Como sempre demasiado crédulo, na natural bondade, na honestidade e na sinceridade dos homens. Sobretudo quando se afirmam sinceros defensores da coisa pública e incansáveis trabalhadores em prol do progresso. Ou, visto de outro modo, mais uma viagem à senhora da asneira. Explicando.
Aqui há uns quatro ou cinco anos (como o tempo passa!), tendo lido e ouvido falar numa ida ao Convento através da antiga Cerca, de uma plêiade de tomarenses, liderados pelo então presidente António Paiva, embora não convidado, lá foi reconhecer o terreno na véspera. Pensei que para tão ilustre grupo tudo teria sido devidamente limpo e arranjado. Estava enganado. Arranhei-me todo, mas depois da visita, tendente a preparar a empreitada de requalificação do acesso pedonal ao Convento através da Mata, considerei-me ressarcido - posteriormente, não houve nenhum participante na aventura paivina que não me tenha dito o pior da iniciativa. Até fundadores do PSD local...



Passaram os anos, mudou a presidência, veio a crise que aí está, para medrar e durar. Começaram as obras da estranha empreitada da Mata que (há acasos curiosos!) foram adjudicadas por um duo de empresas: a Vedap, especialista em vedações e jardins, em parceria com a Aquino SA, cujo responsável operacional é... António Paiva, o anterior presidente da câmara de Tomar e "pai" do dito projecto.
O vereador da cultura e do turismo, Luís Ferreira, decidiu apadrinhar a comemoração do cerco ao Castelo, em 1190, cujo principal episódio (ao que se diz, mas carece de qualquer fundamento sério), ocorreu na Porta da Almedina, desde então popularmente designada por Porta do Sangue.
Pensei para comigo -Desta é que foi! Devem ter procedido à limpeza e ao alindamento de tudo aquilo, de forma a não desencorajar futuros passeios do mesmo tipo. E lá fui, cheio de esperança, convicto de que finalmente as coisas estavam mesmo a mudar.
Aquele agradável e longo túnel de arvoredo, antes tão carecido de limpeza e agora já como melhor aspecto, mesmo que sem grande qualidade nos detalhes, impeliu-me em direcção à Charolinha.
Fiquei encantado! Tinham finalmente cuidado daquela circular edícula renascença, única no país. Abençoados sejam! E zarpei alvoraçado, rumo à Porta da Almedina, que julgava eu, pobre ingénuo, iria rever finalmente como no tempo do jardineiro Matos, nos idos de 60 do século passado. Quando tanto os jardineiros como os guardas do convento auferiam mensalmente a soma fabulosa de 640 escudos = 3,20 euros.
Foi a completa desilusão! Continua tudo ao abandono, conforme documentam as fotografias. Muito pior do que nas savanas africanas, porque o raio das silvas arranham que se fartam. E não se consegue ver nada de jeito. Nem sequer a única cruz tutelar templária conhecida em Portugal.
De regresso a casa, tive de calcorrear o tapete de pó em que as obras (que estão paradas, vá-se lá saber porquê...) transformaram a antiga via de acesso à Almedina. Quando cheguei, disseram-me que mais parecia um peregrino do século XII, ao chegar a Santiago, com a parte inferior das calças, os sapatos e as meias, tudo cor da terra.
Aqui fica o aviso aos incautos. Se tencionam participar na brincadeira (com o devido respeito pelo Mestre Jana e por todos os que, de boa mente, apenas pretendem o melhor para Tomar), do próximo domingo, dia 11, a partir das 10 da manhã, já sabem: garrafinha de água, cajado ou bengala para afastar a vegetação, sandálias com meias espessas, calças resistentes e camisa de mangas compridas, por causa das arranhadelas. Muita pachorra e coragem para dizer a quem de direito que assim não. As coisas ou se fazem com qualidade, ou vale mais estar quieto. Fica mais barato e não desilude ninguém. Assim como assim, até já começamos a estar habituados.
António Rebelo

























