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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

MAIS PATRIMÓNIO AO DEUS DARÁ...

Há quem nos escreva a cuidar que nos insulta, quando na verdade está apenas a insultar a inteligência e, acessoriamente, a maltratar a língua pátria. Por isso, recusamos publicar tais bostas. Quando tiverem a coragem de usar um estilo convivial, teremos todo o gosto em debater. Outros alegam que os Pegões são secundários, que importante mesmo é o Convento de Cristo, Património da Humanidade. Vamos então à imponente ex-Casa da Ordem de Cristo. A foto mostra o estado de limpeza e de conservação em que se encontra a Sala do Capítulo Incompleta, à ilharga do Claustro Principal. Dado que toda a parte da ábside, cujo sector superior se vê na ilustração, está reforçada com uma cinta metálica, colocada há mais de 60 anos, e que agora se encontra gravemente corroída pela ferrugem, não nos admiraria nada que, mais mês menos mês, mais ano menos ano, aconteça uma derrocada, e adeus ábside. É claro que os técnicos da tutela continuam despreocupados. Uns nem sequer conhecem o local. Outros nada sabem sobre a tal cinta metálica de reforço. Um terceiro grupo enfim, que integra elementos dois dois anteriores, só aparece no Convento de oito em oito dias, para ver em que param as modas. E, ao que consta, há até quem só apareça à quinzena ou mensalmente, pois tem compromissos laborais para as bandas da Beira Alta. Nestas condições, quem se surpreende ainda com o estado de evidente desmazelo em que se encontram alguns sectores do monumento ?
É a função pública que vamos tendo, no que concerne a quadros superiores.


Como uma desgraça nunca vem só, ou os cadernos de encargos são mal elaborados, ou não há fiscalização eficaz, ou as empresas contratadas poderão ser ultra competentes mas não são minimamnente eficazes, ou tudo isto, em proporções variáveis. Certo é que zonas do Convento já intervencionadas, e ainda no prazo de garantia, que é de cinco anos, mostram que as obras não foram executadas de forma a resolver os problemas antes existentes. Aqui, num sector que dá para o terraço do Claustro Principal, nota-se que no final da intervenção ficou tudo muito limpinho, muito "clean", muito bem pintadinho, mas as infiltrações continuam. O que significa que, mais ano menos ano, vai ser necessário abrir novo concurso, ou proceder a novo ajuste directo, para reparar a peso de ouro aquilo que já devia ter sido solucionado na primeira empreitada.




Outro tanto acontece na ala sul do Claustro da Micha, na fachada norte da Cozinha Conventual. Também a cantaria foi toda muito bem limpinha, (naturalmente sem recurso a decapantes químicos nem a jacto de areia), reparou-se o terraço, rebocou-se onde se mostrou necessário, e pintou-se ou caiou-se. Recebeu-se a respectiva maquia e o resultado prático está agora à vista de qualquer visitante. As infiltrações que havia, são exactamente as que há. Cabe por isso perguntar: Qual foi afinal a utilidade prática da intervenção ? Unicaente para proporcionar lucros consideráveis à sociedade contratada ?
E não adiantará vir outra vez para aqui com a estafada argumentação de que no blogue é tudo uma cambada de ignorantes em matéria de património, de história, de conservação e restauro, de gestão turística de monumentos, e mais do que quiserem. Já cansa e mostra a inépcia de simpáticos cidadãos, que até se julgam especialistas de alguma coisa. Permite, igualmente, um confronto caricato entre os que só usam o rebéubéu e os que, como nós, fundamentam e ilustram tudo aquilo que vão escrevendo. Para que não haja dúvidas !
Nesta questão das obras de limpeza/lavagem, quando nos lembramos de que aquela desgraça da Ermida da Conceição, em que um telhado verde virou vermelho, as arestas foram à vida e o impermeabilizante está a escorrer pelas paredes abaixo, custou ao orçamento de estado cerca de dois milhões de euros, quando 100 já teriam permitido um bom lucro, de acordo com empreiteiros por nós contactados, até ficamos sem vontade nenhuma de pagar impostos. Porque ninguém gosta de engordar gulosos em excesso...


sábado, 9 de janeiro de 2010

ALTERADO ECO-SISTEMA DA MATA

Conduta para levar a água do aqueduto até ao tanque junto à Torre de Dª Catarina



Nascente antes abastecida pelas águas provenientes do laranjal, que agora seca logo no início da Primavera

Tanque da Horta dos Frades, o mais pequeno da Mata, vazio desde que o aqueduto deixou de trazer água

Aquilo que até aos anos 80 do século passado foi um engenhoso e muito útil processo de rega por gravidade, deixou de funcionar por manifesto desmazelo, quando o Seminário das Missões, que ocupava parte do Convento de Cristo, foi indemnizado e saiu. Como era o pessoal do Seminário que assegurava a manutenção e a fiscalização do aqueduto dos Pegões, porque dele precisava para regar, a partir de então foi o descalabro total.
Com início no tanque da Cadeira d'El-rei, que marca a sua entrada na antiga cerca, o sistema implementado em princípios do século XVII abastecia não só os lavatórios do Cruzeiro e do Claustro Principal, mas igualmente a cozinha, a Sacristia Nova, a fonte ornamental do referido claustro, o chouso, o laranjal, a bica do actual jardim da Porta do Sol, indo terminar no tanque junto à Torre de Dª Catarina. A partir daqui, dada a constante rega do laranjal, ia alimentar por infiltração a nascente situada mais abaixo, (com uma curiosa abertura que muitos acharão parecida com determinada zona anatómica feminina), depois o tanque da Horta dos Frades, a referida horta e finalmente o Ribeiro dos Sete Montes e o curso do Nabão.
Além deste percurso complexo, havia um outro entre o tanque da Cadeira d'El-rei, o tanque grande, a antiga horta e o Ribeiro dos Sete Montes. Actualmente, exceptuando a nascente da Charolinha e a episódica nascente acima referida, graças à abundante pluviosidade do presente Inverno, tudo o resto deixou de funcionar, precisando agora de adequadas reparações, antes de voltar a ter a sua antiga e manifesta utilidade. Até os tanques se têm mantido vazios durante o Verão, se calhar porque será mais barato, em caso de incêndio, usar água da rede e helicópteros a trazerem-na do rio. Ou estaremos enganados ? Há por aí tantas opções estranhas que uma pessoa já nem sabe...

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

LAVATÓRIO TIPO MULTIBANCO

Na noite de ano novo publicou-se neste espaço um quebra-cabeças com três fotos, de outros tantos motivos tomarenses. Certamente devido à natural euforia daquela noite, ninguém pareceu muito interessado na questão. Antes assim. É sinal de que vão tendo vidas felizes e bastante ocupadas. Em todo caso, pedimos licença para insistir a propósito desta foto. Trata-se do lavatório manuelino da sala do capítulo do Convento de Cristo. Sim ! E depois ?, indagarão os habituais cépticos.



E depois trata-se de um lavatório à portuguesa, ou lavatório tipo máquina multibanco. Dado que na altura, e ainda durante mais um século, não havia água corrente no convento, uma vez que o aqueduto dos Pegões é de 1613, quando os senhores comendadores da Ordem de Cristo, de longe a mais rica do país, pretendiam lavar as mãos ou beber água (o que era bem raro), dirigiam-se a este lavatório. A curiosidade reside no tipo de abastecimento, que não era nenhuma nascente, mas apenas a água previamente despejada pela criadagem na cavidade um pouco acima, do lado direito. Exactamente como nas máquinas multibanco -para sair dinheiro pela frente, alguém tem de previamente alimentar a máquina pelo outro lado. Os senhores autarcas, os senhores técnicos superiores e dirigentes de colectividades, não perderiam nada se meditassem um pouco neste exemplo. Sobretudo numa época em que há cada vez mais eleitores cansados de despejar água para que outros possam beber ou nela lavar as mãos. Como Pilatos ?


segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

OUTRAS ÉPOCAS, REALIDADE E FANTASIA


Está a ver ?! Não lhe serviu de nada a artimanha de, em simultâneo, usar o anonimato e comentar só agora um post que já está no arquivo do blogue. ( Ver "Monumentos e obras", 3, 2 e 1)
Normalmente nem lhe responderíamos, posto que "a palavras loucas, orelhas moucas". Contudo, como estamos em época natalícia e nunca é tarde para aprender, tanto para si, como para nós e para os restantes leitores, aqui vai o que se nos oferece, para já, dizer sobre o assunto.
Dado o estilo nitidamente crispado e de donzela ofendida do seu comentário, e como ignoramos se é cavalheiro ou dama, vamos usar Vossa Mercê. Esperamos que não se moleste com tão pouco. Pois afirma Vossa Mercê que tem de chegar à conclusão... Tem toda a razão ! Cada qual chega às conclusões que pode e, em raríssimos casos, às que quer. Estamos num país aberto, o que lhe permite escrever publicamente o que entender. Se fosse aqui há 36 anos atrás, já era diferente. Teria de falar para dentro, para evitar problemas. Essa época felizmente acabou, mas há ainda muitas cabeças assim formatadas. A sua, por exemplo. Porque essa do "Garantidamente se fosse eu a realizar o trabalho a que se refere, processava-o." Mais aqueloutra "talvez o IGESPAR precise de investigar", são do mais ignorante e pidesco jamais escrito neste blogue. Absolutamente reprovável e a roçar o ridículo, para usar os seus próprios termos. Como passamos a demonstrar.
Sobre o "processava-o", Vossa Mercê está só a alardear basófia, prosápia e possibilidades que não tem. Do tipo "segurem-me, senão faça uma desgraça". Na verdade, processava quem e porquê ? Por invasão de propriedade privada ? Não podia porque o Convento de Cristo é um espaço público. Por ter visitado uma zona privada, reservada ou vedada "a pessoas estranhas ao serviço" ? Também não podia, em virtude dos direitos constitucionais de qualquer cidadão. Assim: "Artigo 37º - 1 - Todos têm o direito de exprimir e divulgar livremente o seu pensamento pela palavra, pela imagem ou por qualquer outro meio, bem como o direito de informar, de se informar e de ser informado, sem impedimentos nem discriminações. 2 - O exercício destes direitos não pode ser impedido ou limitado, por qualquer tipo ou forma de censura." Assim sendo, quem é que lhe aceitaria semelhante queixa ? Está a sugerir que os advogados e os magistrados ignoram as leis em que vivem, designadamente a primeira delas todas -a Constituição ? Vai certamente murmurar que não concorda com a Constituição, por mais isto, mais aquilo e mais aqueloutro. Está, mais uma vez, no seu direito. Mas enquanto estiver em vigor, é obrigado a cumpri-la, quer queira, quer não.
Resta a alusão ao IGESPAR. Contrariamente ao que afirma, o IGESPAR não precisa de investigar. Precisa, isso sim, é de estar à altura das missões que lhe estão confiadas, o que até agora tem estado longe de acontecer, designadamente na área turística operacional de cada monumento, mas não só.
Concluindo -estão a tentar mexer-lhe na carteira e disso ninguém gosta, não é verdade ? Pois vá-se habituando que a época de ouro está no fim e a partir de agora, quanto mais para frente pior. Não há bem que sempre dure, nem há mal que não se acabe. Ou vice-versa. Depende da situação de cada um em cada momento.

Tenha um bom Natal e um feliz Ano Novo. E procure não se exaltar! Olhe o coração !

ORA ATÉ QUE ENFIM !!!

Ora até que enfim que uma leitora teve a coragem de "dar a cara" e escrever-nos o que lhe vai na alma. Com assinatura e tudo. Bem haja, simpática leitora licenciada. Pode crer que não é nada fácil, para quem escreve por gosto, ter por vezes a impressão de que anda a falar aos peixinhos, como o meu homónimo de Lisboa e Pádua.
Dirão as habituais Cassandras que o estilo não é o melhor, nem honra propriamente o estabelecimento que a formou. Haja paciência ! Roma e Pavia não se fizeram num dia. É pela prática do debate sereno que havemos de chegar a uma certa qualidade, mas isso leva tempo, sobretudo numa terra onde o pessoal continua a fazer gala em ostentar aquele ar monacal, que mostra todo um programa de vida. Mas vamos ao essencial, que se faz tarde, e nem todos têm vagar para estas divagações. Sobretudo nas repartições públicas onde, como é sabido, salvo raras excepções, o trabalho aperta e impõe ritmos de vida frenéticos. Adiante, pois !
O outro dizia "Sou ateu graças a Deus". Não irei tão longe, admitindo todavia que desde há muito me considero ignorante. Chego até ao ponto de acreditar que quanto mais aprendo menos sei, já a leitora pode ver ! Então em matéria de restauro nem se fala ! Não pesco mesmo nada do assunto ! Tenho porém olhos na cara, amigos que são também licenciados (um até pelo mesmo estabelecimento de ensino que a simpática leitora), bem como uma cabeça que julgo funcionar menos mal. Nestas condições, cuido não pertencer ao grupo imenso dos menos artilhados para contestar, protestar, explicar, debater questões de cidadania, sejam elas quais forem e doam a quem doerem. Quem anda à chuva molha-se e nas sociedades abertas, como a nossa, a pluviosidade é permanente, por vezes cá com cada bátega !
Nesta questão dos monumentos, da Janela do Capítulo, das limpezas, dos restauros e das lavagens, o que me angustia é aquilo a que a senhora não responde -Se temos assim tantos especialistas credenciados, tantos técnicos de gabarito, tanta gente competente e com larga experiência nessa área, porque é que aconteceram já tantos desastres (Jerónimos, Torre de Belém, Convento de Jesus, Ermida da Conceição, Exterior do Corredor do Cruzeiro, etc.) com estragos irreparáveis ??? Dizer que as coisas correram mal (ou não correram bem) não esclarece peva. E a sua resposta infelizmente também não.
É costume dizer-se em linguagem popular -e portanto não universitária, que horror- "Não há pior cego do que aquele que não quer ver". Na incrível obstinação em relação à limpeza do símbolo maior de Tomar -cuja necessidade ainda está por demonstrar- parece-me haver algum factor que subjuga tudo e todos, que por enquanto ainda não consegui identificar cabalmente. Mas continuarei a envidar todos os esforços para lá chegar. Para obstinados, obstinado e meio.
Aceite os meus agradecimentos pela sua amável resposta ASSINADA, muito mais eloquente do que à partida possa ter pensado (já terá ouvido falar certamente em "carne para canhão", quando nos referimos aos soldados que são mandados para a frente de batalha, mal treinados e mal equipados, só para entreter o inimigo e tentar ganhar tempo...).
Saudações Cordiais e votos de Bom Natal e Feliz ano Novo,

António Rebelo

domingo, 20 de dezembro de 2009

JANELAS COM VIDROS FOSCOS

Reitero de boa vontade o já aqui escrito anteriormente -tenho por Hugo Cristóvão amizade, admiração e respeito. Julgo-o um jovem político muito bem intencionado, realmente preocupado com a prossecução do bem comum. Considero-o, junto com Luís Ferreira e pouco mais, uma esperança do PS tomarense para os anos mais próximos, caso venham a ter coragem para sair atempadamente do atoleiro em que se atascaram, ao celebrarem um acordo invertebrado, sem objectivos nem rumo, para além das lentilhas, do protagonismo e do imediatismo. Não fora assim e nem escreveria uma frase-resposta, quanto mais um texto.
A ilustração acima mostra a posição de Hugo Cristóvão sobre o caso da limpeza da Janela, no seu blogue "Algures aqui". Se quisesse ser cruel, usaria como título desta peça uma interrogação assassina: O poder cega ?
Não o faço pelo exposto anteriormente, mas parece-me que é disso mesmo que se trata. Vejamos.
Cristóvão louva O Templário por ter apurado os factos referentes ao restauro do Convento e à limpeza da Janela, junto das entidades competentes, "ao fim da terceira semana de notícias". Está no seu direito e na verdade O Templário merece o elogio porque produziu uma bela peça noticiosa. Cumpre, porém, para melhor entendimento dos leitores que sabem realmente ler, formular algumas perguntas. Tem a certeza de que sem as "notícias" anteriores e sem o apelo SALVAR A JANELA DO CAPÍTULO, que José Gaio subscreveu, (mas o Cristóvão não), o assunto teria ocupado duas páginas inteiras do referido semanário ? Conhece algum outro caso em que o IGESPAR tenha facultado, directamente e por intermédio da directora do monumento, explicações públicas sobre obras em curso ou a iniciar ? As "notícias" anteriores a que se refere entre aspas, se outro mérito não tiveram, contribuiram pelo menos para esclarecer os tomarenses em dois aspectos importantes: A - Mostraram que, quando devidamente constrangidas no âmbito da mais estrita legalidade, mesmo as entidades com características autistas e altaneiras condescendem em responder aos eleitores inquietos. Defendem os seus pontos de vista ? Claro que sim. Nem outra coisa era de esperar. B - Mostraram igualmente, e sobretudo, que nos casos melindrosos envolvendo organismos governamentais, os tomarenses não podem contar com a actual maioria autárquica, nem com as várias capelinhas dependentes do Orçamento. É pouco ? Veremos, com o tempo...2013 é já ali adiante e o actual mandato já se encaminha para um enterro de luxo.
Resta a posição do ilustre deputado municipal, que noutras circunstâncias poderia ter vindo a ser presidente do órgão fiscalizador local.
Acha que a Janela precisa de ser limpa. Está no seu pleno direito. Todavia, se fundamentasse devidamente tal ponto de vista, talvez não fosse pior. Trata-se afinal de um dirigente político que ocupa dois cargos para os quais foi eleito, mas igualmente de um docente numa área que tem muito a ver com o património...
E depois, a questão não está em limpar ou não limpar a Janela. Trata-se de definir antes, e de forma detalhada, aquilo que se entende por limpeza. Todos concordarão que devem ser removidos os detritos, as ervas e os excrementos das aves, não só agora mas de forma periódica. O problema aparece quando se fala em remover também, "soit disant" por escovagem, os musgos, os líquenes e por aí fora. Coisa que, tanto quanto se sabe, nunca ninguém ousou fazer nos quinhentos anos que já conta aquela construção manuelina, e que comporta riscos elevadíssimos de vir a causar estragos irremediáveis, na opinião de muitos, incluindo pelo menos um especialista em restauro e manutenção de pedra.
" Mas há muito quem saiba. E sobre questões técnicas deve decidir quem tem obrigação de saber -os técnicos."
A verdade é como o azeite na água; por muito que a tentem diluir, acaba sempre por vir à superfície. Há então, na opinião de Cristóvão, "muito quem saiba". A ser realmente assim, onde estavam e o que fizeram quando por limpeza degradaram gravemente uma série de monumentos, entre os quais os Jerónimos e a nossa Ermida da Conceição, conforme já foi documentado nas tais "notícias" ? As coisas não correram bem ? E porquê ? Quais foram as consequências legais dos estragos causados ? Alguém foi responsabilizado ?
Resta a alusão a "quem tem obrigação de saber -os técnicos". Realmente o Cristóvão, manifestamente sem querer, colocou o dedo na ferida. Eles lá terem obrigação de saber, em virtude dos diplomas e da experiência que detêm ou dizem deter, não há dúvida que têm. O pior é que os factos não mentem -eles realmente não sabem nem se mostram capazes de aprender. Só assim se explica que cometam, ou deixem cometer, de forma sistemática, os mesmos erros. Jerónimos, Torre de Belém, Mafra, Senhora da Conceição, exterior do Corredor do Cruzeiro e parte da fachada sul do Convento de Cristo -a lista dos disparates, das "obras que correram mal", apesar de pagas a peso de ouro, começa a ser demasiado longa.
No caso da Janela do Capítulo, a situação é infinitamente mais delicada. Nunca ninguém a limpou profundamente. Nunca ninguém trabalhou em ornatos tão complexos, tão frágeis e tão desconhecidos em termos de natureza do calcário em que foram lavrados. Nestas circunstâncias, vir com a velha história de que só os técnicos é que sabem e só eles é que são competentes, não passa de relambório de ocasião para tentar intrujar uns e intimidar outros. No fim de contas, o apelo supracitado congregou engenheiros civis, engenheiros químicos, farmacêuticos, técnicos de restauro, gestores, empresários, professores, médicos, etc. etc. Tudo ignorantes ? Tudo palonços ? E os que defendem a aludida limpeza ? Tudo gente tecnicamente competente ? Inteligente ? Empenhada realmente na salvaguarda do património ?
Cá por mim, que não sou técnico nem nunca pretendi ou disse ser, volto a repetir que me parece extremamente suspeita a insistência obstinada na limpeza da Janela e da restante construção manuelina, quando há no Convento coisas muitos mais carecidas de reparação urgente. Mas neste país já nada me admira. Com os problemas económicos e sociais gravíssimos que são cada vez mais numerosos e sem solução à vista, os senhores deputados da Assembleia da República resolveram discutir e votar favoravelmente o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Dado que temos o mais baixo índice de natalidade dos 27, era mesmo o que estava a fazer falta. E depois lastimam-se que os cidadãos se vão progressivamente alheando da política. Com eleitos assim...

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

CONVENTO DE CRISTO: ALELUIA !!!





Aleluia ! Aleluia ! Aleluia ! Pela primeira vez desde a sua criação, 35 anos após o 25 de Abril, o IGESPAR dignou-se descer do pedestal onde julga estar e dar explicações aos contribuintes tomarenses. Só para isto já valeu a pena o apelo "SALVAR A JANELA DO CAPÍTULO". Mário Soares viu bem a seu tempo -os eleitores têm direito à indignação. E devem usá-lo !
Perante tal gesto de boa vontade, ainda que constrangida, respondemos da mesma forma. Assim: Apesar dos vários erros, o IGESPAR também tem feito e mandado fazer muita coisa de forma correcta. Os telhados e o restauro da Charola, por exemplo. Em termos de conservação, o Convento está hoje melhor do que logo a seguir ao 25 de Abril. Agravou-se e subsiste o problema da gestão operacional turística, mas lá chegaremos, que o tempo não pára. Quanto aos fracassos, só não erra quem não ousa fazer. É próprio da espécie humana aprender com os seus erros. Só aparecem problemas, como neste caso da Janela, quando tal não sucede.
Sobre as referidas explicações, tanto directas como por intermédio da senhora directora do monumento, já foi dito ontem não estar em causa a probidade de Iria Caetano. Apenas o nítido atabalhoamento de alguns sectores do organismo que a tutela. Fica para outra ocasião.
Indo ao tutano da questão, parece-nos muito alarmante a diferença de preços entre a consolidação das pequenas abóbadas renascença do r/c da Hospedaria -99.240 euros- e a limpeza do exterior da nave manuelina -76.104 euros. Ou há um lapso e este montante refere-se apenas ao custo dos testes actualmente em curso; ou há fundadas razões para duvidar desde já da qualidade do trabalho a efectuar. Milagres só em Fátima, e é quando é !
Ainda de acordo com o documento do IGESPAR, parcialmente citado no TEMPLÁRIO desta semana, a limpeza da Janela, da Fachada e da Nave deve estar concluída até Fevereiro de 2010. Dado que a limpeza da fachada da Catedral de Nôtre-Dame, em Paris, bastante mais simples que a fachada poente manuelina do nosso Convento, durou cerca de dois anos e meio, os dois meses e meio que faltam para Fevereiro são um período ridículo para tão complexo trabalho. Para mais, informa o IGESPAR que TUDO AQUILO SERÁ LIMPO POR ESCOVAGEM MANUAL, sendo aplicados dois produtos químicos -um para conservar a pedra, outro para matar a vegetação criptogâmica. Um herbicida a que n0 caso chamam um biocida. Naturalmente ignoram-se os efeitos a médio e longo prazo de ambos sobre as pedras, mas já há uma certeza: Pelo menos enquanto o dito biocida estiver activo, adeus pombos e outras aves livres. Os herbicidas não perdoam...
Perante tais dúvidas, vamos requerer ao IGESPAR, ao abrigo do direito à informação, a consulta do caderno de encargos das obras previstas para o coro manuelino e do alegado "relatório técnico-científico do LNEC, aconselhando o recurso ao método utilizado que não põe em causa a resistência da pedra." Mesmo com a aplicação dos dois produtos químicos, cuja composição se desconhece ? É o que tentaremos saber.
Registo igualmente para esta magnífica prosa, convenhamos que com algo de prosápia: "A remoção dos líquenes não retirará a patine das paredes. A imagem será diferente da actual, mas sempre acusando a passagem do tempo." Está bem escrito, não está ? Mas será verdade ?
Face a uma afirmação destas, duas reacções imediatas, uma interrogativa, outra chocarreira. A interrogativa: Quem pode garantir semelhante coisa antes de concluída a obra ? A chocarreira: Teremos então a Janela e as fachadas manuelinas (Portal da Virgem incuído ?!) na mesma situação daquelas senhoras de meia idade já muito avançada, com o rosto alisado por "lifting" (pele esticada) e muito "fond de teint", mas com a mesma data de nascimento no bilhete de identidade. A Janela estilo Lili Caneças, em suma. (Com o devido respeito, naturalmente !).
Uma inocente pergunta final -Porquê tanta fixação, tanta obstinação, tanta obcecação, tanta preocupação com a Janela ? Há no Convento zonas muito mais carenciadas, porcas e vergonhosas. Estas paredes, por exemplo (ver fotos acima), que já deviam ter sido limpas e caiadas há mais de vinte anos. Bem mais !
Haja pachorra !

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

A CHAROLA E O RELÓGIO, ANTES E DEPOIS

Antes de 1937, a Charola do Convento de Cristo tinha este aspecto exterior, aqui numa fotografia de Silva Magalhães, da última década do século XIX.


Em 1937, especialistas alemães que vieram restaurar o castelo, concluíram que a velha igreja-mãe dos Templários estava em perigo. A torre sineira, que é posterior, ameaçava ruína e, se isso viesse a ocorrer, arrastaria na queda grande parte do próprio templo. Foi então decidido consolidar a estrutura da torre, mediante uma nova estrutura em cimento armado, que assim foi usado pela primeira vez em Portugal no restauro de monumentos. A implantação da armação de ferro a cobrir posteriormente com massa de cimento (a que agora chamamos betão), implicou a retirada do relógio (ver mais abaixo). Ficou apenas o respectivo mostrador.
Já depois de 1974, os mesmos especialistas que mandaram retirar o telhado da cúpula de S. Gregório e as capelas laterais de Santa Maria dos Olivais, acharam que o mostrador do relógio estava a mais, visto que já não havia relógio. Era assim uma espécie de nódoa, do mesmo tipo da sujidade da Janela do Capítulo. E o mostrador, que já não era o do século XVI, desapareceu.


Resta-nos agora, devidamente preservado numa das muitas salas do Convento, o maquinismo do dito relógio, idêntico ao que ainda hoje existe e funciona na Igreja de S. João Baptista. Pelo menos até que os habituais especialistas não se dêem conta de que o templo é do reinado de D. Manuel, mas o relógio foi mandado colocar por seu filho D. João III. Quando se derem conta, lá se vai o relógio, uma vez que não é coevo da construção da torre sineira. Lagarto! Lagarto! Lagarto!



segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

INSÓLITOS TOMARENSES - 12

Entra um pacato e costumeiro visitante no jardim do Castelo, que foi em tempos a Vila de Tomar, e vislumbra do lado esquerdo um estranho vulto modernaço.


Dado que o caminho mais directo para lá está algo enlameado em tempo de chuva, o que era o caso, foi dar a volta e deparou-se com esta maquinória, último grito da electrónica. "Visita virtual do Castelo e do Convento". É algo estranho, à primeira vista, uma visita virtual para quem está no local a visitar mas, após cogitação, entende-se perfeitamente. Entre a visita real a 5 euros e a visita virtual a 1 euro, a escolha não é difícil. É muito mais barato, tem guia e evita subir e descer escadas. Sobretudo num país como o nosso, onde só não há Ferraris diesel, porque a marca do cavalinho não os fabrica. Mas abundam as altas cilindradas topo de gama, a gasóleo, que sempre fica mais barato. Tudo coerente portanto.

Tudo coerente ? Pois não senhor ! Como sucede amiúde neste país e nesta terra que tão generosamente me acolhe no seu seio materno, ou não há, ou está fechado sem qualquer explicação, ou não funciona. Ou, vá lá, há um letreiro com o tão português "Volto já". Neste caso, está "out of order", que é como quem diz, em tradução livre, indisponível. É por estas e por outras que sinto uma intensa satisfação quando vou a um multibanco e consigo retirar dinheiro... É tão raro haver algo que funcione como deve ser...



quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

MAIS MONUMENTOS A AGUARDAR LAVAGEM - 2

Serenem os leitores que continuam a ter pachorra para nos ler, a quem a gradecimemos. Não daremos mais exemplos de património degradado. A não ser que...Mas só nesse caso. Prometido.
Desta vez, Tomar a dianteira foi até ao Camboja, mais precisamente a Siem Rap e aos Templos de Angkor. Património da Humanidade, são mais de duas centenas, mais de metade dos quais ainda estão perdidos na selva. Datam do Império Kmer. Foram construídos nos séculos VII e VIII da nossa era. Depois foram abandonados e praticamente desapareceram na vegetação luxuriante. Fora redescobertos pelos franceses, já no século XX. Trabalham ali três grandes missões arqueológicas -uma americana, uma francesa e uma japonesa.
Neste primeiro exemplo, o monumento foi cuidadosamente limpo, sem recurso a qualquer meio mecânico. Dado que a vegetação era pouca e de muito pequeno porte, a edificação foi adquirindo os sinais da sua provecta idade, sem exagero.
Outro monumento da mesma época, que não teve a sorte de ser protegido pela vegetação, ao que nos disse o guia, devido à composição particular do terreno. Naturalmente, ninguém pensa em limpá-lo a jacto de areia. Era o que faltava. Os monges budistas que por ali andam não consentiriam essa nefanda cedência ao "progresso".

Um terceiro exemplo dos muitos monumentos daquela zona que foram redescobertos demasiado tarde. Neste caso já não há limpeza ou lavagem a jacto de areira que lhe possa valer. A própria árvore já faz parte do património. É assim a natureza. Recupera os seus domínios logo que possível...



sexta-feira, 27 de novembro de 2009

UMA VERGONHA É A FALTA DE MANUTENÇÃO !

Numa altura em que já se fazem testes, naturalmente pagos principescamente, soit disant para determinar a melhor forma de lavar/limpar a Janela do Capítulo, choca tanta insensibilidade, tanta ganância, tanta inércia. Mesmo ao lado, na mesmíssima nave manuelina, este arbusto está ali há anos. E continua a medrar sem entraves. Compreende-se. Dizer a dois funcionários para pegarem numa escada e resolverem a situação anómala num quarto de hora, não dá prestígio, não dá dinheiro, nem eventuais benesses por baixo da mesa. Mas era bonito e mostraria empenhamento e dedicação pelo serviço público, uma causa nobre, custeada por todos nós, os que pagamos impostos e tão mal servidos somos.
Quanto à Janela, deixa-na em sossego. Limitem-se a retirar-lhe as ervitas e alguns detritos trazidos ou provenientes das aves.O resto é reles pretensão de tecnocratas, mal formados em humanidades. Quem gostaria que lhe limpassem/lavassem o rosto, de modo a perder a cor e as marcas da provecta idade ? São apreciadores da Dona Lili Caneças ? Nós não. Gostamos mais do que é natural... Recordam-se da velha publicidade televisiva "Um preto de cabeleira loira não é natural" ? Outros tempos. Outros costumes.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

BOAS NOTÍCIAS DO CONVENTO - 2

Sabedor de que a quase totalidade dos tomarenses adora o S. Não Te Rales, Tomar a dianteira subiu novamente à antiga Casa da Ordem, desta vez para dar parte da sua extrema preocupação com a eventual limpeza/lavagem da Janela do Capítulo, que a deixaria "toda branca como os sanitários", conforme aqui escreveu uma leitora. Fomos conversar com uma veneranda figura nossa conhecida, que habita no convento desde os anos trinta do século XVI. Conhece, portanto, muito bem a Janela, desde os tempos em que ela ainda era uma donzela, como pouco mais de vinte anos de idade.
Ao ouvir-nos contar o que se pretende fazer àquela obra-prima do manuelino, em termos de melhoramentos, a sua expressão foi a que a foto mostra e que dispensa qualquer comentário, julgamos nós.
Agradecemos a atenção, saímos e descemos a Calçada de S. Tiago muito mais serenos e reconciliados com os nossos conterrâneos. Afinal, os mais velhos ainda se apoquentam com os grandes problemas comunitários. Como por exemplo com o projectado atentado contra a integridade da Janela do Capítulo. Os outros é que continuam amorfos. Como costuma dizer um nosso conterrâneo, "Nunca vi um porco a tocar flauta, nem um pessegueiro a dar nêsperas."

BOAS NOTÍCIAS DO CONVENTO - 1

Há por aí conterrâneos bem intencionados que não se cansam de repetir que Tomar a dianteira "só diz mal, é só má-língua". Têm razão, se esquecermos que não seria nada honesto afirmar que está um sol radioso, quando toda a gente vê que chove a cântaros. Ou não será assim ? Acham melhor tentar adormecer os eleitores com notícias falsas, ou com silêncios cúmplices e comprados ?
Hoje, só para contrariar tais arautos, resolvemos dizer bem do Convento de Cristo. Assim, a magnífica Sala dos Cavaleiros, no ex-Hospital Militar Regional 3 (1927/199o), de finais do século XVII (1688), fechada ao público há décadas, está de boa saúde. Aqui temos um aspecto do tecto octogonal de madeira policromada, ainda em bom estado de conservação, apesar da notória falta de manutenção adequada. E até temos tido muita sorte -ainda não roubaram a lanterna. Ao preço a que estão as antiguidades, vá lá, vá lá ! Continuamos a ser um país de brandos costumes. Oxalá por muito mais tempo !


Outro aspecto da antiga enfermaria conventual, mais tarde adaptada a hospital militar. Diga-se em abono da verdade que os militares, apesar de terem alterado bastante, também se esforçaram na conservação das instalações. A dada altura até fizeram escavações na fachada norte, tendo encontrado vestígios importantes da parte desaparecida da cerca de muralhas templárias, do século XII.




Finalmente, uma outra boa notícia, que constitui simultaneamente um esclarecimento importante. Aqui há meses, foram os tomarenses defensores do património sacudidos com uma notícia alarmista do semanário EXPRESSO. Titulava aquele conceituado hebdomadário "O Convento de Cristo está a caír", ilustrando a notícia a duas colunas com uma fotografia de dois artesãos (arcos de abóbada) do Claustro da Hospedaria. Escrevemos na altura que não havia matéria factual para tanto alarme, no que fomos apoiados pela directora do monumento. Era apenas um detalhe, normal num claustro com mais de quatrocentos anos. A demonstrar que tínhamos razão, aqui está o aspecto actual da mesma arcaria de abóbada, já devidamente restaurada. E que bem que ficou ! Quem não tenha acompanhado o referido incidente, nem repara que houve restauro. Para usar uma linguagem jovem, muito ao gosto de certo vereador local -Boa !



quarta-feira, 25 de novembro de 2009

A JANELA EXPLICADA AOS VINDOUROS - 3

Ontem mostrámos-lhe o cão e o gato, eventuais companheiros dos navegadores (ver " A janela explicada aos vindouros 2"). É agora a vez de lhe mostrar por que razão havia pelo menos um gato a bordo de cada caravela. Do lado oposto ao cão e ao gato, no ângulo superior esquerdo da janela, adossado ao pináculo, entre a corda e o feto, aí temos o nosso hóspede indesejado -um rato ! Meio dissimulado, como convém. Geralmente estes roedores entravam a bordo sem convite, usando as cordas de amarração como vias de acesso. Por isso estas cordas (a que os marinheiros chamam cabos) tinham uma série de bóias de cortiça assaz largas para impedir que os ratos as conseguissem ultrapassar. Mas mesmo assim... (Ver na mensagem anterior e na foto da janela, as ligação desta a cada um dos contrafortes (botaréus).
É claro que a esmagadora maioria dos visitantes ignora estes detalhes. Porque são minúsculos, mas também -e sobretudo- porque não há quem lhos mostre, numa evidente falta de respeito pelas obrigações do serviço público, e por todos os contribuintes, que depois ainda têm de desembolsar mais cinco euros por pessoa, para visitar aquilo que afinal é de todos. O costume -muito blábláblá, mas quanto a obras, está quieto ! Dá muito trabalho e o estado paga mal. Mas lixa-se que também é mal servido, pensarão muitos funcionários. O pior é que quem se lixa realmente são sempre os do costume... Há séculos que assim acontece.

As visitas guiadas fazem tanta falta, que até coisas à vista de todos escapam aos visitantes, naturalmente desorientados num para eles labirinto, que ignoram completamente. É o caso deste monstro, com guizos a encimar-lhe a cabeça, um focinho horrendo, olhos e dentes enormes, a vomitar agitação marítima. Exactamente ! Acertou ! O nosso conhecido Gigante Adamastor, terror dos nossos navegadores de antanho, do qual falam os Lusíadas. Não lhe parece ? Então tenha a bondade de ver a foto seguinte, que é a mesma, mas numa outra posição.


Repare na extraordinária beleza plástica (é uma opinião apenas) do duplo enrolar das vagas, que depois vêm morrer na praia, do lado direito. Este friso gigantesco, esculpido com uma extraordinária sensibilidade há cinco séculos, cercava originariamente toda a construção manuelina. Posteriormente foi muito mutilado sendo agora apenas visível nos botaréus da fachada poente e do lado esquerdo do portal sul, da Virgem (ou castilhiano, para usar o jargão pseudo-erudito de certa gente...). E quase ninguém dá por ele ! É pena, sobretudo para as crianças, que gostam tanto do Harry Potter, mas se calhar nem nunca ouviram falar do Adamastor. É por estas e por outras, que somos como somos e estamos como estamos. E com forte tendência para piorar. Haja saúde ! E pachorra, já agora...



terça-feira, 24 de novembro de 2009

A JANELA EXPLICADA AOS VINDOUROS - 2

Numa de defesa do património, que pode estar em sério perigo, caso não impere o bom senso, escrevemos anteriormente sobre a ornamentação da Janela do Capítulo. Publicámos também uma fotografia, tirada na posição em que a maioria dos turistas a vê, que está longe de ser a mais favorável.
Desta vez, mostramos a ilustração mais frequente nos desdobráveis turísticos -a fotografia frontal- que tem dois grandes óbices: 1 - Não se indicando as dimensões reais, a janela parece bem mais pequena a quem nunca a viu directamente ou na TV; 2 - À falta de esclarecimentos adequados, muitos visitantes percorrem a parte exterior do convento e do castelo, naturalmente à procura da janela. Nada mais lógico, visto que as janelas dão sempre para o exterior. Só que neste caso...
Se, após a leitura da explicação do poste anterior, alguém ficou convencido de que agora já sabe tudo sobre a ornamentação da Janela do Capítulo -desengane-se ! Nunca se consegue saber tudo sobre um tema, seja ele qual for. O autor destas linhas, por exemplo, conhece e observa regularmente a principal atracção do Convento de Cristo há mais de 50 anos. Mesmo assim ainda descobre coisas novas de cada vez que a visita de forma mais detalhada. Quer um exemplo prático ?


Na realidade, a representação da água do mar, que referimos no escrito anterior, e que se vê por cima das salinas, forma afinal um rectângulo, cujos lados maiores são paralelos aos pináculos, passando o inferior por trás da parte superior do tronco suportado pelo vulto humano. Uma espécie de moldura líquida, a separar a ornamentação marítima da terrestre. Outro exemplo ?
Repare nesta fotografia do anglo superior direito da anterior. Concentre-se no espaço entre a base da esfera armilar e o espaço do pináculo entre a corda e o feto. Já viu ? Estão lá representados, em alto relevo, dois pequenos animais de companhia. Ainda tem dúvidas ?

Pois aqui os temos, todos catitas, apesar de festejarem 500 anos em 2010. A prova evidente e indesmentível de que afinal os líquenes e outros musgos não danificam, antes protegem o calcário contra as chuvas ácidas. Ambos de cabeça para baixo, temos à direita o gato Gualdim, com a cauda para a direita, e à esquerda o cão Nabão, com o rabo aparente entre as patas traseiras. Convivem sem problemas, dado que foram criados juntos e assim estão há centenas de anos. E esta hein ??!!, exclamaria o saudoso Fernando Pessa, do alto das suas oitenta e tantas primaveras. E agora, julga que já sabe finalmente tudo sobre a decoração da janela ? Pois nem pensar. Tenha santa paciência e aguarde o próximo texto, se fizer o favor de nos continuar a ler. Para tudo é preciso cada vez mais pachorra...


A JANELA EXPLICADA AOS VINDOUROS

Eis a Janela do Capítulo, tal como a vêem quase todos os visitantes da Casa da Ordem de Cristo. A partir de um pequeno terraço, que alguns julgarão ter sido feito exclusivamente para apreciar a fachada poente do coro manuelino. Na verdade, trata-se apenas da cobertura da escada de ligação entre o 1º piso do claustro de Santa Bárbara e o piso térreo do claustro de D. João III. Tudo isto começou a ser edificado 25 anos após a conclusão da Janela.
Olhando com mais atenção, apercebemo-nos de que os sinais do tempo, os líquenes, os musgos, a patine, as diversas tonalidades, lhe dão outro relevo, outras perspectivas, outra visão dos volumes que a constituem. Custa até imaginar o que virá a ser após uma eventual lavagem limpeza, que a deixaria toda com o mesma tonalidade monocromática, como já acontece na Torre de Belém e nos Jerónimos, alvo de desastradas operações de lavagem/limpeza, certamente muito lucrativas mas verdadeiros atentados à integridade dos monumentos que são património da humanidade.
Ao longo dos seus quase 5 séculos (completá-los-á o ano que vem) já sofreu vários atentados. Roubaram-lhe as duas imagens, que ignoramos a quem representariam, e até a entaiparam. Agora, porém, é muito mais grave. Se as nossas suspeitas são fundadas, pode bem estar em curso um processo bem intencionado, como todos, capaz no entanto de a vir a mutilar irremediavelmente. Estamos a falar da sua eventual lavagem/limpeza, que destapando os poros do calcário, até agora protegidos pelos tais musgos e/ou líquenes, a deixararia à mercê da infiltração de chuvas ácidas e consequente destruição lenta. Oxalá seja só uma suspeita nossa, sem qualquer fundamento. Oxalá !
Em todo o caso, como vale mais mais prevenir que remediar, faça o favor de imprimir a fotografia, depois de com dois cliques a ter ampliado, e segure-a ou ponha-a ao seu lado. Depois vá lendo o que seque e olhando para a fotografia, alternadamente. Assim poderá ficar em condições de descrever, de forma sumária, a janela aos seus amigos, aos seus filhos, ou aos seus netos. Enquanto os arautos do progresso ainda não lhe deitaram a mão. Depois poderá ser demasiado tarde, porque sem remédio.
Temos então, de cima para baixo, para a direita e para a esquerda, a cruz da Ordem de Cristo, logo abaixo o escudo nacional, de ambos os lados as salinas (os quadradinhos), com a água do mar que se vê muito bem no lado de cima, dois pináculos com alcachofras e fetos, um de cada lado, que servem de amarração para corais em forma de cinco invertido, aos quais estão ligados por correntes. Na parte superior de cada um dos ditos corais, a esfera armilar, emblema do rei D. Manuel, mestre da Ordem de Cristo antes de ter subido ao trono.
Logo abaixo do escudo nacional, dois corais ampliados, em forma de âncora. De ambos os lados mais fetos, pedaços de cortiça e cabos de amarração com grandes bóias de cortiça, que amarram a janela aos contrafortes da fachada, chamados botaréus.
Mais abaixo, do lado de fora dos pináculos em forma de plantas exóticas, dois troncos de coral. O da direita está amarrado com uma corrente, o da esquerda com uma guizeira. São os baldaquinos de duas imagens que entretanto desapareceram. Ignora-se quem ou o que representavam. Ainda nos pináculos, na direcção dos vazios onde estiveram as ditas imagens, um nó gigante da cada lado e logo abaixo alcachofras. Segue-se o motivo que fecha toda a estrutura ornamental. Uma árvore com as raízes à vista, suportada por uma figura humana, da qual se vê a cabeça e os braços. De ambos os lados, uma corda monumental, a ligar a parte inferior aos botaréus, tal como já descrito mais acima.
Assim é a obra-prima do manuelino, a Janela da Sala do Capítulo do Convento de Cristo de Tomar. O resto são opiniões. Perfeitamente legítimas, mas com as quais se poderá concordar ou não.
Continuaremos na mensagem seguinte. Mais logo, para evitar indigestões de manuelino, que é uma arte bastante complexa. Como os portugueses afinal...

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

OBRAS HÁ, COORDENAÇÃO É QUE NÃO

Goste-se ou não do governo, goste-se ou não de Sócrates, temos de concordar que procura combater a crise o melhor que pode e sabe. Neste caso, ordenou que se executassem por todo o país OBRAS ÚTEIS em edifícios públicos, como forma de ajudar as empresas a manterem o emprego. É assim que só no Convento há neste momento quatro empreitadas diferentes, a cargo de empresas diferentes. Na fotografia pode ver-se um aspecto das casas de banho públicas, situadas à esquerda, ao fundo e em baixo, de quem entra no terreiro da Porta do Sol. Edificadas nos anos 30 do século passado, estavam fechadas desde 1974. Devido, entre outras causas, a sucessivos actos de vandalismo.

Dado que o conjunto Convento Castelo pertence ao estado desde a sua nacionalização, em 1834, a sua gestão é assegurada a partir de Lisboa pelo IGESPAR-Ministério da Cultura, através de um director residente. Neste momento a direcção é assegurada pela tomarense Iria Caetano, licenciada em germânicas. A autarquia não tem, portanto, nada a ver com o que quer que seja das muralhas para dentro. E com a Mata também não, apesar de ter resolvido, não se sabe a que título, custear parcialmente as obras supérfluas que lá vão ser feitas. A tal ligação cidade- castelo, que já existe há mais de 500 anos, mas que ninguém usa.
Manda a verdade acrescentar que também nunca os nossos autarcas procuraram conseguir a gestão camarária da velha Casa da Ordem ou da sua Cerca Conventual.
Foi nestas condições bizarras, com património da humanidade a ser gerido a 120 quilómetros de distância, quando há representantes legitimados pelo voto livre do povo a 120 metros, que se resolveu proceder ao restauro dos velhos sanitários. Não espantará por isso que haja erros crassos. Acontecer-nos-ia o mesmo se fôssemos nós tomarenses a gerir as obras do Terreiro do Paço.
Na fotografia são visíveis os remendos nas velhas portas. Pergunta singela: Para evitar actos de vandalismo, e outros usos indevidos, não teria sido melhor colocar portas blindadas, com abertura unicamente por cartão magnético, à venda ao lado, numa máquina automática, naturalmente bem protegida e com câmara de vigilância ?


Outro aspecto curioso do projecto de recuperação é a construção de uma espécie de mini-ETAR, para tratar os efluentes dos sanitários. Por outras palavras, umas fossas, como se estivéssemos no campo, longe da rede de esgotos. Acontece que, a pouco mais de 50 metros dali, nas tais obras da ligação cidade-castelo, vão instalar um emissário de esgotos (um colector, se preferem) exactamente para drenar os efluentes conventuais. Porém, dado que as obras do colector são de responsabilidade camarária, enquanto que as destes sanitários são por conta do governo de Lisboa, nem Pedro sabe o que faz Paulo, nem Paulo sabe o que vai fazer Pedro. O que vale é que, por vezes, o acaso resolve muita coisa. Nestas obras das casas de banho, quando se procedia às escavações para a construção das fossas sanitárias, apareceram algumas ruínas, bem visíveis na fotografia.
Agora seguir-se-á, como habitualmente, o desfile de arqueólogos. Uns dirão que são restos do fórum augustano, outros opinarão que não senhor, que são restos de construções da época da ocupação serracena. Com um bocado de sorte até poderá aparecer um especialista a garantir que se trata do "boudoir" de Dª Catarina, mulher de D. João III, irmã da Carlos V e tia de Filipe II de Espanha, Filipe I de Portugal, neto de D. Manuel I...
Quando finalmente se chegar à conclusão lógica de que tudo aquilo não vale um caracol, pelo que se pode continuar a escavar, talvez a autarquia e o IGESPAR já tenham tido tempo para decidir ligar aqueles sanitários ao emissário dos esgotos conventuais, o que dispensará as projectadas fossas. Mas entretanto terá havido patrões e operários beneficiados. Aqueles com lucros, estes com salários, o que é bem bom em tempo de crise.
Sempre fomos assim, pelo que não há muito a fazer enquanto não resolvermos mudar, acompanhando a evolução do mundo. Quando será ?



domingo, 22 de novembro de 2009

NUMA MANHÃ DE NEVOEIRO...

Neste domingo tipicamente outonal, que acordou baço, como é próprio da estação, Tomar a dianteira resolveu subir uma vez mais a velhinha Calçada de S. Tiago (ou Santiago, na versão espanhola). Rumo ao Castelo e ao Convento. Como mostram as duas fotos, é um espectáculo diferente. Mostra exactamente aquilo que os nossos políticos, tanto locais como nacionais, não querem que saibamos. A maneira como vêem não só a velha Casa da Ordem, mas igualmente tudo o resto, incluindo a actual crise. Tão escondido no nevoeiro mental/conceptual, que nem sequer lhe adivinham os contornos, quanto mais agora a solução.


Daí a grande moda actual em Tomar. Ir proclamando que o nosso futuro está no turismo. Naturalmente com o Convento à cabeça. Pois bem; tal como os sebastianistas, e outros arautos do 5º império, que aguardam a chegada do nosso Salvador, montado num cavalo branco e numa manhã de nevoeiro, aqui temos o maior e melhor património tomarense coberto de nevoeiro. E agora ? Quais são as vossas verdadeiras intenções ? Começar finalmente a ser dignos daquilo que herdaram ? Iniciar agora a nossa cavalgada rumo ao progresso ? Ou continuar a simular o real exercício do poder ? Avançar, inovar, empreender ? Ou aguardar, retardar, dificultar, desculpar, emperrar ? Dormir com a história e engravidá-la ? Ou sair desse leito e dar lugar a outros ? Os tempos não estão para feitios de caracol, ou de tartaruga. Se é que alguma vez estiveram.
Os eleitores nada dizem publicamente, mas sente-se que aguardam obras, pois estão fartos de palavras. E não vão continuar a esperar durante muito mais tempo. Infelizmente, para quem vive da ocupação estática do poder.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

AFINAL QUE OBRAS VÃO FAZER ALI ?




As ilustrações mostram três aspectos da fachada norte do coro manuelino do Convento de Cristo, com andaimes e a identificação de uma empresa de restauro do património. Vai haver obras ? Quais ? Qual a sua justificação e o seu valor ? Os contribuintes tomarenses não têm o direito de saber o que se vai ali passar ? A autarquia, que é a autoridade local, sabe algo sobre esta matéria ? O IGESPAR não poderia emitir um comunicado a esclarecer os muitos admiradores e defensores da velha Casa da Ordem ? Afinal estamos na Europa, ou numa qualquer savana africana ?


sexta-feira, 13 de novembro de 2009

A CIDADE E O CONVENTO - UM LONGO MAL ENTENDIDO

Entre a cidade e o Convento de Cristo, o desentendimento é gravérrimo e multi-secular. Desde os alvores da nacionalidade até 1834, porque as ordens vinham lá de cima. Após essa data e até agora, porque as ordens deviam ir cá de baixo, em conformidade com o regime que a todos nos rege, mas não. Vêm de Lisboa, não se percebe bem porquê. A este imbróglio quase milenar juntam-se agora as cada vez maiores exigências do mundo contemporâneo, transformando a questão numa série de nós difíceis de desatar, designadamente porque os dirigentes que temos e temos tido possuem certamente imensas e admiráveis qualidades, mas a coerência e a pertinência não fazem de modo nenhum parte do rol.
Quem segue com atenção essa pujante actividade prurifacetada que é o turismo, já terá constatado duas grandes tendências conexas -o aumento exponencial do turismo ambiental, naturalmente pedestre, e o cada vez mais necessário afastamento do trânsito automóvel em relação aos monumentos, em prol da defesa do património, para o qual os gazes de escape são um poderoso veneno. Para não irmos por essa Europa ou por esse Mundo fora, basta atentar no que tem sido feito na Batalha ou em Alcobaça, monumentos integrados na mesma rota turística do nosso Convento de Cristo.
Na Batalha, a estrada nacional nº 1, que passava mesmo junto ao mosteiro, foi sendo sucessivamente desviada, exactamente com a argumentação de que era necessário proteger aquela obra de arte da poluição e das vibrações do solo provocadas pela trânsito. Infelizmente, também neste caso, a clássica e muito portuguesa falta de coerência e de pertinência, permitiu que mais tarde instalassem parques de estacionamento à ilharga do mesmo monumento. Assim a modos que como num jogo de afasta daqui/aproxima dali.
Em Alcobaça, os arranjos são mais recentes e muito mais pertinentes e adequados. O trânsito e o estacionamento foram proibidos em todo o imenso largo fronteiro ao monumento, que foi requalificado, mantendo as quase centenárias casas de banho, sempre impecáveis e com guarda. Outra terra, outros usos...
Enquanto isto, em Tomar queixam-se os comerciantes que os visitantes do Convento, cerca de 150 mil por ano, não vêm ou raramente vêm cá abaixo, ao mesmo tempo que o presidente da câmara afirma pretender desenvolver o turismo, como solução para a manifesta crise que a todos aflige. É neste quadro que a autarquia, persistindo na implementação de projectos que já demonstraram a sua falta de adequação e/ou de oportunidade, resolveu agora proceder à adjudicação do arranjo urbanístico da envolvente ao Convento de Cristo, e do percurso pedonal Cidade-Castelo através da Mata dos Sete Montes. Trata-se de dois erros crassos e monumentais, para não usar palavras mais fortes, que envergonhariam quem escreve e quem lê. Há que manter o nível.
Desde logo, se o grande problema local é o facto de os turistas irem ao Convento e não descerem à cidade, não é seguramente facultando-lhes parqueamento lá em cima que eles passarão a vir cá abaixo. Ou será ? Dirão as múmias do costume, que os actuais locais de estacionamento estão muito degradados, que nos envergonham, que as casas de banho... É verdade, sim senhor. Uma coisa porém é a manutenção periódica, muito mais barata; outra muito diferente, as onerosas obras novas, que depois se vão degradando, por falta de adequada manutenção. De qualquer forma, mais cedo ou mais tarde, consoante a capacidade de quem nos administra para acompanhar o progresso, o trânsito automóvel terá de ser banido lá de cima. E sem veículos também não haverá estacionamento.
No caso do percurso pedonal através da velha Cerca do Convento, trata-se sobretudo de um projecto hipócrita. O que se pretende na realidade é instalar um colector dos esgotos do Convento, actualmente a céu aberto próximo da Torre da Condessa, até ao cimo da Rua da Graça (Av. Cândido Madureira). O tal arranjo do percurso pedonal, com instalação eléctrica e tudo, quando a Mata fecha às cinco da tarde e o Convento idem idem, é apenas um pretexto para sacar verbas da União Europeia, no quadro de QREN. Como se os cidadãos fossem todos lorpas e os autarcas umas sumidades...
Acresce que o referido percurso já existe há séculos. Apenas não é utilizado por falta de adequada sinalização e informação, porque o portão da Torre da Condessa está sempre fechado, e porque quem chega ao Convento de autocarro ou automóvel, é evidente que não vai descer à cidade a pé. Tal como salta aos olhos que havendo parques lá em cima, ninguém deixa o carrinho cá em baixo para ir a pé por aí acima. Por conseguinte, a incoerência é manifesta entre os dois projectos -os parques tornam o percurso supérfluo; o percurso torna os parques desnecessários.
Perante isto, os Independentes por Tomar, apresentaram ontem uma declaração de voto, na qual consideram existirem situações "que não se encontram devidamente fundamentadas", que "em determinados casos o júri pronunciou-se e tomou decisões sobre matérias para as quais não tinha competência", e que não constam do processo "elementos essenciais à sua apreciação e decisão pelo Executivo Camarário." Alegam finalmente que "este processo devia ser integralmente analisado do ponto de vista jurídico e objecto de competente parecer."
Estas alegações são graves e os atropelos evidentes. Bem andaram por conseguinte os vereadores IpT ao apresentarem tal declaração. Contudo, mandam a verdade e a franqueza dizer que estamos perante mais um caso evidente de política à moda de Tomar. Quais as decisões que não estão devidamente fundamentadas ? Quais os casos concretos em que o júri se pronunciou sem que para tal tivesse competência ? Quais os elementos fundamentais que não integram o processo ? Mistério... Continua subjacente entre os senhores juristas e os senhores autarcas, que estas coisas devem ser só para iniciados, que a arraia-miúda serve para pagar impostos e para votar, mas manifestamente não percebe nada destas matérias. E quanto menos se lhe disser melhor... Pensam eles de que.
E que tal, de uma vez por todas, começar a chamar as coisas pelos nomes, a falar claro e a urinar a direito ? É que já vai sendo tempo ! Afinal o 25 da Abril já foi há 35 anos e a paciência popular também tem limites... Mesmo em Tomar, cuja população é sobejamente conhecida pelo seu conformismo e pela sua passividade.