Uma situação destas, que seria condenável mesmo se apenas transitória, torna-se intolerável por para ela não existir solução sem uma mudança drástica da mentalidade dominante. Não sou só eu a dizê-lo. Aqui vai uma citação bem a propósito.
O fim de uma era
"Todos nós sabemos que a situação de Portugal é dramática e que muita coisa vai mudar em breve. Não me refiro a eventuais mudanças políticas. O que é realmente importante é que os portugueses interiorizem que a sua vida já mudou. Ou melhor, já devia ter mudado e há-de certamente mudar.
A preferência revelada por políticos e famílias tem sido a da fixação quase patológica no betão. Como ando a explicar há anos, a presunção de que a obra pública traz necessariamente desenvolvimento, confundindo investimento com mera despesa, e o caminho aberto pelos políticos de todos os partidos no sentido de que sejamos hoje um país de donos endividados de imobiliário, são duas das maiores razões da catástrofe económica que começamos a sentir e que ainda se vai agravar. Basta olhar para o país: auto-estradas entre nada e coisa nenhuma, polidesportivos em barda, estádios de futebol inúteis, uma das maiores taxas de propriedade de segunda habitação da Europa e agora, pasme-se!, "parcerias público-privadas" para a construção de praias de água salgada no interior das Beiras.
Os políticos (poucos) e os que vivem da política (muitos) têm gerido este caminho para o caos, dando a uma população cada vez mais desfasada, o que esta aparenta querer. Ainda não perceberam que essa era acabou."
Um esquerdista revolucionário? Um apóstolo da desgraça? Um pessimista crónico? Um maledicente encartado? Um candidato ressabiado? Claro que não! Pois se nem refere os milhões gastos para transformar um estádio num campo de treinos mixuruca, nem um paredão só para enfeitar, nem uma rotunda de meio milhão de euros cujo piso tem uma tendência doentia para abater, nem um caminho pedonal inútil ou umas retretes com balcão de recepção, na horta do vizinho, nem sequer um pavilhão sem as medidas legais, um outro onde há infiltrações quando chove, ou um parque de estacionamento com nascentes, para não falar do já famoso elefante branco da Levada, só pode ser alguém de fora de Tomar e bastante moderado. Trata-se do economista António Nogueira Leite, por sinal até do PSD. (Correio da Manhã de hoje, página 23). Ora toma!
Mas afinal quem terá mais razão? Nogueira Leite e os seus conhecimentos de economia? Ou o vice-presidente Carlos Carrão, responsável pelo sector administrativo e financeiro da autarquia, ao afirmar em Alviobeira que é preciso apostar nas colectividades, mesmo nas actuais circunstâncias? Ou ainda aquele presidente de junta PSD que garantiu continuar com as passeatas comezaina+tintol+animação, haja ou não haja crise? E se calhar mesmo com as valetas por limpar ou os buracos por tapar...
