sexta-feira, 27 de maio de 2011

TEMPO DE DAR O CORPO À CURVA


O excelente blogue O Jumento, nitidamente conotado com o PS/Sócrates, consegue estar sempre na crista da onda, mais de meia hora à frente do futuro. Agora chegou à conclusão de que o vento eleitoral está a mudar. Ciente disso, recorreu à parafernália inspirada em Maquiavel: Se não os consegues vencer, nem te queres (ou podes) juntar a eles, faz o possível para os desacreditar enquanto ainda é tempo. É o que se designa, em linguagem popular, pela expressão "dar o corpo à curva".
Neste caso procurando instilar a ideia subliminar de que todas as sondagens desfavoráveis ao PS não passam de caca. De cão, ainda para mais.
Eis a legenda que acompanha tão requintada imagem:
"O Jumento conseguiu captar o momento em que se estava a proceder aos cálculos finais da próxima sondagem eleitoral que vai ser divulgada."
São os chamados observadores de caca. Tão bons e com a pituitária tão afinada que até conseguem antecipar os resultados finais, unicamente através do cheiro. Está portanto parcialmente enganado o povo, quando murmura por aí que os políticos "é tudo a mesma caca", mas com cinco letras e a começar por m. Graças ao Jumento fica-se agora a saber que mesmo sendo assim, nem todos exalam os mesmos eflúvios. Valha-nos isso. Porque distinguir moscas é tarefa bem complicada!

quinta-feira, 26 de maio de 2011

ANÁLISE DA IMPRENSA REGIONAL DESTA SEMANA



No habitual granel noticioso hebdomadário, o destaque vai desta vez, sem qualquer dúvida, para a manchete de CIDADE DE TOMAR, que remete para as páginas 16 e 17, ambas da autoria de António Freitas. Trata-se do diferendo político/económico entre o presidente (IpT) da Junta de Freguesia da Junceira e os SMAS, relacionado com alegadas pressões ilegítimas e outras prepotências de que terão sido vítimas os cidadãos daquela freguesia tomarense. Mesmo procurando manter-me imparcial, não posso deixar de recordar aquilo que já por diversas vezes aqui escrevi: Há funcionários municipais muito convencidos de que os cidadãos/eleitores/ consumidores/contribuintes estão ou devem estar ao serviço da autarquia, quando é exactamente o contrário. Se os funcionários públicos são servidores do Estado, os funcionários municipais são (ou deviam ser) servidores dos munícipes. Ou não será assim?
Referência igualmente para uma outra peça subscrita por A. Freitas, neste caso sobre a atitude da autarquia nabantina ante a já anunciada redução de freguesias e concelhos. O título é percutante: "Câmara de Tomar não sabe o que fazer e os autarcas andam caladinhos que nem ratos!"
Por falar em títulos, o da última página de CIDADE DE TOMAR é bem expressivo: "4ª Saída de Coroas - Uma vez mais a população tomarense deixou-se levar pela tradição". Infelizmente, sendo verdade, não o é menos que os tomarenses se têm deixado levar, nem sempre pelos melhores caminhos...


O MIRANTE vem esmerado em relação a Tomar. Duas fotos a cores na primeira página e o título cheio de esperança "Ciclovias mais próximas de se tornarem realidade em Tomar". Oxalá!
Das duas fotos, a de cima mostra alunos da Escola Secundária de Santa Maria dos Olivais que com  os  da Universidade Sénior, preparam o musical "Aqui há gato", a subir à cena no Cine-Teatro Paraiso. A debaixo apresenta alunas e o director da Secundária Jácome Ratton, por ocasião da "Feira das Profissões" realizada naquele estabelecimento de ensino. Já no interior, a página três inclui outra foto dos ensaios do já citado musical, com uma excelente atitude da professora/actriz Ana Carvalho.
Relevo também para a página 9 e "A Loucura das lagartas", um filme que está a ser realizado por alunos da Jácome Ratton. Na penúltima página, a habitual secção de ironia e curiosidades, com duas referências a Tomar: Uma foto do presidente da Junta de Freguesia de S. João Baptista, Augusto Barros, a armar um tabuleiro  e o vereador Luís Ferreira a propor "Um lifting camarário". Cuidei que se tratava de uma proposta de "refrescamento" de eleitos, mas afinal trata-se apenas de funcionários. Por enquanto?
"Há cada vez mais lojas chinesas", titula O TEMPLÁRIO. Porque será? 
Nas páginas interiores, destacada referência ao centenário do Café Paraíso, com uma bela prosa de Luís Pedrosa Graça, seu fiel frequentador.
Sérgio Martins e Manuel Traquina assinam cada qual a sua crónica, cuja leitura se recomenda.


N'O RIBATEJO há apenas uma pequena local de Tomar, sobre a detenção de seis jovens, acusados de  roubos e tráfico de droga. Vem na página 18. 
Mas o grande destaque vai para o Governo Civil, que custa aos contribuintes 1,3 milhões de euros anuais e que Miguel Relvas entende, na página 5, dever ser eliminado, sentimento largamente partilhado no país. De tal forma que ainda não vi ninguém preocupar-se com uma das principais tarefas daquela dependência governamental -a emissão de passaportes, que agora é obrigatoriamente presencial, por razões de segurança. Caso os governos civis venham mesmo a ser extintos, que entidades herdarão tal função? As câmaras? Os registos civis? As lojas do cidadão? Talvez não fosse nada má ideia ir pensando no assunto, posto que irá ser necessário instalar custosa maquinaria, qualquer que venha a ser a decisão final. Salvo se, ao final, continuar tudo como até aqui. Assim tipo "Para não prejudicar ninguém, governo civil em Santarém."  É que em matéria de supressões, vai se praticamente inevitável, mais cedo ou mais tarde, que os técnicos da troika acabem por constatar que não faz qualquer sentido haver, numa mesma sede de concelho, dois serviços de informação turística, um regional e um municipal. Como acontece por exemplo em Tomar, com um em frente do outro, à entrada da Corredoura. Num país endividado até às orelhas e num município cuja dívida global já vai em 43 milhões de euros, aumentando ao ritmo de  800 mil euros mensais, é obra!

PARECE-ME QUE ESTÃO A VER MAL...

O mais recente comentário chegado aqui ao blogue acusa-me de ter perdido a esquerda e de me ter virado para o PSD mais liberal de sempre. (Ver comentário das 10:21, no post anterior). Peço licença para apresentar o meu ponto de vista.
De forma sucinta, é meu entendimento que os principais partidos concorrentes às legislativas de 5 de Junho pertencem a dois grupos praticamente opostos. Num temos o BE, a CDU e o PS, que tentam convencer o eleitorado de que tudo pode continuar como tem sido até aqui. Todos mentem, está claro, mas enquanto Louçã e Jerónimo parecem sinceros e até preconizam a expansão do sector público, designadamente através de novas nacionalizações, o que se coaduna com o seu ideário de sempre, Sócrates mente descaradamente ao arvorar-se em defensor das grandes conquistas de Abril, que ele sabe bem serem insustentáveis. Não por má vontade, por manifesta perversão política ou por adesão serôdia à Escola de Chicago e aos seus ultraliberais. Singelamente porque, na situação para a qual o governo PS arrastou o país, já não se trata sequer de ser a favor ou contra o Estado Social, mas tão só de se adaptar à realidade envolvente, evitando recorrer a desculpas de mau pagador e outros argumentos da treta. O Estado pode ou não pode pagar? Se afirmativo, como, quando e com que recursos? O resto não passa de música de embalar.
O outro grupo é constituído pelo PSD e pelo CDS, ambos nitidamente mais respeitadores do actual contexto sócio-económico. Há apenas entre eles, parece-me, uma diferença de abordagem, ditada por questões de educação e de experiência, de tarimba afinal. Economista e gestor, PP Coelho mostra-se um político sincero, aberto, com dúvidas, não hesitando em anunciar algumas medidas que irá ser forçado a tomar, caso vença a próxima compita eleitoral, mesmo que isso não lhe grangeie para já simpatias. Mais vale prevenir que remediar. Já Paulo Portas se mostra nitidamente mais cauteloso, mais cordato, alardeando a sua excelente educação nos Jesuítas. Ao final, porém, nem um nem outro ousam iludir o potencial eleitorado com promessas que depois não poderiam cumprir, caso venham a formar governo, uma vez que -dizendo as coisas de forma brutal- quem nos vai governar de facto durante os próximos 4 anos, no mínimo, são os representantes da troika. E estes apenas procuram assegurar que os nossos credores, cujos interesses eles representam, continuarão a receber o principal e a respectiva retribuição. De resto, mal de nós quando assim não for. Caso haja reestruturação, alongamento de maturidades ou incumprimento, mesmo que parcial, ficaremos arredados dos mercados durante dez ou quinze anos, no mínimo, conforme já referi no post anterior. Já pensou o leitor no que será então a vida neste país, quando o Estado não tiver acesso ao crédito nem aos fundos europeus, que acabam em 2013? Se até o Município de Tomar, apenas um dos 308 que conta o país, necessita de pelo menos 800 mil euros mensais, além das receitas previstas...
Nestas condições, opinar balelas sobre viragens à direita, políticas liberais, defender Portugal, garantir o Estado Social, Conquistas de Abril, direitos dos trabalhadores, SNS, educação pública, etc., poderão continuar a iludir alguns, menos atentos ou incapazes de entender o mundo em que vivemos. Para mim, porém, correndo o risco de estar a ver mal, parecem-me apenas guitarras a tocar atrás de um enterro... o da usual qualidade de vida em Portugal. As asneiras dos governantes pagam-se caras e não há almoços grátis. O pagamento é que pode ser em dinheiro ou em géneros.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

DEDUZIR E ADAPTAR-SE QUANTO ANTES

Jornal i, 25/05/2011, página 3 (clique sobre a ilustração para ampliar)

Quem não tiver pachorra, ou carecer de agilidade mental para ler o texto acima reproduzido, evita de fazer esse sacrifício. Basta contentar-se com a chamada de título, que diz o essencial: "Tornou-se evidente que a Grécia, a Irlanda e Portugal não serão capazes de pagar as suas dívidas respectivas na totalidade." Convirá depois ler a assinatura no final: "Prémio Nobel de Economia/The New York Times"
Temos assim que Paul Krugman, prémio Nobel de Economia de 2008, vem confirmar aquilo que aqui escrevemos anteriormente, a saber: há uma quase unanimidade a nível internacional, para afirmar que Portugal será obrigado a reestruturar a sua gigantesca dívida soberana, mais cedo ou mais tarde. Não se trata, por conseguinte, de mera hipótese teórica, mas quase de uma constatação. Sendo assim, mesmo após os três anos de via dolorosa imposta pelo protocolo já assinado com a troika, podemos contar desde já com pelo menos mais 10 ou 15 anos sem qualquer acesso aos mercados, tal como já aconteceu no passado com o México e com a Argentina, por exemplo.
Durante esse longo período que nos vai ser imposto, quer queiramos quer não, o futuro governo, seja ele qual for, terá logo de início de se limitar a fazer chouriços com a pouquíssima carne disponível. Que o mesmo é dizer,  de procurar manter o chamado "Estado Social" na medida do possível em termos orçamentais, arbitrando em permanência entre o essencial e o acessório, mantendo aquele e suprimindo este. São portanto falaciosas, insensatas e perigosas as promessas eleitorais a garantir a manutenção do actual estado de coisas, venham elas de onde vierem. Infelizmente, os técnicos estrangeiros encarregados de nos meter na ordem, não vão consentir que o governo saído das eleições de 5 de Junho insista na usual habilidade lusitana que consiste em fazer charcutaria com carne de porcos comprados a crédito, a qual uma vez comercializada, devido aos sucessivos desvios ocorridos durante o processo produtivo, nem sequer chega para pagar os porcos, quanto mais os juros. Estamos assim lixados com o dinheiro dos porcos, segundo a bem conhecida frase feita.
Forçado a um apertado racionamento e a toda uma série de cortes a nivel nacional, regional e local (serviços, chefias, funcionários, despesas...), o governo disporá de cada vez menos margem de manobra, devido à inevitável redução da receita proveniente de IRC e IRS, provocada pela recessão que já aí está e vai agravar-se. Tenderá pois a reduzir tanto quanto possível as transferências para as autarquias, as quais por sua vez sofrerão também importantes reduções de receitas próprias, em consequência da crescente redução da actividade económica.
Nessa conjuntura, sem liderança, sem estratégia, sem planos, sem vontade nem capacidade para mudar de actuação, o executivo tomarense vai passar um longo mau bocado até 2013, caso consiga resistir até lá. Falando sem rodeios, é até muito provável que a partir de meados de 2012, ou mesmo mais cedo, deixe de haver folga orçamental para assegurar a manutenção e o funcionamento das várias estruturas autárquicas ao serviço dos cidadãos (piscinas, pavilhões, ex-estádio, Cine-teatro, transportes colectivos, parques de estacionamento, limpeza,  autocarros, máquinas, espaços verdes...). Resta esperar para ver. 
Mas escusam os senhores autarcas de continuar a alapar-se aguardando melhores dias. Face às presentes premissas, nos próximos 10/15 anos vai ser sempre a apertar o cinto. Diga o senhor Sócrates aquilo que disser, que palavras leva-as o vento. Afinal também garantiu durante a campanha eleitoral de 2009 que não aumentaria os impostos, para os aumentar logo que se apanhou de novo em S. Bento.
Há mais de 5 séculos, Galileu Galilei teve sérios problemas com a Igreja de então, ao sustentar que a Terra girava à volta do Sol, pelo que não era o centro de tudo, como proclamava o clero. Apesar da proeminência do sagrado sobre o profano e da Cúria Romana sobre as populações, séculos mais tarde o clero acabou por pedir desculpa a Galileu, assim reconhecendo que errara.  A realidade acaba sempre por impôr-se. Aqui fica o aviso.

MALDITA CRISE!!!


Maldita crise de civilização, que não poupa nada nem ninguém! Atento ao que vai pela cidade, pelo país e pelo mundo, andava preocupado com a evidente degradação do ensino em Portugal. Não muito, porém, devo confessar. Julgava, na minha candura angelical, que havia ainda alguns redutos onde o nacional- facilitismo ainda não penetrara. Um último quadrado de resistentes, digamos assim.
Puro engano afinal. Pelo menos a julgar por esta publicidade, oriunda de um dos mais prestigiados estabelecimentos de ensino, aureolado pelos valores castrenses da sua condição militar. Disciplina, amizade e camaradagem, proclamam eles. Pois seja. E esforço, empenhamento, obediência, coragem, audácia, frontalidade... Mas, por todos os santinhos, envidem esforços no sentido de respeitar a Língua Pátria, afinal dos poucos valores comuns que ainda nos restam, nos unem e nos individualizam enquanto falantes. "O IPE forma gerações de alunos com valores como  disciplina, amizade e  camaradagem, que os PREPARAM para a vida..." Não aquela nódoa que lá está, uma vez que, em português, as formas verbais concordam sempre com o sujeito em género e em número. E no caso o sujeito é os = eles = os alunos. Valeu?

COITADOS DOS TURISTAS!!!

Foto 1 Esquina Rua da Costa/Rua Nova, direcção sul-norte
Foto 2 - Esquina Levada/Rua Nova, direcção sul/norte
Foto 3 - Esquina Levada/Rua Nova, direcção norte/sul
Foto 4 - Esquina Rua Infantaria 15/Rua Nova, direcção norte/sul
Foto 5 - Esquina Rua Infantaria 15/ Rua Nova, direcção sul/norte
Foto 6 - Esquina Rua dos Moinhos/Rua Nova, direcção norte/sul
Foto 7 - Esquina Rua dos Moinhos/Rua Nova, direcção sul/norte
Foto 8 - Interior da Sinagoga. Aspecto da parede poente

  Foto 9 - Interior da Sinagoga. Aspecto da parede nascente

Coitados dos turistas! Quando resolvem visitar Tomar, estão longe de supor que os aguarda uma verdadeira penitência, uma versão moderna da Via Dolorosa. Já se assinalou que não existe em toda a cidade uma única indicação para turistas a pé. As  poucas que há tanto podem ser para peões como para automóveis ou autocarros. Os visitantes que pretendem deslocar-se ao Convento a pé, são obrigados a perguntar o caminho aos habitantes, ou a proceder por tentativa e erro.
Em relação aos outros monumentos acontece exactamente o mesmo, com especial enfoque na Sinagoga. Após meses e meses de pedidos, súplicas, requerimentos, reclamações e críticas, a autarquia lá acedeu a mandar colocar duas pequenas indicações em papel ( Fotos 4 e 6). É uma decisão posítiva, que se agradece, todavia muito insuficiente e a denotar que quem supervisionou a coisa não está muito habituado a fazer turismo.
Quem circular pela Rua do Pé da Costa de Baixo não dispõe de qualquer indicação do monumento judaico (foto 1). O mesmo acontece com os visitantes que venham pela Levada  (Fotos 2 e 3). Os transeuntes da Rua Infantaria 15 só vêem a indicação Sinagoga caso venham da Praça da República (Foto 4). Em sentido contrário, nicles. Já houve mas a chuva não perdoou (Foto 5). Mesmo cenário na Rua dos Moínhos. Quem vier da Corredoura vê a indicação (Foto 6); quem vier da Rotunda terá de perguntar ( Foto 7).
Concluído com sucesso o percurso do combatente, o turista vitorioso fica desanimado com o que vê no interior da mais velha Sinagoga do país. Tanto dinheiro europeu, tantos impostos e taxas, tanto subsídio para foguetes, morteiros e excursões "comezaina/tintol/bailarico",  e nem assim há cabimento orçamental para mandar picar, rebocar e pintar duas paredes? (Fotos 8 e 9) Tomar terra de turismo, não é verdade?

terça-feira, 24 de maio de 2011

ENTALADOS PELO ESTADO INSACIÁVEL

Quatro factos díspares merecem referência esta semana: 1 - A Fitch e a Standard & Poor's, agências de notação financeira, avisaram respectivamente a Bélgica e o Itália que, se entretanto nada  fizerem para conter o défice e a dívida pública, sofrerão a curto prazo uma degradação da sua nota financeira; 2 - Falando em Portalegre, Jerónimo de Sousa lastimou que empresas portuguesas sejam praticamente forçadas a mudar-se para Espanha, pois em Portugal os combustíveis, a electricidade, os veículos e o IVA são mais caros, o que lhes retira qualquer hipótese de competitividade; 3 - Francisco Louçã, tem preconizado em sucessivas intervenções a reestruturação da dívida portuguesa; 4 - Um responsável por uma entidade que luta neste momento para sobreviver, conhecido militante de uma formação de extrema-esquerda, procurou conseguir junto de um seu empregado que aceitasse uma transitória redução de horas de trabalho e do respectivo salário, como forma de "tentar aguentar o barco até melhor maré". A resposta foi seca e pronta -"Tenho os meus direitos, que têm de ser respeitados."
Ponto comum a estas quatro ocorrências, o facto de em todas elas haver responsáveis de alguma maneira entalados pelo Estado insaciável entre o possível e o desejável. O aviso à Bélgica e à Itália, na sua aparente banalidade, marca na realidade o início de mais uma etapa na cavalgada do sistema capitalista, rumo a algo por enquanto totalmente desconhecido. Trata-se, com efeito, da primeira vez que "os mercados" implicam com países do núcleo duro da UE - o dos seis fundadores do então Mercado Comum Europeu. Doravante, apenas estão imunes às agências de ratinge com notação AAA, a Alemanha, a França, a Holanda e o Luxemburgo. Sendo do conhecimento geral que França luta com sérias dificuldades para conter o seu défice orçamental, pode-se dizer sem exagero que para a zona euro o futuro não é nada promissor.
Num tal contexto internacional, que evidencia o progressivo aumento das despesas públicas, dos défices e dos impostos cobrados, em concomitância com uma nítida redução e degradação das contrapartidas proporcionadas pelos diversos estados, os líderes políticos dos vários partidos portugueses vêm revelando alguma imaginação para iludir o essencial que, sendo muito desagradável, não dá votos.
Jerónimo de Sousa foi acutilante e justo no caso dos custos de produção em Portugal, mas absteve-se de continuar a raciocínio, que o levaria inevitavelmente à problemática do Estado Social/Estado Insaciável. Ficará quiçá para melhor altura, mas quanto mais tarde pior. Em política os não-ditos raramente beneficiam os seus autores.
Catedrático de economia, Francisco Louçã sabe bem que é inevitável, mais cedo que tarde, a reestruturação da dívida portuguesa.Todos os grandes economistas estrangeiros são dessa opinião. Por isso a vai preconizando em plena campanha eleitoral. Para mais tarde poder dizer "Conforme fui o primeiro a prever..." Infelizmente, faz como o líder da CDU: evita prosseguir o seu raciocínio. Que tipo de reescalonamento? Com prejuízos ou menos-valias potenciais para quem? Com que objectivos? Com que argumentos? Quando?
Finalmente, simpatizante comunista, o supracitado responsável empresarial, sofre agora no seu local de trabalho as consequências daquilo que a CGTP e o PCP vêm defendendo, praticamente desde o 25 de Abril: "Emprego com direitos". No caso em apreço, se calhar o direito de deixar de receber o ordenado, por falta de recursos.
Governantes, líderes partidários, empresários ou simples cidadãos, todos estão agora confrontados com uma crise de grande magnitude, que vai obrigar a escolhas bem dolorosas, tornadas indispensáveis pela repentina e louca aceleração da história. Historiadores económicos e outros economistas conhecem bem uma das grandes contradições inerentes ao desenvolvimento do sistema capitalista: Quanto mais evolui, mais os cidadãos reivindicam medidas de carácter socialista, financiadas pelo Estado (ensino, saúde, alojamento, transportes, cultura, desporto, 3ª idade...). Uma vez que é impossível haver almoços grátis, todo o problema consiste em saber até que ponto estão os contribuintes dispostos a pagar, para que todos possam beneficiar, sendo certo a experiência demonstrar o carácter insaciável da máquina estatal, que quanto mais tem, mais necessita.
Se ao que antecede juntarmos as oportunas evasivas do CDS, PSD e PS, todos adeptos da manutenção das actuais facilidades aos cidadãos por parte do Estado, sem contudo esclarecerem de onde contam vir a obter os fundos indispensáveis, não só ao seu funcionamento eficaz, mas também à absorção dos gigantescos défices já existentes; se aditarmos outrossim a doutrina Schumpeter da "destruição criadora"; teremos de concluir que após 5 de Junho vamos mesmo ser obrigados a mudar de vida, como não se cansa de recomendar Cavaco Silva.
Cá por coisas, eu se fumasse, se tivesse telemóvel, TV Cabo, SportTV ou MEO, se tomasse o pequeno almoço no café, se costumasse ir ao futebol,  se andasse na vida nocturna, se tivesse a prestação da casa para pagar ou dívidas do cartão de crédito e outras...procuraria quanto antes abster-me de todas essas coisas. Os tempos que se avizinham vão ser duros, agrestes e dolorosos. Durante largos anos. E o pior ainda está para vir.