"Hicham trabalha "na sala", o que quer dizer que limpa as mesas e despeja os recipientes de detritos. Anda quase sempre a dormir em pé. Às vezes, também lhe acontece cobiçar as raparigas, através dos seus óculos bifocais. Chama-lhes "bombas atómicas", mas não tem coragem para as abordar. Diz que tem o CAP (Certificado de Aptidão Profissional), mas é mentira. Não tem diploma nenhum. Também gostava de poder deixar esta prisão aborrecida, sabendo muito bem que nunca o vai conseguir, por falta de meios. Por isso vai ficando por aqui, perdido na multidão de clientes, vigiado pelo olhar amigavelmente crítico do supervisor Alban, assistente do director.
Titular de um master em História de Arte, um estudante vai trabalhando as suas aulas de direito por correspondência, esperançado em conseguir vir a ser agente de leilões. "O ano passado lixei-me. Deixei-me dominar pelo trabalho no fast-food".
Rapidamente percebi que os clientes mais jovens são também quase sempre os menos educados. Querem tudo e já! Nas filas impacientam-se, chegando alguns a reclamar burgers grátis para os compensar do tempo perdido. E no entanto, nas noites de festa, vão-se eternizando na sala, chegando até a reencher disfarçadamente os copos de plástico de rhum e de sodas. Também me apercebi que nos fast-food só o serviço é que é rápido. Os clientes podem ficar horas à mesa. Telefonam, marcam encontros, vão-se embora, regressam, por vezes sem consumir. Numa das filas ouvi um diálogo entre dois adolescentes: "Que merda! Mas porque raio vem a gente sempre aqui? -Concerteza não estás com vontade de ir comer para a loja de crêpes?!"
A partir do grill, o meu posto de trabalho, observo os clientes através de uma fenda com apenas 10 centímetros, atrás das prateleiras de burgers. Jacques, um colosso negro, natural dos Camarões, adverte-me: "Aqueles são muçulmanos. Prepara uns burgers de peixe!" Consideram-me em geral um bom aluno. Apesar disso, uma destas noites, Nathalie, a supervisora, foi para mim um calvário. Como tive a infelicidade de picar o ponto às 18H32, resolveu que seria eu o bode expiatório daquela noite. "Cebola? Põe mais! Salada? T'ás a pôr demais!" E cá temos o terror das cozinhas, que resolveu ir buscar uma balança para pesar as folhas de alface a mais. Sentença: 25 gramas em vez de 17..."Só sabes é estragar!" Fico danado. Todas as noites, as tiras de bacon e de queijo que apenas perderam a validade vão para o lixo. Felizmente há o Jacques, para me acalmar: "Nada de pressas. Trabalha nas calmas. Andar depressa só no engate, e se a gaja valer a pena!" É fácil de dizer, mas a pressão é constante. Ainda assim encontrei uma astúcia para interromper a cadência infernal. Procuro conseguir obter a tarefa de compactagem dos contentores de lixo. Apesar do frio e do bolor, a cave consegue ser para mim quase um parque de recreio. O Rémi tem pouca sorte. A Nathalie, que resolveu embirrar com ele, acha-o demasiado lento. Esgotado, refila baixinho: "Não vou aguentar um ano! Mais uns mesezitos e calço os patins. Jimmy, a minha formadora, é da mesma opinião: "Não vou envelhecer por aqui. Já viste que nos falam como se fôssemos cães?". Há pouco tempo, ofereceram-lhe um lugar de directora. Recusou. Muita complicação. Vem dos arrabaldes de Paris e não vive de ilusões. Em França há muito que o ascensor social está quase sempre avariado. Na melhor da hipóteses, espera vir a ser empregado de mesa, num restaurante como deve ser. Com as gratificações, tem a certeza que irá conseguir "mais cash". Entre duas viradas de burgers, cada um de nós vai fazendo planos. Rémi garante que vai recomeçar a estudar, para conseguir um BTS (Diploma de Técnico Superior) de Hotelaria-restaurante. "O fast-food não tem categoria nenhuma. Mas é uma boa experiência!".
Para um primeiro contacto com o mundo do trabalho, temos de confessar que a indústria da comida rápida é como uma brutal primeira noite de sexo. Antoine, 19 anos, no 2º ano da faculdade de economia, vai abandonar o seu estágio à experiência. "Estou arrasado, disse-me ele durante uma pausa, enquanto mastigava o seu X-tra. Moralmente é mais difícil que os exames de admissão às grandes escolas!" O amigo dele, o Eric, um dos raros homens nas caixas, também está a pensar em dar o fora, mas por outras razões. Sempre bem barbeado, conforme exige o regulamento, é estudante na faculdade de letras, onde o consideram por isso uma espécie de menina virgem. No dia em que teve a coragem de aparecer no trabalho sem ter feito a barba de manhã, a directora obrigou-o a usar uma "gilette" de deitar fora e um creme de barbear de má qualidade. Resultado: cortou-se por toda a cara e teve de andar com pensos. E não é a sua eleição como empregado do mês, com a respectiva recompensa de 100 euros, que o vai compensar de tais "mesquinhices".
Finalmente, lá consegui ser gabado...no dia em que apresentei a minha demissão, após três semanas de martírio. "O Rémi, vou ver se não ficamos com ele... Mas tu, é outra coisa... Tens mais jeito", disse-me com ar tentador a Nathalie. Não faço caso. Insistência suplicante: "Tens mesmo a certeza que não queres ficar mais uns tempos connosco?" Afinal, a chefe autoritária e chata virou colega simpática. Rejubilo! No grill, agora que me vou embora e os deixo, os meus colegas cozinheiros estão com baixo astral. As baratas vão correndo pelo chão e pelas paredes, enquanto os ratos vão fazendo gincana entre os pés, no chão oleoso. Por todo o lado, folhas A4 plastificadas recordam o preceito "100% qualidade" da empresa. Aproveito para conversar com um rapaz com o qual nunca partilhei um turno. "Há quanto tempo é que trabalhas aqui?" Mostra-me as mãos cobertas de queimaduras. "T'ás a ver os meus ferimentos em combate? Já cá estou há muito tempo pá!... Tempo a mais!"
Sylvain Morvan, L'EXPRESS, 16/02/11, páginas 56-59
