1 - Desenganem-se os coligados e outros eleitos locais; deixou de haver relação directa entre a virulenta crise internacional, a crise portuguesa e a crise tomarense. A crise internacional já foi ultrapassada por todo o lado, salvo nos PIGS (Portugal, Irlanda Grécia e Espanha), que se atrasaram novamente, devido a mazelas estruturais. Estão a ficar mais uma vez para trás. A nivel nacional, a resolução da crise, que agora é específica e não induzida, continua a depender, não da eventual vinda do FMI, mas da coragem para adoptar as medidas estruturais que se impõem. Nomeadamente uma redução drástica, impopular e duradoira da despesa pública, que terá infelizmente de vir a passar pela dispensa de muitos funcionários públicos, a enviar para casa com o respectivo vencimento garantido. Mas sem subsídio de alimentação ou de transporte, sem horas extraordinárias, sem chamadas telefónicas, sem aquecimento, sem telemóvel, sem computador, sem internet, sem tinteiros sem papel, sem gabinete e sem secretária. Como está a acontecer na Irlanda.
2 - A nível local ocorre sensivelmente o mesmo. Deixou de ser evidente que haja uma ligação entre a crise local e a nacional. A prova é que em cidades próximas daqui se vive bastante melhor, com mais qualidade de vida, designadamente em termos de limpeza urbana, manutenção de pavimentos, qualidade de atendimento, taxas e preços dos serviços públicos obrigatórios ou investimentos públicos e privados. Significa isto que Tomar já perdeu há muito o contacto com o pelotão da frente, rolando agora bastante atrasada e em ritmo cada vez mais pachorrento.
3 - Sendo consensual que nenhuma das três forças políticas representadas no executivo apresentou até agora qualquer plano de operações, susceptível de tornar possível, a curto, médio ou longo prazo a saída do angustiante marasmo, cada vez mais assustador, esperava-se que o novo ano trouxesse novidades. Algo do género "Reunimos, debatemos, temos propostas para apresentar aos eleitores. Uma série de medidas articuladas que nos vão permitir, graças ao esforço de todos, mudar de rumo e sair do buraco até ao final deste mandato." Qual quê! Houve novidades, mas não as esperadas.
4 - Em vez de propostas de medidas articuladas, tendentes a recolocar a cidade e o concelho na senda do progresso, a relativa maioria, após debate com o PS e graças ao voto favorável dos IpT, pariu uma reestruturação do quadro de pessoal do município. Passará a haver três directores de departamento e 15 chefes de divisão. O PS ainda apresentou uma proposta com apenas 10 chefes de divisão, a qual se acolhida permitiria poupar o suficiente para promover alguns funcionários subalternos que aguardam há anos, mas foi derrotado. Temos assim uma nova versão tomarense para o velho dito "em tempo de guerra, não se limpam armas". Doravante deverá dizer-se "Em tempo de crise, promovem-se chefes." E quanto mais grave for a crise, mais chefes se devem promover.
5 - O caricato da questão é que "divisão" é um termo militar, correspondente a um conjunto de vários regimentos sob o comando de um general. Assim sendo, vamos ter 15 divisões, cada uma chefiada neste caso por alguém com regalias equivalentes às de coronel, mas que comandará em média apenas cerca de 30 funcionários, uma vez que o efectivo total do município é inferior a 500. Curiosa situação, pois no exército um grupo de 30 militares é um pelotão, geralmente comandado por um alferes. De forma que a diferença de vencimento deve resultar do facto de ser mais perigoso servir na autarquia do que nas forças armadas. E depois admiram-se que além de nos alcunharem de porcos, os europeus do norte se riam de nós? Com decisões destas em plena crise e com uma dívida global de 6,4 milhões de contos, muito tolerantes são eles!
