Uma vez que é a União Europeia que vai pagando o essencial dos nossos devaneios, bem como algumas (raras) obras realmente úteis, pareceu-nos útil tentar informar os eleitores europeus (que somos todos nós, ainda que por vezes contrariados) sobre o modo como se vai fazendo política, "lá por cima" e em Bruxelas.
"Era o segredo mais bem guardado do reino. Mas foi violado. Glenys Kinnock, a nova ministra dos negócios estrangeiros de Inglaterra, nomeada por Gordon Brown após o escândalo das despesas dos senhores parlamentares, soltou-se e revelou que "o governo britânico proporá a candidatura de Tony Blair para a presidência da Europa". Foi até mais precisa perante o parlamento europeu, em Estrasburgo: "Estou certa de que o governo (mais precisamente Gordon Brown) não o apoiaria sem ter falado antes com ele".
O porta-voz de Blair foi lesto a desmentir, mas sem convicção -"Não pode haver candidatura enquanto a função não existir". Ninguém se deixou confundir. Assumindo a candidatura do ex-primeiro-ministro seu antecessor em nome da Inglaterra, Brown admite nitidamente a hipótese -plausível- da adopção final do Tratado de Lisboa pela Irlanda, no próximo referendo. Por conseguinte, o surgimento de um presidente da União, eleito pelos 27 Chefes de Estado e de governo, e capaz finalmente, como desejava Kissinger, de pegar no telefone e falar em nome da Europa.
Blair, presidente da Europa? O mais europeu dos britânicos, o inventor da "terceira via", padece como representante do Quarteto (USA, ONU, UE, RÚSSIA) para a paz no médio-oriente. Os resultados medíocres obtidos até agora, numa região onde não conseguiu acabar com a colonização judaica na Cisjordânia, como pretende Obama, explicam a sua vontade de mudança. Sem, todavia, legitimarem de forma incontestável a sua candidatura. Porque a Grande-Bretanha é o menos europeu dos 27 estados membros. E, em caso de vitória nas próximas legislativas, o conservador David Cameron prometeu um novo referendo sobre o tratado. Ainda assim, a candidatura anunciada de Tony Blair vai desencadear mais um jogo de "cadeiras musicais". Em troca do seu apoio (a Allemanha é contra), a França vai exigir compensações. Por exemplo a substituição de Durão Barroso, cuja recondução como presidente da Comissão parece cada vez mais problemática, por um candidato menos hiper-liberal. Ou, (em alternativa?) o apoio do governo inglês para as nomeações nas comissões que decidem realmente. Onde se faz e desfaz a política europeia".
Jean-Gabriel Fredet - NOUVEL OBS
Introdução, tradução e adaptação de A.R.
O negrito é da responsabilidade do tradutor.

