
O palácio de Oiron-Deux Sèvres-França, jóia do renascimento, foi revitalizado como museu de arte contemporânea
Com a persistência da crise, é chegada a hora de procurar rentabilidade por todo o lado. Nem os monumentos históricos pertencentes ao Estado escapam. Para aumentar o número de visitantes e, sobretudo, as receitas, o governo francês encara a hipótese de fornecer cama e mesa em palácios multi-seculares, fortalezas ou abadias, à maneira dos Paradores, rede espanhola de hotelaria pública, criada em 1928.
O projecto de reconversão avança desde a assinatura, em 6 de Novembro de 2009, pelo ministro da cultura, Frédéric Mitterrand, e Henri Novelli, secretário de estado do comércio e do turismo, da convenção-quadro "Cultura e turismo", que permite a actividade económica "razoável e respeitadora" das jóias classificadas do património estatal gaulês.
Os vinte monumentos potencialmente escolhidos para hotéis, cujo impacto é mais perigoso do que o dos restaurantes, previstos para treze locais históricos, estão a ser objecto de um estudo específico, encomendado pelo Centro dos Monumentos Nacionais (equivalente ao IGESPAR+Monumentos Nacionais+Direcções Regionais de Cultura) à "Atout France", Agência Nacional de Desenvolvimento Turístico (empresa pública). O Centro dos Monumentos Nacionais tem a seu cargo a manutenção, o restauro e a exploração turística de cem monumentos franceses, visitados em 2008 por 8,5 milhões de pessoas. Pouca coisa, realmente, quando comparado com os 5 milhões de entradas pagas só no Palácio de Versalhes, e ainda por cima conseguido sobretudo graças aos 6 líderes nacionais, que representam 66% das receitas globais: Arco do Triunfo (um milhão e meio de entradas), Mont S. Michel, Basílica de S. Denis, Panteão Nacional, Cintura de Muralhas de Carcassonne e Notre-Dame de Paris.
A maioria dos monumentos geridos pelo Estado consegue menos de 20 mil visitantes anuais. Os menos rentáveis não chegam sequer aos 1o mil, ou mesmo aos 5 mil, como por exemplo Gramont, belo palácio renascença, Assier, um palácio classificado desde 1841, ou Chareil-Cintrat (1.6oo visitantes em 2008), encantador palácio renascença, conhecido pelos seus quadros.
Demasiado frágeis para acolher visitantes, alguns edifícos classificados nunca chegaram sequer a abrir as portas ao público. É o caso de Jossigny, a menos de 300 quilómetros de Paris, jóia arquitectónica do século XVIII, doado ao Estado em 1950, com os terrenos circundantes, e pilhado em sucessivos roubos por arrombamento. Outros monumentso ainda, continuam fechados para obras de restauro, ninguémn sabe até quando.
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A estes palácios pouco frequentados, em relação aos quais o Estado nem sabe, muitas vezes, o que há-de fazer, mas que foram seleccionados pelo Centro dos Monumentos Nacionais, e cujos responsáveis não consultados foram informados por correspondência há pouco tempo, há que adicionar as abadias e os antigos quartéis agora devolutos, cujas instalações são mais adequadas para implantações hoteleiras. Ainda assim, está fora de questão dificultar o normal acesso dos visitantes aos espaços com interesse turístico.
É sabido que a protecção do património e as complexas normas da hotelaria nunca emparelham com facilidade. A este óbice, que é dificilmente ultrapassável, devido às próprias servidões dos monumentos, convém juntar as exigências de rentabilidade dos potenciais investimentos. Como sublinha Christian Mantei, director geral adjunto de Atout France, a quem foi confiado o estudo exploratório, "o essencial dos investimentos hoteleiros é agora aplicado nas cidades. As pessoas que estão convencidas de que vão ganhar fortunas à custa do património à guarda do Estado, estão redondamente enganadas."
Efectuar um diagnóstico económico da região, dos seus recursos, do seu potencial turístico, da sua atractividade, dos acessos, da concorrência, eis a primeira étapa do estudo de Atout France. (Exactamente como se faz em Tomar, não é verdade ? - Pergunta do tradutor.) "O mercado evoluiu. Os visitantes procuram os monumentos tal como sempre foram. Não podemos descambar para a ostentação", afirma o senhor Mantei, que pretende privilegiar dinâmicas locais em vez de grupos hoteleiros. Serge Louvau, ex-secretário geral do Museu do Louvre, acrescenta que "um monumento que não corresponde a uma necessidade social nunca terá viabilidade económica."
Florence Evin - Le Monde
Tradução e adaptação de António Rebelo (Esta versão em português é apenas a parte que pareceu mais importante do texto original.)
