É para mim algo de extremamente complexo -misterioso até- a paixão pelo poder. Não falo já de casos como o de Berlusconi, Fátima Felgueiras ou Isaltino de Morais. Nem sequer dos de Valentim Loureiro, José Sócrates ou Santana Lopes. Ou ainda, a nível local, do vereador Carlos Carrão e o seu Opel Insígnia, ou daquele autarca nabantino cuja deslocação a Madrid custou 10 mil euros = 2 mil contos aos cofres da autarquia. Refiro-me a casos como Jaime Gama, Cavaco Silva, Francisco Louçã, Jerónimo de Sousa ou Carvalho da Silva. O poder pelo poder. Com paixão, dedicação e honestidade pecuniária a toda a prova.
Dir-se-á que, na prática, vai tudo dar ao mesmo, mas não é verdade. Berlusconi está nitidamente alapado, como tantos outros, enquanto que Sapatero, Campos e Cunha ou Luís Amado já manifestaram total desapego pelos cargos. No caso do espanhol, com enormes vantagens para "nuestros hermanos". Sem a sua célebre frase, em pleno parlamento, "tomarei todas as medidas necessárias para salvar o nosso país, nem que isso me possa custar o lugar", sabe-se lá como estaria hoje a Espanha.
Chegado aqui, já quem me lê estará a cogitar "onde é que este gajo quer chegar com esta música toda?" Simplesmente ao caso do meu amigo pessoal, adversário político e nosso alcaide, o "gentleman" Corvêlo de Sousa. Porque a minha indagação é esta: Sócrates percebe-se, mas porquê o nosso mavioso e aveludado presidente de câmara?
Sócrates percebe-se, por ser alguém forte, dominador, obstinado, intratável, exaltado e obnubilado pelas suas próprias soluções, vivendo por isso (ou fingindo muito bem que vive) numa realidade virtual, que só ele vê e entende. Agora o Fernando Rui, incapaz de usar uma frase mais agreste, de agredir verbalmente, de tentar molestar um adversário ou de reprimir evidentes desmandos, o que o manterá agarrado a uma situação equívoca? O que o levará a manifestamente confundir os seus desejos com a própria realidade, como acontece com Sócrates? Em que se baseia para pensar que determinadas iniciativas vão produzir os efeitos por ele desejados, mas que são de todo improváveis?
Realmente o poder é muito afrodisíaco. Mesmo para quem ainda não usa Viagra ou sucedâneos. E os eleitores é que pagam. Ninguém os manda votar de ouvido!
