."
Além de ingrata, a tarefa é igualmente inglória, dado que o mencionado departamento é apenas um dos muitos serviços do município tomarense, que os eleitores mais ao facto destas coisas foram criticando ao longo dos anos. Acontece até que o principal problema nessa área, tanto para os munícipes como para o município, não é presentemente o seu bom ou mau funcionamento. Tem antes a ver com os custos exorbitantes das taxas e licenças, bem como com absurdas exigências legais, que levaram à muito nítida queda nos pedidos de viabilização e/ou de loteamento e licenciamento, ninguém estando disposto a suportar condições sem qualquer nexo com a realidade presente. Daqui tem resultado a cada vez mais importante diminuição das receitas, tendência que se vai manter inevitavelmente, até que o actual executivo decida ter coragem para propor e adoptar as medidas que se impõem.
Profissional do sector, Vitorino já intuiu que, visivelmente com a corda na garganta em termos orçamentais, Corvêlo de Sousa não vai decerto ousar bulir nas taxas e licenças. Só se for para as aumentar ainda mais. Por isso, avisadamente, o vereador socialista decidiu virar-se para aquilo que tem alguma hipótese de levar a bom porto. Com parcas chances de sucesso, como já vimos. Ainda por cima, a sua linguagem realista e de algum desalento, denota já ter percebido que se tratará apenas, para ele, de ir tentando envernizar um dos pés de uma grande mesa, cujo tampo está condenado pelo caruncho, sem que, apesar disso, haja coragem ou meios para o substituir ou restaurar convenientemente. E enquanto isso não for feito...
Dirão os leitores que na fotografia acima Vitorino está sorridente. É verdade. Mas isso foi antes de perceber o "buraco" onde se foi meter. Ou o meteram.

RELVAS, A INTERNET E A REALIDADE

Noticia O TEMPLÁRIO (página 11 da edição de 05/11/09), que o presidente da Assembleia Municipal, Miguel Relvas, já solicitou às duas rádios locais a apresentação de propostas para a transmissão integral via internet das sessões daquele órgão. Como qualquer outro recurso técnico, a internet pode ser excelente, péssima ou completamente inútil. Depende inteiramente daquilo que através dela se faça. Um mau filme não passa a ser excelente só porque é exibido na Eurovisão...
No caso do parlamento tomarense, o problema do seu evidente apagamento e progressiva inutilidade prática, não resulta tanto da falta de difusão das suas actividades, mas também e sobretudo da sua prática reiterada. Anos e anos de maioria absoluta, com eleitos de fraco poder de encaixe e falta de hábitos democráticos, deram no que se sabe: sessões a horas impossíveis para quem trabalha, um regimento abstruso, aplicado de forma rígida, silenciamento das (poucas) vozes discordantes, ordens de trabalhos apenas para cumprir calendário, actuação orientada exclusivamente no sentido de não interpelar o executivo. A tudo isto, a agora pretendida transmissão via internet não dará qualquer solução, caso persista o comportamento incoerente verificado até aqui -dizer um coisa mas desmenti-la na prática.
Conviria por isso ter sempre presente a muito conhecida história da égua do sevilhano, que já vem dos nossos avós. Com a louvável intenção de poupar tanto quanto possível (o que agora o município de Tomar também terá de começar a fazer, voluntariamente ou à força...), um nobre sevilhano, após madura ponderação, resolveu habituar a sua montada a deixar de comer. Ficava-lhe nitidamente mais em conta. Pouco a pouco, foi reduzindo o penso diário (é assim que se diz nas coudelarias) e o animal, coitado, lá foi suportando a sua sorte, cada vez com maior dificuldade. Até que um dia morreu de inanição. De fome, se preferirem. Pois em vez de admitir que procedera mal e provocara deliberadamente a morte da égua com a sua ignorância crassa, o nosso homem, apesar de sevilhano, teve um comportamento muito tomarense. Proclamou, convicto -Coitadinha da égua ! Agora que já estava a ficar habituada é que se finou. É preciso azar !
Pois é ! Nas margens do Nabão também nos vamos habituando. Até quando vamos durar ?