Quatro factos díspares merecem referência esta semana: 1 - A Fitch e a Standard & Poor's, agências de notação financeira, avisaram respectivamente a Bélgica e o Itália que, se entretanto nada fizerem para conter o défice e a dívida pública, sofrerão a curto prazo uma degradação da sua nota financeira; 2 - Falando em Portalegre, Jerónimo de Sousa lastimou que empresas portuguesas sejam praticamente forçadas a mudar-se para Espanha, pois em Portugal os combustíveis, a electricidade, os veículos e o IVA são mais caros, o que lhes retira qualquer hipótese de competitividade; 3 - Francisco Louçã, tem preconizado em sucessivas intervenções a reestruturação da dívida portuguesa; 4 - Um responsável por uma entidade que luta neste momento para sobreviver, conhecido militante de uma formação de extrema-esquerda, procurou conseguir junto de um seu empregado que aceitasse uma transitória redução de horas de trabalho e do respectivo salário, como forma de "tentar aguentar o barco até melhor maré". A resposta foi seca e pronta -"Tenho os meus direitos, que têm de ser respeitados."
Ponto comum a estas quatro ocorrências, o facto de em todas elas haver responsáveis de alguma maneira entalados pelo Estado insaciável entre o possível e o desejável. O aviso à Bélgica e à Itália, na sua aparente banalidade, marca na realidade o início de mais uma etapa na cavalgada do sistema capitalista, rumo a algo por enquanto totalmente desconhecido. Trata-se, com efeito, da primeira vez que "os mercados" implicam com países do núcleo duro da UE - o dos seis fundadores do então Mercado Comum Europeu. Doravante, apenas estão imunes às agências de ratinge com notação AAA, a Alemanha, a França, a Holanda e o Luxemburgo. Sendo do conhecimento geral que França luta com sérias dificuldades para conter o seu défice orçamental, pode-se dizer sem exagero que para a zona euro o futuro não é nada promissor.
Num tal contexto internacional, que evidencia o progressivo aumento das despesas públicas, dos défices e dos impostos cobrados, em concomitância com uma nítida redução e degradação das contrapartidas proporcionadas pelos diversos estados, os líderes políticos dos vários partidos portugueses vêm revelando alguma imaginação para iludir o essencial que, sendo muito desagradável, não dá votos.
Jerónimo de Sousa foi acutilante e justo no caso dos custos de produção em Portugal, mas absteve-se de continuar a raciocínio, que o levaria inevitavelmente à problemática do Estado Social/Estado Insaciável. Ficará quiçá para melhor altura, mas quanto mais tarde pior. Em política os não-ditos raramente beneficiam os seus autores.
Catedrático de economia, Francisco Louçã sabe bem que é inevitável, mais cedo que tarde, a reestruturação da dívida portuguesa.Todos os grandes economistas estrangeiros são dessa opinião. Por isso a vai preconizando em plena campanha eleitoral. Para mais tarde poder dizer "Conforme fui o primeiro a prever..." Infelizmente, faz como o líder da CDU: evita prosseguir o seu raciocínio. Que tipo de reescalonamento? Com prejuízos ou menos-valias potenciais para quem? Com que objectivos? Com que argumentos? Quando?
Finalmente, simpatizante comunista, o supracitado responsável empresarial, sofre agora no seu local de trabalho as consequências daquilo que a CGTP e o PCP vêm defendendo, praticamente desde o 25 de Abril: "Emprego com direitos". No caso em apreço, se calhar o direito de deixar de receber o ordenado, por falta de recursos.
Governantes, líderes partidários, empresários ou simples cidadãos, todos estão agora confrontados com uma crise de grande magnitude, que vai obrigar a escolhas bem dolorosas, tornadas indispensáveis pela repentina e louca aceleração da história. Historiadores económicos e outros economistas conhecem bem uma das grandes contradições inerentes ao desenvolvimento do sistema capitalista: Quanto mais evolui, mais os cidadãos reivindicam medidas de carácter socialista, financiadas pelo Estado (ensino, saúde, alojamento, transportes, cultura, desporto, 3ª idade...). Uma vez que é impossível haver almoços grátis, todo o problema consiste em saber até que ponto estão os contribuintes dispostos a pagar, para que todos possam beneficiar, sendo certo a experiência demonstrar o carácter insaciável da máquina estatal, que quanto mais tem, mais necessita.
Se ao que antecede juntarmos as oportunas evasivas do CDS, PSD e PS, todos adeptos da manutenção das actuais facilidades aos cidadãos por parte do Estado, sem contudo esclarecerem de onde contam vir a obter os fundos indispensáveis, não só ao seu funcionamento eficaz, mas também à absorção dos gigantescos défices já existentes; se aditarmos outrossim a doutrina Schumpeter da "destruição criadora"; teremos de concluir que após 5 de Junho vamos mesmo ser obrigados a mudar de vida, como não se cansa de recomendar Cavaco Silva.
Cá por coisas, eu se fumasse, se tivesse telemóvel, TV Cabo, SportTV ou MEO, se tomasse o pequeno almoço no café, se costumasse ir ao futebol, se andasse na vida nocturna, se tivesse a prestação da casa para pagar ou dívidas do cartão de crédito e outras...procuraria quanto antes abster-me de todas essas coisas. Os tempos que se avizinham vão ser duros, agrestes e dolorosos. Durante largos anos. E o pior ainda está para vir.