Cada dia que passa, os telejornais mostram-nos algo de insólito e mesmo de inimaginável em qualquer país da Europa do norte. O reizinho da Madeira, Jardim, afogado nas dívidas que ele próprio gerou e por isso à mercê do Governo da República, no quadro de um exigente e doloroso plano de resgate, continua a afirmar que não assinará nada que prejudique aquela região autónoma. Mesmo já sem meios para garantir os salários de Janeiro e após ter desviado milhões para pagar a empreiteiros em detrimento das farmácias, o que força agora os madeirenses a pagar os seus medicamentos, guardando os recibos para hipotético e posterior reembolso, recusa mudar de atitude. Como se ainda lhe restasse alguma capacidade de intimidação fora do seu mini-reino. Vendo-o na TV, a pergunta surge logo: Porque não se vai embora?
Mutatis mutandis, no jardim nabantino assistimos a algo muito semelhante. Apesar de minoritários no executivo e na Assembleia Municipal; apesar de atascados em dívidas; apesar de enredados em problemas cuja eventual solução os ultrapassa e implica a concordância dos adversários; embora sem ideias, sem planos e sem habilidade para dar a volta à crise local; embora sem orçamento 2012 aprovado e sem saber como fazer para conseguir a sua aprovação; persistem numa atitude autista, vinda dos mandatos anteriores, durante os quais puderam asneirar livremente, assim transformando os eleitores tomarenses na maior comunidade de palermitas fora da Sicília, cuja capital é Palermo, não por acaso terra-mãe da Máfia.
De tal forma que ainda hoje, interrogado pela Hertz, o presidente em exercício leu um papel com certos pontos lamentáveis e uma mensagem geral condenável, ao não assumir os erros cometidos, nem apresentar qualquer contributo para a indispensável, urgente e inevitável saída da presente crise política nabantina. A dado passo da sua leitura, referiu como motivo de orgulho em 2011 a realização de mais uma edição da Festa dos Tabuleiros, "momento de união de todos os tomarenses". Confesso que, tomarense, filho, neto e bisneto de tomarenses, gosto da nossa Festa Grande, mas nunca dela tirei orgulho, por três motivos principais:
1 - Porque João Simões, o seu restaurador, também nunca manifestou o seu orgulho, mas apenas modéstia, humildade, satisfação pelo dever cumprido, vontade de modificar o que estava mal; 2 - Porque tendo em conta a evolução ocorrida desde 1950, o modelo organizativo da festa está agora mais do que ultrapassado e muito dificilmente poderá vir a ser replicado sem graves prejuízos para a comunidade tomarense; 3 - Porque é indigno e denota uma confrangedora ignorância do novo contexto civilizacional manifestar orgulho por um evento sem dúvida único, lindo e de grande significado para os nabantinos, mas que custa ao erário público -e por conseguinte aos contribuintes- largas centenas de milhares de euros, quando poderia facultar-lhes elevado valor acrescentado, caso fosse organizado em consonância com o tempo actual.
Numa curta frase: Orgulhoso de quê, se apesar da informática, quase seis meses depois ainda não há contas prontas?
