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| Foto Rádio Hertz, com os nossos agradecimentos |
É reconhecidamente um dos grandes problemas do povos do sul da Europa, entre os quais os portugueses. São demasiado conformistas e comodistas. Quanto aos tomarenses, em geral ainda são piores. Além de conformistas, comodistas e acomodados, são medrosos e hipócritas. Não se manifestam, a favor nem contra, por ser mais fácil e mais confortável, ou por medo de represálias. Neste contexto, assume particular relevo a atitude corajosa do cidadão Arlindo Nunes, presidente da Junta de Freguesia da Madalena, funcionário do Mnicípio e militante socialista, que decidiu denunciar no seu blogue Falar Verdade uma situação incómoda e incomum: Há cinco meses que, sem qualquer explicação, a Câmara não dispensa as máquinas para a reparação das estradas e caminhos municipais da sua freguesia.
Segundo relata o autarca, houve uma reunião de todos os presidentes de junta com Corvêlo de Sousa, em Dezembro. Nessa reunião foram feitas promessas no que concerne à cedência de maquinaria municipal. Em 31 de Janeiro, tendo verificado que as promessas não estavam a ser cumpridas, Arlindo Nunes resolveu publicar no seu blogue uma cópia da carta entretanto enviada ao presidente da câmara. Três semanas mais tarde, a situação mantém-se inalterada, apesar de entretanto a Rádio Hertz e O Templário já terem noticiado o facto.
A dado passo da sua carta a Corvêlo de Sousa, Arlindo Nunes escreveu "Julgamos que o Município deve uma explicação pública do que se está a passar." No meu entender, tem toda a razão e até peca por modéstia. Nos termos da legalidade democrática em que vivemos, enquanto eleito pelos cidadãos-contribuintes, Corvêlo de Sousa tem não só o dever, mas também a estrita obrigação de explicar a quem o escolheu ou não a estranha situação actual.
Enquanto essa explicação não surgir, aqui fica a minha interpretação.
Após anos e mais anos de autarcas sem projectos pertinentes e/ou desprovidos de capacidade de liderança e de gestão da coisa pública, o cancro burocrático foi tomando conta da autarquia, paulatinamente mas de forma eficaz. Só assim se explica que um município tecnicamente falido tenha decidido há pouco tempo implementar uma alteração ao quadro de pessoal, instituindo três departamentos e quinze divisões, quando como todos sabemos, mal tem dinheiro para mandar cantar um cego. Temos assim, quanto a pessoal, uma pirâmide invertida ou, para simplificar, um pequeno exército com excesso de oficiais generais, mas enorme carência de soldados e cabos. Esta carência é particularmente grave no que se refere a postos de trabalho -jardineiros, calceteiros, operadores de máquinas, motoristas, varredores, cantoneiros... O que resulta na supracitada doença cancerosa: Para poder assegurar os vencimentos e outras benesses dos eleitos, dos auxiliares destes e as cúpulas do funcionalismo, o município sacrifica a mão-de-obra. Está assim a proceder ao contrário daquilo que devia fazer. Os cidadãos, tanto os urbanos como os rurais, passam muito bem sem directores de departamento e/ou chefes de divisão, que em geral só servem para criar dificuldades, ao contribuirem para alongar o já labiríntico processo burocrático. Mas têm absoluta necessidade de quem tape buracos, repare calçadas, varra as ruas, trate dos jardins, recolha o lixo ou limpe as valetas. Porque assim é, aqui fica o meu apoio à justíssima reivindicação do presidente da Madalena, acompanhado pelo meu agradecimento pela coragem demonstrada. Faço votos para que outros -autarcas ou não- tenham audácia suficiente para lhe seguir o exemplo. Caso assim não aconteça, tarde ou nunca sairemos desta triste e envergonhada miséria. Com autarcas a fingir que são ricos, adjudicando inúteis obras de fachada, completamente desligadas de qualquer planeamento coerente. Haja vergonha!

