Foto O Templário, a quem agradecemos
António Rebelo
Vantagem episódica da sinceridade, da frontalidade e da equidade possível -tendo criticado sem dó nem piedade as políticas preconizadas ou consentidas por Miguel Relvas, a nivel local, posso agora expressar-lhe o meu apoio sem que alguém ouse, com um mínimo de lógica e/ou de bom-senso, vir acusar-me de estar a tentar dar-lhe lustro aos sapatos.
A verdade, temos de reconhecer, é que desde há muitos anos Relvas tem vindo a ser o nosso melhor parlamentar em Lisboa, por ser o único que lá temos tido. Dir-se-á que poderia ter sido muito melhor. Pois podia. Mas mesmo não sendo um tribuno de primeira água, já desmonstrou na prática ser um óptimo diplomata de corredor e de mesa. Que são afinal os locais onde as coisas realmente se decidem. E o nosso concelho ganhou com isso. Obrigado portanto, que o IC3 é muito prático.
Agora vítima de uma sucessão de decisões lamentáveis a nível nacional -falta de respeito pelas bases, argumentação falaciosa, caça ao homem -parece-me inteiramente justo estar solidário com ele. Até porque Ferreira Leite, ao não respeitar nem a verdade ("a sua actuação não correspondeu ao que dele se esperava"), nem a elegância política (Desde Luis XIV que todos os políticos minimamente hábeis nunca esquecem que, perante tentativas de revolta dos senhores feudais, não convém combatê-los, mas sim integrá-los na corte), colocou-se numa situação bastante desconfortável. Ainda que consiga vencer por larga margem as legislativas e as autárquicas, o que não está garantido nem lá perto, ainda assim continuará a ter contra a sua liderança militantes bastante influentes e da geração seguinte, entre os quais avultam Relvas e Passos Coelho. Se, pelo contrário, perder as legislativas ou for obrigada a fazer coligações, o PSD vai-se esfrangalhar ainda mais, com a maioria dos militantes a marcar terreno para o que virá a seguir.
Muito habilmente, Miguel Relvas soube mostrar-se conformado, tendo até aproveitado para declarar que continuará como coordenador autárquico do distrito e, naturalmente, que votará PSD, como sempre tem feito até aqui. Foi, no meu entender, uma excelente jogada, daquelas de se lhe tirar o chapéu, feita por quem sabe muito bem que a sua hora não tardará.
Entretanto, a nível local, as coisas não lhe correm de feição, como aliás vem acontecendo desde antes da renúncia de António Paiva, essencialmente devido à falta de um programa vinculativo sufragado pelo eleitorado, e agora também de uma evidente falta de liderança. Que não tem dado piores resultados devido à manifesta inépcia da oposição, igualmente desorientada face aos novos tempos, para os quais ninguém parece ter soluções adequadas. O nosso futuro é negro, se nada de realista e eficaz for feito logo no início do próximo mandato. E se o PSD perder a autarquia, restará a Miguel Relvas, como a opção menos má, arrumar as botas e aguardar melhores tempos a nível nacional. Ou ir para o Brasil, gozar a confortável reforma parlamentar entretanto conseguida. É a vida...