HOJE ELES, AMANHÃ NÓS...
Redacção de Tomar a dianteira
Os cidadãos que não pertencem ao vasto universo dos que conhecem zero de economia política (ou de macroeconomia, se quisermos ser mais convencionais), há muito que sabem vir a ser necessário, no mínimo, acabar com o 13º e o 14º mês. Só não sabem é quando tal será inevitável. Talvez porque, à excepção dos sádicos e dos masoquistas, ninguém gosta de más notícias, esta questão dos vencimentos e salários tem sido e é ainda tabu em quase todos os países. Para dar apenas um exemplo, um nosso companheiro aqui da redacção, que se considera geralmente bem informado, lendo quase tudo o que lhe vem à mão, nada sabia no entanto sobre acontecimentos capitais, apenas hoje revelados pelo diário francês LE MONDE, a três colunas na primeira página: "Função pública: a Europa põe fim ao tabu dos vencimentos." Já no interior, na página 7 - Europa, acrescenta: "Perante a crise vários países europeus reduzem os vencimentos dos funcionários".
De acordo com a mesma notícia, veiculada pela redacção europeia do jornal, em Bruxelas, a Irlanda decidiu , no passado dia três de Fevereiro, contra a opinião de todos os sindicatos, reduzir em mais de 7% os vencimentos de todos os funcionários públicos, graças a um aumento obrigatório do desconto para a Caixa de Aposentações. Já antes, em Janeiro passado, a Letónia procedeu à redução em 15% dos rendimentos de todos os funcionários públicos, condição imposta tanto pelo Fundo Monetário Internacional como pelo Banco Central Europeu, para auxiliar economicamente aquele pais do norte europeu. A Hungria, por seu lado, igualmente submetida a medidas de austeridade exigidas pelo FMI e pelo BCE, decidiu acabar com o 13º mês, enquanto a Roménia vai ser obrigada a seguir o mesmo tratamento, caso os 27 a decidam ajudar, como parece ser o mais provável.
De acordo com o LE MONDE, o movimento pode ter um efeito bola de neve, caso a crise continue a agravar-se, tanto fora como no seio da zona euro. Numa recente visita de trabalho a Dublin (Irlanda), o presidente do BCE, Jean-Claude Trichet, apelou aos governos europeus para que "prossigam com políticas corajosas de redução de despesas, particularmente na área dos vencimentos do funcionalismo." Acrescentou que, no seu entender e do BCE, a Irlanda e todos os países da zona euro, que beneficiaram de uma expansão rápida nos últimos anos, têm todo o interesse em baixar os vencimentos e salários, como forma de recuperar alguma competitividade perdida, deixando de viver acima dos recursos disponíveis, como tem sido o caso. "A acumulação de perdas relativas de competitividade e de desiquilíbrios orçamentais, torna necessário, mais tarde ou mais cedo, um movimento de correcção."
Ainda de acordo com o jornal francês que temos vindo a citar, o FMI e o Banco Central Europeu impõem a redução de vencimentos, salários e despesa pública, como condição prévia para auxiliarem qualquer país em dificuldade, dentro da União Europeia ou fora dela. Esta exigência faz com que a Polónia, que actualmente conhece graves problemas orçamentais, continue a hesitar, antes de ser forçada a solicitar a ajuda daquelas entidades internacionais. Na Irlanda, com um défice igual a 10% do PIB, a redução já referida provocou uma manifestação de 120 mil funcionários, coisa nunca vista num país de menos de 5 milhões de habitantes, enquanto que na Letónia, a citada redução de 15% em todos os vencimentos desencadeou uma vaga de manifestações em Riga, a capital, na sequência das quais o governo apresentou a sua demissão.
No que concerne às duas grandes potências dos 27, a Alemanha e a França, por enquanto a questão dos vencimentos e salários ainda não se coloca. Convém, todavia, anotar que os governos estaduais germânicos estão a braços com uma grave carência de professores, essencialmente provocada por vencimentos menos atractivos, quando relacionados com as habilitações requeridas. Segundo a Federação Alemã dos Professores (DL) há actualmente naquele país 20 mil lugares vagos na docência, por falta de candidatos para os preencher.
Ainda na Europa e no domínio da economia e da crise, soube-se agora em Bruxelas que o Estado do Vaticano foi chamado à pedra pelo Banco Central Europeu, pois andava a emitir demasiadas moedas com o rosto de João Paulo II, destinadas exclusivamente a coleccionadores, como forma de equilibrar as sua finanças, fortemente atingidas pela baixa da moeda americana em relação ao euro. Fontes fidedignas falam de um défice de 7 milhões de euros, em 2007, provocado principalmente pelo facto de as receitas serem sobretudo provenientes dos USA, sendo as despesas quase todas em euros. Caso para exclamar, com cara muito séria - Até o Papado Senhor??!!
Entretanto, tanto no país como aqui nas margens do Nabão, seria conveniente meditar um pouco no facto de todos estes acontecimentos terem ocorrido sem que a comunicação social (nacional, regional ou local) a eles tenha feito qualquer referência. Porque será? Não deve ter sido por haver três eleições. Ou estamos a ser ingénuos?
Seria igualmente desejável que os candidatos já anunciados, bem como os que tencionam vir a fazê-lo, procedessem a um cuidadoso inventário das suas qualidades, defeitos e lacunas, de forma a compreenderem atempadamente se, REALMENTE, têm ou não fôlego e "pé marítimo" para as tempestades que aí vêm. Depois das eleições será demasiado tarde e a realidade nunca perdoa. Tal como na música, ou em qualquer outra área, o improviso é só para os consagrados. E mesmo assim...