O panfleto ontem afixado pela cidade fora teve para já um grande mérito, que reitero com todo o gosto: alertou consciências, numa população geralmente amorfa. Falta saber qual o seu efeito prático. Logo, a partir das oito da noite, já teremos uma ideia.
Dito isto, friso uma vez mais que a estrutura do dito papel é pouco menos que execrável, tanto em termos de vocabulário como de estrutura. Acrescento que ambos -a estrutura e o vocabulário- denotam uma ideia cavernícula da política, uma há muito ultrapassada visão pseudo-marxista da sociedade e a interiorização da ideia de culpa, de pecado e de trezentos anos de Santa Inquisição. Não sendo o local nem a hora para esmiuçar tudo isto, limito-me a assinalar alguns factos históricos conhecidos, enquanto marcos para balizar e confirmar o que segue.
A Revolução Francesa executou a família real e milhares de outros. A Revolução bolchevique executou a família real e milhões de outros. Os militares de Abril fizeram uma revolução sem matar ninguém. Os espanhóis restabeleceram a monarquia sem matar franquistas. Os regimes do Leste europeu implodiram sem luta armada ou mortos. As revoluções árabes recentes têm sido mortíferas. De tudo isto parece-me resultar que, sendo as crises sempre grandes oportunidades, dependendo do que se fizer, não adianta e antes pode prejudicar, começar por procurar e apontar culpados= responsáveis, como se todos fôssemos antes de tudo polícias dos nossos concidadãos. Atitude tanto mais condenável quanto é certo que, em regimes abertos e plurais como o que temos, somos todos culpados, posto que os governantes e os parlamentares fomos nós que os escolhemos. Ou não será assim? Alguém ou alguma coisa nos impediu de agir de acordo com a nossa íntima convicção?
Vir agora alcunhar de roubo uma reorganização de valências hospitalares, levada a efeito por quem tem competência para o fazer; ousar apontar como responsáveis cidadãos cuja culpa é praticamente idêntica à de todos nós enquanto cidadãos eleitores; cheira a política salobra, que não pode levar a nada de bom. Na minha tosca opinião, útil, urgente e importante mesmo, é encontrar e propor soluções realistas e mais económicas, pois o pior ainda está para vir.
O leitor que insistir ainda assim na ideia errada de que estou a defender quem quer que seja, fará o favor de ler a opinião de Correia Leal, médico, empresário privado e tomarense por opção que, não sendo funcionário público, tem uma visão muito mais serena e adequada do problema do hospital.
