Relata a Rádio Hertz que na reunião de ontem o executivo camarário debateu acaloradamente a anunciada supressão da urgência no Hospital de Tomar. Houve, naturalmente, unanimidade na indignação. E sobretudo no facto de semelhante afronta ter sido decidida -vejam bem!- sem prévia audição ao executivo e à Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo, uma coisa alojada alí no Convento de S. Francisco, sem pagar renda, mas com uma secretária executiva a ganhar mais que o presidente da câmara. Há secretárias com muita sorte. E populações cheias de azar. É a vida!, diria o filósofo Guterres, que apesar de tudo nunca foi estudar filosofia para Paris nem aí pagou almoços de milhares de euros. Em Portugal a política continua a ser uma actividade muito frutuosa. Para alguns, claro!
Voltando à problemática hospitalar tomarense. Debateram então o propalado encerramento da urgência no hospital de Tomar, sentindo-se manifestamente ultrajados pelo facto de alhures terem ousado tomar decisões gravosas, sem antes consultarem a ilustre tribo dos eleitos. Trata-se, quanto a mim que sou má-língua, de uma reacção imprópria posto que, como diz o povo, "só é respeitado quem se dá ao respeito". E os autarcas da zona, sobretudo os de Tomar...
Após tão importante debate, o que ficou em termos de argumentação substantiva? O fecho das urgências é prejudicial para as populações; os eleitos deviam ter sido consultados; vão ser solicitadas audiências às entidades responsáveis; os autarcas tomarenses são unânimes na manifestação de repúdio ante semelhante decisão. Ora aí está! Sete representantes do povo, lautamente pagos em vencimentos, mordomias e/ou senhas de presença, não conseguiram parir mais do que isto. Miséria! A tal ponto que até Corvêlo de Sousa se sentiu agastado, desabafando que "Há concelhos que estão muito pior que Tomar, designadamente Abrantes, que neste momento tem muitas pessoas de idade sem acesso a centros de saúde." Graça Costa não gostou e aconselhou o senhor alcaide a defender mais os tomarenses, deixando que os outros tratem de si (deles, bem entendido...).
Nem sequer terá aflorado as mentes de tão brilhantes criaturas uma série de factos convergentes que, infelizmente, já condenaram o concelho de Tomar à irrelevância. Para além da já antes assinalada e manifesta falta de credibilidade do actual elenco camarário, pelas razões de todos conhecidas, Ourém tem neste momento mais eleitores (43.907, contra 38.724 em Tomar), mais alunos, mais telefones fixos, mais telemóveis, mais automóveis, mais indústrias, mais comércios, mais edifícios e menos desempregados. Paga mais IRC, mais IRS, mais IMT, mais IMI e mais Imposto automóvel. Mas não tem hospital com urgência, não tem quartel, não tem caminho de ferro na cidade, não tem divisão da PSP, não tem comando da GNR, nem tem politécnico. E estas coisas, que dão muito nas vistas, sabem-se em Lisboa, nos centros do Poder. O que provocará, mais tarde ou mais cedo, mudanças significativas. Ninguém gosta de viver numa cidade cada vez mais cemitério...
Nestas condições, em vez de gastar cera com defuntos adiados, não seria melhor ir para um debate susceptível de apurar enfim as causas próximas e remotas da nossa gritante decadência? É que nunca tive conhecimento de que médicos tenham curado uma maleita grave sem prévio, profundo e adequado diagnóstico, logo seguido de correcta terapêutica. Mas se calhar os senhores autarcas tomarenses continuam convencidos de que, como estamos próximos de Fátima...Se assim é, tratem de olhar para os oureenses quanto antes. Têm o santuário no concelho, mas seguem o velho preceito cristão "Ajuda-te e Deus ajudar-te-á!" Dá muito trabalho, não é?
