quarta-feira, 25 de maio de 2011

DEDUZIR E ADAPTAR-SE QUANTO ANTES

Jornal i, 25/05/2011, página 3 (clique sobre a ilustração para ampliar)

Quem não tiver pachorra, ou carecer de agilidade mental para ler o texto acima reproduzido, evita de fazer esse sacrifício. Basta contentar-se com a chamada de título, que diz o essencial: "Tornou-se evidente que a Grécia, a Irlanda e Portugal não serão capazes de pagar as suas dívidas respectivas na totalidade." Convirá depois ler a assinatura no final: "Prémio Nobel de Economia/The New York Times"
Temos assim que Paul Krugman, prémio Nobel de Economia de 2008, vem confirmar aquilo que aqui escrevemos anteriormente, a saber: há uma quase unanimidade a nível internacional, para afirmar que Portugal será obrigado a reestruturar a sua gigantesca dívida soberana, mais cedo ou mais tarde. Não se trata, por conseguinte, de mera hipótese teórica, mas quase de uma constatação. Sendo assim, mesmo após os três anos de via dolorosa imposta pelo protocolo já assinado com a troika, podemos contar desde já com pelo menos mais 10 ou 15 anos sem qualquer acesso aos mercados, tal como já aconteceu no passado com o México e com a Argentina, por exemplo.
Durante esse longo período que nos vai ser imposto, quer queiramos quer não, o futuro governo, seja ele qual for, terá logo de início de se limitar a fazer chouriços com a pouquíssima carne disponível. Que o mesmo é dizer,  de procurar manter o chamado "Estado Social" na medida do possível em termos orçamentais, arbitrando em permanência entre o essencial e o acessório, mantendo aquele e suprimindo este. São portanto falaciosas, insensatas e perigosas as promessas eleitorais a garantir a manutenção do actual estado de coisas, venham elas de onde vierem. Infelizmente, os técnicos estrangeiros encarregados de nos meter na ordem, não vão consentir que o governo saído das eleições de 5 de Junho insista na usual habilidade lusitana que consiste em fazer charcutaria com carne de porcos comprados a crédito, a qual uma vez comercializada, devido aos sucessivos desvios ocorridos durante o processo produtivo, nem sequer chega para pagar os porcos, quanto mais os juros. Estamos assim lixados com o dinheiro dos porcos, segundo a bem conhecida frase feita.
Forçado a um apertado racionamento e a toda uma série de cortes a nivel nacional, regional e local (serviços, chefias, funcionários, despesas...), o governo disporá de cada vez menos margem de manobra, devido à inevitável redução da receita proveniente de IRC e IRS, provocada pela recessão que já aí está e vai agravar-se. Tenderá pois a reduzir tanto quanto possível as transferências para as autarquias, as quais por sua vez sofrerão também importantes reduções de receitas próprias, em consequência da crescente redução da actividade económica.
Nessa conjuntura, sem liderança, sem estratégia, sem planos, sem vontade nem capacidade para mudar de actuação, o executivo tomarense vai passar um longo mau bocado até 2013, caso consiga resistir até lá. Falando sem rodeios, é até muito provável que a partir de meados de 2012, ou mesmo mais cedo, deixe de haver folga orçamental para assegurar a manutenção e o funcionamento das várias estruturas autárquicas ao serviço dos cidadãos (piscinas, pavilhões, ex-estádio, Cine-teatro, transportes colectivos, parques de estacionamento, limpeza,  autocarros, máquinas, espaços verdes...). Resta esperar para ver. 
Mas escusam os senhores autarcas de continuar a alapar-se aguardando melhores dias. Face às presentes premissas, nos próximos 10/15 anos vai ser sempre a apertar o cinto. Diga o senhor Sócrates aquilo que disser, que palavras leva-as o vento. Afinal também garantiu durante a campanha eleitoral de 2009 que não aumentaria os impostos, para os aumentar logo que se apanhou de novo em S. Bento.
Há mais de 5 séculos, Galileu Galilei teve sérios problemas com a Igreja de então, ao sustentar que a Terra girava à volta do Sol, pelo que não era o centro de tudo, como proclamava o clero. Apesar da proeminência do sagrado sobre o profano e da Cúria Romana sobre as populações, séculos mais tarde o clero acabou por pedir desculpa a Galileu, assim reconhecendo que errara.  A realidade acaba sempre por impôr-se. Aqui fica o aviso.

14 comentários:

Anónimo disse...

Fico feliz por ver que aderiu à teoria de F.Louça.
Afinal ainda vai votar na dupla Coelho/Relvas?

Anónimo disse...

A Europa vai impludir.
A Alemanha trocou o aprofundamento do projecto europeu pelo alargamento a leste. Era mais rentável para a economia germânica. Mas foi o princípio do fim. Deixou a Moeda Única refém do motor industrial de um único país. Perdeu-se a coesão europeia. E convém não esquecer que o motor da máquina alemã não suporta tudo. Está à beira do colapso. Será o fim?...
Helmut Kohl colocou o dedo na ferida no discurso da semana passada. Faltam líderes à Europa. E falta à Alemanha quem se lembre das bases do projecto europeu. As pessoas têm a memória curta. Já não se lembram dos horrores da guerra. Das lutas de fronteira no velho continente. Há mesmo quem coloque em causa Aushwitz...

António Rebelo disse...

Para comentário das 00:46

Onde é que foi pescar essa de que aderi à teoria do Louçã? Note que, se fosse o caso, não seria assim tão surpreendente. Afinal, a mãe da minha filha, foi uma das fundadoras da 4ª Internacional, juntamente com Krivine, Geissmar, Bensaïd, Chisserey e Weber, os ícones de qualquer trotzkista como o Chico. Mas não é o caso, nem lá perto.
O que aqui escrevi foi que até Louçã já propõe a reestruturação da nossa dívida soberana, na sequência de idêntica posição praticamente unânime entre os grandes economistas estrangeiros, conquanto não esclareça que tipo de reestruturação.
Se isto é aderir à teoria do Louçã, então o Quim Barreiros canta música erudita.
Claro que vou votar PSD, porque estou farto dos malabarismos do sr. Sócrates que, se tivesse vergonha na cara, uma vez que afirmou não governar com o FMI, já devia ter feito como o Sapatero. Mas esse é asturiano de uma só cara. E nunca passou de Sapatero...

Anónimo disse...

Ah! O A. Rebelo perdeu a esquerda!!! Virou à direita, para o PSD mais liberal desde sempre!
Neo, a bem dizer...as voltas do Mundo...

Anónimo disse...

Chamar a este PSD de liberal é um erro de visão. Este PSD é um gabinete de apoio à vida de alguns.
Ângelo Correia, o grande apoio no lançamento de Passos Coelho, desapareceu e tem-lhe feito muitas críticas.
Mira Amaral, apareceu na campanha mas, em entrevista ao Expresso, criticou o PSD sobre a rejeição do TGV, e disse que está farto de avisar o PSD, mas este não aprende.
Ontem, em Viseu, no cavaquistão, o comício do PSD teve de fazer horas para ter a Praça mais composta, estava vazia. Este PSD não mobiliza.
Querer, como pretende este PSD, resolver os problemas nacionais cortando em tudo é não ensinar o necessitado a pescar e é tirar-lhe o peixe.
A opinião pública vive estas eleições como se não houvesse um programa imposto pela "troika". O que os políticos dizem e os programas eleitorais não valem nada, e, como diz PaulKrugman, a austeridade é para matar Portugal. Portugal terá de ser dividido em seis regiões, e acabar.
Depois das eleições os partidos entendem-se e quem paga é o mexilhão.
Sócrates não pediu ajuda mais cedo à "troika". Não podia. Só podia fazer depois das eleições presidenciais, antes havia o perigo de lançar o país no caos, e faltava o PR para controlar a situação. O Governo português, Passos Coelho e a oposição não actuaram sózinhos, actuaram em conjunto com a UE, BCE e FMI. Tudo o mais são disparates eleitorais.
Militante do PSD com as quotas em dia.

Cantoneiro da Borda da Estrada disse...

O Sr. "Militante do PSD com as cotas em dia", diz muitas coisas verdadeiras, mas termina como qualquer militante do BE ou PCP: junta o PS no mesmo embrulho... E não tem razão. Mas a si compreendo-o.

O mesmo não acontece com os votantes daqueles dois partidos que ainda não perceberam, ao contrário do que acontece com a direita, o que está em disputa nestas eleições.

É o cambate político mais feroz dos últimos 37 anos entre direita e esquerda, entre futuro e passado. Tenho idade e experiência para estar certo disto.

E quem é de esquerda, mesmo que lhe doa a consciência, devia votar José Sócrates nestas eleições.

Sou um homem de esquerda em conflito com todos os partidos de esquerda portuguesa, polvilhados de oportunistas - é verdade! Mas não sou tolo nem irresponsável, nem me deixo embalar em conversa mole:

Vou votar em José Sócrates! Para o PM ser de esquerda.

O meu Zézito incarna, neste momento, a esquerda portuguesa. O resto são histórias da carochinha -quiça pornografia política para masturbação intelectual; porventura receio de perder estatuto de pertença a um bando.

O meu bando é o povo português de que me orgulho de fazer parte.

SOBRE O TEXTO DE PAUL KRUGMAN:

Lido o texto, concluo que José Sócrates tinha toda a razão: investimento nas grandes obras, na ciência, na educação, novas tecnologias) cuidado na redução da despesa (por etapas, bem planeada- o único que reduziu em 75.000 o nr. de f. públicos, a concentração das unidades de saúde, melhores, etc.). E tinha ganho a cumplicidade da UE na resolução da nossa dívida pública, com juros semelhantes, no caso do PEC IV. Cumplicidade, note-se. Estava agarrada.

Ainda ontém o economista Beleza do PSD disse isso mesmo. Teria sido melhor aprovar o PEC IV.

Mas o PSD actual tem um arrebanhador de bandos épicos (M.Relvas) e um líder que não passa de um "Farsolas" (como muito bem disse o outro).

Admiro... o gozo de muita gente de esquerda pelo processo conducente a um auto-de-fé contra José Sócrates, usando o mesmo tipo de estratagemas que utilizava a Inquisição portuguesa quando queria confiscar bens a alguém - neste caso é o poder.

Anónimo disse...

"
Ângelo Correia, o grande apoio no lançamento de Passos Coelho, desapareceu e tem-lhe feito muitas críticas.
"

Iso é apenas uma cortina de fumo. Angelo Correia tem estado a preparar os dossiês de privarização de algumas empresas públicas que lhe interessam.
Pergunte ao seu amigo A.Paiva que também anda metido nesses negócios.
É fartar vilanagem...

Anónimo disse...

"
Sócrates não pediu ajuda mais cedo à "troika". Não podia. Só podia fazer depois das eleições presidenciais, antes havia o perigo de lançar o país no caos, e faltava o PR para controlar a situação. O Governo português, Passos Coelho e a oposição não actuaram sózinhos, actuaram em conjunto com a UE, BCE e FMI. Tudo o mais são disparates eleitorais.
Militante do PSD com as quotas em dia.
"

De facto quando é que estes políticos da treta são honestos connosco e explicam que a ajuda do FMI/UE/BCE apenas foi solicitada quando acordada por todas as partes.
Poucos saberão que o Ecofin (UE) foi uma das principais forças contra o pedido de resgate de Portugal. Não lhes dava jeito... não dava jeito ao Euro,... não dava jeito à Alemanha,...
Assim, é preciso de uma vez por todas dizer que nós não somos mais do que meras marionetas no xadrez financeiro mundial. Empurrados para a crise pela estranha conjugação de interesses europeus e desleixo nacional.
Contudo mesmo se tivessemos batido o pé as coisas não seriam de outra forma...

António Rebelo disse...

Para o amigo Cantoneiro:

Diz o nosso povo que o amor é cego, pelo que quem o feio ama, bonito lhe parece. Na mesma linha, depreende-se dos seus comentários que, em política, quem o execrável ama, excelente lhe parece. É pena,pois nos casos de manifesta escolha pouco racional, é sempre útil lembrar o Variações: Quando a cabeça não tem juízo, o corpo é que as paga. Cá estarei para ver quem está equivocado...porque é impossível termos ambos razão.

Anónimo disse...

Votava PSD até o Governo de Durão Barroso/Santana Lopes ter contribuído de forma decisiva para a minha entrada no desemprego. Com 55 anos jamais reencontrei emprego em Portugal. Ultimamente tenho ido ao estrangeiro de quando em quando. Geralmente por períodos de 6 meses ao ano.
Hoje sei que não vou votar no PSD.

Não sei se com sÓCRATES, Portugal estava no caminho certo, mas tinha um rumo. Com Passos Coelho iremos regredir 30 anos. Ficaremos mais perto de 24 de Abril. Alguns ficarão felizes. Eu que sou um pouco mais novo que A.Rebelo não. Será que ele esqueceu porque lutou no passado?...
Entre PS e PSD parece-me que o mal menor é o PS.
Como diz um velho conhecido, se calhar prefiro um governo de bananas liderado por um aldrabão, do que um governo de aldrabões liderado por um banana...

Anónimo disse...

Eu tb irei votar em Passos Coelho.
Estou contra os abortos que nos têm governado!...

Anónimo disse...

Meu caro Cantoneiro da borda de estrada, lamento desiludi-lo mas não me compreende.
Embora militante do PSD vou votar pelo mal menor, é um princípio ético. Vou votar no José Sócrates, como em 2005 votei nele para evitar que o Santana Lopes continuasse no disparate (insinuam alguns no PSD que a Manuela Ferreira Leite também teria feito a mesma opção ética).Entre Sócrates e os que acompanham, com experiência governativa, e o Passos Coelho/Relvas sem experiência governativa e a julgarem que é destruindo que resolvem os problemas, não há que duvidar, escolhe-se o mal menor: Sócrates & Cª. Repare-se que até o Paulo Portas, hoje à esquerda do PSD, defende que não se deve privatizar de qualquer maneira; Portas sabe o que é o interesse nacional, Coelho e Relvas desconhecem Portugal e querem vender o resto ao estrangeiro.
É possível que o Ângelo Correia ande a pensar nas privatizações, sabe-se que ele está muito ligado a interesses internacionais; o sector da água e do ambiente é do seu interesse. O Relvas também está ligado aos brasileiros, que vão aproveitar as empresas a preço de saldo em Portugal para comprarem. Mas outros poderes mais altos se levantam...
A luta mais furiosa entre esquerda direita é ilusória. A esquerda é igual à direita. Seria bom saber quais os interesses que estão por detrás de alguns partidos de esquerda moderada e da mais radical: quantas multinacionais e bancos eram controladas pela União Soviética e pelos seus satélites, e hoje são controladas pelo substituto do KGB?
Leiam os livros sobre o grupo de Bilderberg, e vejam, em 2005, dias antes das eleições, o Sócrates com o António Guterres numa das reuniões dos donos do mundo.
Portugal é para acabar, e os portugueses para serem escravizados.
Militante do PSD com as quotas em dia.

Cantoneiro da Borda da Estrada disse...

Sr. "Militante do PSD com as cotas em dia",

Agradeço sua resposta, que li com máxima atenção. A sua análise deixa transparecer alguém que coloca em primeiro lugar o interesse do país, do coletivo.

Estou seguro que não acredita sinceramente no que diz nas últimas 2 linhas do seu comentário.

Ninguém suportaria os portugueses como escravos. Às tantas estavam casados com os filhos dos esclavagistas, amantizados com os seus cônjuges e assim lhes confiscariam o poder e os bens...

Como último recurso crivavam-nos de navalhadas e facadas enquanto lhes serviam a sopa, contaminavam as suas bebidas com veneno, minavam-lhes as camas, rachavam-lhes a cabeça à machadada. Porque acha que os grandes senhorios de terras do centro-norte deram lugar ao intenso minufúndio?... Há bastantes anos li um livro numa biblioteca pública onde se contavam histórias destas, como uma (entre outras) das razões da sua existência.

Quanto à dívida pública..., é para pagar aos bochechos - vai ver!

Só perde quem tem - diz o nosso povo.

(estou a brincar)

Anónimo disse...

Para Cantoneiro da borda de estrada.
Gostei do seu sentido de humor.
Temos de ser críticos para com os portugueses. Mas eles não aprendem.