domingo, 22 de maio de 2011

ISOLADOS, PACATOS, CONSERVADORES E INFELIZES

Le monde, 22/05/11, pág. 24

Geograficamente isolados da Europa pela Espanha e dos outros continentes pelo Atlântico, os tomarenses acostumaram-se a viver como que virados para dentro, alheados dos outros. Atitude que resulta também da informação a que vão tendo acesso. Cada vez mais abundantes, as notícias e reportagens informam porém cada vez menos, devido à geral formatação de televisões castradas e jornais, senão amestrados, pelo menos muito limitados pelos seus meios, tanto materiais como humanos, sabido como é que aqueles condicionam sempre fortemente estes.
Assim isolados pela envolvência mediática, em grande parte ainda, produto acabado de 48 anos de regime fechado, os meus concidadãos, que pouco daqui saem, são em geral pacatos, conservadores e infelizes. No seu limitadíssimo universo mental, consequência lógica do posicionamento físico acabado de expor, de forma sucinta, a mudança de conceitos, a tolerância, a fraternidade, o respeito pelas ideias do semelhante, são tudo coisas fora do âmbito normal do homo tomarensis.
Toda esta conversa prévia (circunloquial ou introdutória, para os lexicalmente mais refinados) para tentar enquadrar o caso daqueles leitores que, fazendo-nos o favor (ao Sebastião Barros e a mim próprio) de ler regularmente o que por aqui se vai garatujando, se recusam contudo a aceitar certas coisas aqui escritas, apesar da sua universalidade. É o caso das sondagens. De cada vez que aqui fazemos um inquérito visando apurar a opinião dos leitores -uma sondagem, portanto- dois ou três comentadores apressam-se a protestar em termos agrestes, alegando tratar-se de uma manipulação, asseverando que a amostra não é representativa, garantindo que os internautas podem votar mais do que uma vez...e mais o diabo a sete.
Pois bem, como decerto o leitor já deduziu, a partir da ilustração supra, aqui temos um exemplo que vem deitar por terra toda a usual parafernália nabantina contra a evolução societal:

"Recordações hoteleiras"

"A sondagem publicada na passada quarta-feira, 18 de Maio, pela agência de viagens on line Lastminute.com, sobre os hábitos hoteleiros dos franceses, não se destinava propriamente a impressionar as redacções. A sua metodologia, com só 258 internautas interrogados entre 15 e 25 de Abril, ia mais no sentido de a arquivar imediatamente no classificador redondo, dada a sua representatividade sujeita a caução.
Pois, mas eis que entretanto aconteceu o "caso DSK". E uma sondagem revelando que 9% dos homens interrogados confessam ter arrastado a asa ao pessoal hoteleiro, tendo 2% conseguido mesmo ter uma aventura com um dos empregados assediados, aqui temos algo que não pode deixar de chamar a atenção.
E que mais se fica a saber com a leitura desta sondagem rápida sobre o comportamento dos nossos concidadãos, aquando das suas deslocações hoteleiras? Que 11% da clientela masculina costuma visionar filmes pornográficos, contra apenas 1% para a clientela feminina. 
Só um por cento das meninas e senhoras admite insinuar-se perante a criadagem hoteleira, para igualmente 1% que já teve pelo menos uma relação sexual com um empregado da indústria hoteleira. "Uma diferença acentuada entre homens e mulheres" (sic), que levou os inquiridores de Lastminute.com a interrogar-se: "Será que os homens se interessam mais pela coisa? Os os interrogados foram simplesmente mais francos?"
Ficamos também a saber, graças à leitura deste estudo, que "um número bastante reduzido de clientes reconhece recorrer ao hotel para algo mais que dormir..." E em que consiste esse "algo mais"? Encontros amorosos para 1% do homens e 2% das mulheres que responderam ao inquérito.
Mas não se trata, porém, das únicas atitudes inconfessáveis. Quase 7% dos internautas interrogados admitem levar do quarto algumas recordações: roupão, toalha de banho, chinelos e até colchas. Dois em cada três clientes até desembaraçam a casa de banho de todas as amostras de toilette (champô, sabonete, lima de unhas). Um "vício" qualificado pelo inquérito como "tipicamente feminino".


François Bostnavaron, Le Monde, 22/05/2011, página 24


E aqui temos como os profissionais de um jornal que é considerado "a bíblia" da informação francesa, não vêem qualquer inconveniente em apelidar de sondagem, estudo ou inquérito  uma auscultação via Internet de 258 pessoas, para um universo de 65 milhões de franceses, começando naturalmente por assinalar "a sua representatividade sujeita a caução". Só aqui, neste bendito Vale do Nabão, cheio de mazelas e quase em estado terminal em termos económicos, é que, perante inquéritos com uma centena de respostas obtidas para um universo de apenas 45 mil habitantes, como todos aqueles que temos levado a efeito, chovem logo raios e coriscos. Estamos realmente muito atrasadinhos! Para não dizer mais...

3 comentários:

Anónimo disse...

Rebelo e a imprensa cor-de-rosa...

António Rebelo disse...

Para comentário das 14:58

É uma opinião. Mas olhe que em mais de 40 anos que levo como leitor do Le Monde, trata-se da primeira vez que alguém o classifica como imprensa cor-de-rosa...

Anónimo disse...

Imprensa cor-de-rosa...
Nova Gente, VIP, TV-Mais, TV7Dias, TV-Guia, Máxima, Cosmopolitan, ... Diário Económico, OJE, suplementos de economia do SOL, Diário de Notícias, Público, Expresso, El País, Le Monde, Finantial Times,...