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segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Debate com um leitor


Pronto senhor Virgílio! Aqui temos o seu comentário de ontem, com o tratamento que merece. Vou procurar responder a todos os pontos que focou, de forma tão sucinta quanto possível. Por assim dizer em diálogo directo, posto que cada leitor pode ler em simultâneo o seu escrito e a minha contestação. Entende agora o que me levou a diferir a publicação?
Começo pela questão da cartilha, que o senhor bem sabe existir apenas na sua cabeça. Dado que nunca consenti que me manipulassem, acha que agora, já no último quartel da vida, ia mudar? De resto, ainda que, por mera questão de raciocínio, se considerasse haver algum argumentário oficial, daí não resultaria que todos os "chefões", como o senhor escreve, seriam branqueados. Se me fizer o favor de abandonar por momentos o seu estilo hiperbólico e os seus fantasmas, concordará decerto que nunca tentei desculpar nenhum dos nomes que cita, incluindo Miguel Relvas enquanto governante nacional. Ou estarei a ver mal?
Concordo inteiramente consigo no caso da Gualdim Pais e aproveito para esclarecer que, no caso do executivo camarário e da Assembleia Municipal, ocorre exactamente o mesmo. O presidente da câmara, os vereadores e os deputados municipais não têm qualquer dever de obediência para com o presidente da assembleia, tal como os sócios de qualquer colectividade. Obediência partidária? Mas a relativa maioria não era e é composta por um PSD e dois independentes?
Ultrapassando as suas considerações pessoais a meu respeito, permita-me apenas uma achega: nunca me considerei ou disse "cheio de mundo". Apenas que quando se tem mundo se vêem as coisas de outro modo e com outra mentalidade. Ou acha que ter atravessado dez vezes o muro de Berlim, por exemplo, não marca de forma decisiva um carácter?!?!
Afirma o senhor que não posso ou não devo "ter um discurso fanático que se socorre de tudo para defender o "seu Deus". Tem razão. Não posso, não devo nem tenho semelhante coisa ou algo parecido. O meu posicionamento procura ser apenas o de um cidadão aberto ao mundo, realista quanto possível, sem inimigos na política  ou fora dela e de bem com a vida. Que apenas gosta de analisar e debater as questões económicas e sociais com contraditores de outras tendências, tendo sempre em vista que em política não há posições éticas superiores e inferiores. É tudo equivalente em termos de figurino de governo. Os de esquerda são adversários dos da direita e vice-versa, sem que daí resultem ódios doentios ou questões pessoais. Apesar da tal inveja implícita, que é o grande motor das sociedades cristãs latinas, como bem analisou o filósofo René Girard, designadamente na sua obra "Coisas escondidas desde o início dos tempos". Segundo ele, nas sociedades latinas menos evoluídas, os cidadãos tendem a ser vítimas, por vezes sem disso se darem sequer conta, do "desejo mimético", atitude comportamental em que um cidadão só deseja determinado lugar, cargo ou bem, porque os outros também o querem ou já o têm.
Indo ao caso concreto que coloca, a minha alegada defesa de Miguel Relvas, que o senhor considera "meu Deus", vi ontem na RTP 1 INVICTUS, um filme baseado na vida de Nelson Mandela. Seria bom que o senhor Virgílio o visse quanto antes. Ficaria então decerto ciente de que um homem martirizado na prisão durante 25 anos pelo regime branco da África do Sul, uma vez eleito presidente da república sul-africana, procurou a colaboração dos brancos todos, mesmo dos implicados na feroz repressão anterior, em vez de aproveitar a ocasião para se vingar.
Sempre procurei e procuro ter um comportamento semelhante : os que na política não comungam das minhas ideias, nem por isso deixam de merecer a minha consideração e amizade. Caso tenham prevaricado, há polícias, juizes e tribunais para tratar desses casos, com julgamentos imparciais, penas adequadas e tratamento decente, pois não deixam de ser cidadãos com direitos, só porque delinquiram. Nas restantes situações, senhor Virgílio, quem sou eu para me armar em censor, juíz ou arauto da ética, da moral, ou dos alegados bons costumes?
Resta a sua alusão à carta de Francisco Oliveira Baptista, publicada no semanário EXPRESSO. Se não erro, trata-se de um conterrâneo, residente algures na zona de Lisboa, sócio maioritário da "Empresa Editora Cidade de Tomar". Assim sendo, o que o terá levado a preferir o periódico de Balsemão, em detrimento daquele de que é, por herança, principal accionista? Não terá sido para marcar claramente que se referia ao Relvas governante e não ao Relvas autarca? Que lhe parece, senhor Virgílio? A política tem por vezes destas surpresas.
Escreva sempre, se assim o entender, que a sua escrita tem mais qualidade que a sua análise psicológica e política. Na minha humilde opinião, bem entendido.