terça-feira, 4 de outubro de 2011

O Mundo onde estamos e a terra onde vivemos

Copiado do Le Monde,  04/10/2011, página 22. Fontes indicadas à direita da ilustração, na vertical.

Dois tipos de informação nesta ilustração, que acompanhava um artigo de Michel Rocard, ex-primeiro-ministro socialista, intitulado "Um sistema bancário a repensar". Em cima, o chamado planisfério das dívidas - Notação financeira segundo a agência Standard & Poor's (taxa exterior). Do lado esquerdo, na vertical, as diferentes classificações, a procurar depois no mapa. De cima para baixo, Segurança máxima, Alta ou boa qualidade, Qualidade média, Qualidade média inferior, Especulativo/Lixo, Altamente especulativo/Lixo, Bancarrota.
Em baixo, a violeta, a estimativa da dívida pública em 2010 e a cinzento a previsão da taxa de inflação.
Tendo em conta os dois conjuntos, verificamos que Portugal está muito bem acompanhado em ambos os casos, com notação de BBB-, como o Brasil, a Rússia, o México, a Indía ou a Polónia; dívida pública percentualmente inferior à da Itália, dos Estados Unidos e do Japão, e taxa de inflação inferior à da Espanha, por exemplo. O nosso grande problema tem assim duas vertentes: estamos na zona euro e não crescemos economicamente. Dado que continuamos a importar mais do que exportamos, o nosso défice vai-se agravando, e para o financiar recorre-se à divida, que vai indo por aí acima, com encargos cada vez mais gravosos. Junte-se a isto um estado voraz, gastador e mastodôntico, e temos a nossa angustiante realidade.
Mutatis mutandis, exactamente aquilo que acontece em Tomar. Por causas nunca capazmente averiguadas, a autarquia nabantina virou-se para as obras de espavento, confundindo despesas com investimentos e recorrendo ao endividamento sem conta, nem peso, nem medida. Haja dinheiro, que alguém há-de pagar. Uma vez que as receitas são cada vez menos, devido não só ao agravamento da crise, mas igualmente em virtude das cada vez piores condições facultadas aos potenciais investidores, bem como aos comerciantes e industriais já instalados, o passivo municipal aumenta como ventre de mulher grávida. Sabedores de tão anómalo comportamento e da ausência de objectivos claros a médio e longo prazo, os bancos não tardaram a cavalgar a ocasião. Os dois empréstimos aprovados na sexta-feira passada pela AM vão pagar juros da ordem dos 10% o que, tendo em conta a previsível taxa de inflação, inferior a 3%, representa para eles um lucro ilíquido do 7%. Nada mau, nos tempos que correm. Para a banca, bem entendido!
Quem não estará nada contente são os empresários da região, já com dificuldades quase intransponíveis para obter crédito bancário, as quais, a partir de agora, com as condições aceites pela câmara, só podem piorar. Num quadro de geral penúria, o total cedido à autarquia já não poderá ir para o sector que produz valor acrescentado, gerando contribuições e impostos.
Por outro lado, uma vez que, pouco confiantes, os bancos não emprestam uns aos outros e os fundos cedidos pelo BCE são cada vez menos, o futuro adivinha-se bem difícil. Para todos, incluindo a autarquia. Os próximos e inevitáveis empréstimos só muito dificilmente terão spreads inferiores a 7,5 ou 8%. Porque a banca sabe que a autarquia não pode prescindir deles...
Claro que os senhores autarcas continuarão a garantir nada terem a ver com a crise, acusando de catastrofismo crónico quem escreve estas linhas.Trata-se exactamente do mesmo tipo de resposta que usam os alcoólicos, quando alguém tenta alertá-los para a necessidade de abandonarem a bebida. Dizem logo que é moralismo beato. Tempos depois, acabam em geral por morrer de cirrose hepática. Quanto aos políticos aboletados à mesa do orçamento, esses nem sequer morrem de vergonha, pois é coisa que manifestamente não têm. Caso tivessem, iam-se quanto antes e enquanto ainda é tempo. Porque se algum dia os tomarenses chegam a dar-se conta do que lhes estão de facto a fazer, a coisa pode até não acabar nada bem. Aqui fica o alerta, como sempre apenas para memória futura. 
Conforme reza o conhecido provérbio -"Dá tempo ao tempo, que o tempo dar-te-á todas as respostas."

TOTOBOLA POLÍTICO TOMARENSE

Volta a registar-se alguma excitação na usual pasmaceira política local. Sobretudo nas hostes do PSD e respectivos apaniguados. Mais uma vez, corre com insistência nos mentideros estar para breve a renúncia do senhor alcaide, seguida da ascensão do seu vice, como não pode deixar de ser. A menos que este também renunciasse, numa prova de evidente realismo. Isso, porém...
Quando, ao certo, ninguém diz. Mas garantem estar confirmado, embora nestas coisas nunca se saiba. Perante tal eventualidade, alardeando uma vez mais a sua habitual franqueza, os tomarenses urbanos vão-se mantendo discretos, enquanto vão admitindo mezza vocce que o indigitado sucessor não é realmente a melhor opção para este período tão agitado. Nem coisa parecida. Após o que enumeram um rol de inconvenientes, que vão da dicção aos resultados práticos conseguidos até agora. Mas enfim, concluem, o que tem de ser, tem muita força.
Pela minha parte, como sempre gostei de falar claro e urinar a direito, embora por razões óbvias tenha sido forçado a coibir-me durante a maior parte da minha vida, por motivos evidentes, comungo em geral de tais pontos de vista. Que posso resumir numa frase: Falta de substracto ético, de envergadura intelectual e de gabarito político. Dado que a questão da ética pode vir a levantar legítimas dúvidas, avanço desde já que um autarca responsável pela finanças municipais, que pelo menos desde 2007 nunca cumpriu a Lei das Finanças Locais, mandando auditar as contas por uma entidade externa, não me parece ter dimensão ética ou sequer moral para presidir a uma autarquia de quase 40 mil eleitores, com o passado de todos conhecido. As coisas são o que são. Não fui eu que as inventei.
Dito isto, posto que vivemos em democracia e que a todos deve sempre ser dada uma nova oportunidade, aqui declaro conceder ao propalado futuro alcaide o benefício da dúvida, mesmo tendo em conta que ele já demonstrou conviver mal com a critica e /ou as opiniões adversas. Feitios, diria o Solnado. Nestes termos, vou apostar uma tripla no totobola político local: 1 - Apesar de tudo, vai conseguir fazer um bom lugar e vencerá as autárquicas de 2013, com relativa facilidade; X - Terá um desempenho neutro, que obrigará os laranjas a procurar outras hipóteses, tudo dependendo em grande parte das outras forças em presença; 2 - Usará a sua reconhecida inteligência e capacidade analítica para concluir que no novo e agreste contexto, só lhe resta renunciar à liderança de outra candidatura, uma vez que "não há dinheiro nem condições para nada".
Caso não pudesse fazer uma tripla, apostaria na hipótese 2, por estar certo de que 2012 e 2013 vão ser de tal forma terríveis em termos sociais, que mesmo os mais afoitos pensarão várias vezes antes de avançar. Só os inconscientes assim não farão.
Há, é certo, aquela opinião muito difundida por estas bandas, segundo a qual, qualquer que seja o cabeça de lista, o PSD ganha sempre. Acontece que não é verdade. Quando o PS apresentou Pedro Marques como cabeça de lista, os laranjas perderam. Apesar do cabeça de lista socialista não ter então qualquer experiência política. E até conseguiu vencer uma segunda vez, apesar dos erros cometidos durante o primeiro mandato. Convém nunca esquecer este caso, nas hostes laranjas e nas outras, como forma de afastar afigurações, basófias e megalomanias...

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Portugal e a crise económica: comparações



Ilustrações copiadas do L'EXPRESS nº 3142, de 21/09/2011

A imprensa internacional de referência tem pelo menos uma vantagem: graças aos seus recursos humanos e materiais, consegue fazer jornalismo que não está ao alcance da comunicação social dos pequenos países, como Portugal. L'EXPRESS, por exemplo, tem uma tiragem média da ordem dos 400 mil exemplares, contra 140 mil do EXPRESSO. E no jornalismo como no resto, não há milagres. A qualidade paga-se.
Nestes quadros, elaborados com dados fornecidos pela União Europeia, temos em primeiro lugar a dívida pública em 2010 e em % do PIB.  Pior do que nós, a Grécia, que está mesmo na corda bamba; a Itália, que beneficia do facto de ser um dos países fundadores do então Mercado Comum Europeu; a Bélgica, idem, além de sede das instituições da UE; e a Irlanda que é um país anglo-saxónico, característica que ajuda muito na área da finança internacional. E cujo problema foi bancário e não de dívida pública.
No 2º quadro, verifica-se que, apesar do nosso enorme défice, afinal estamos na média europeia, em matéria de despesa pública, embora acima da Alemanha, da Itália ou do Luxemburgo. Consequência da nossa tradicional megalomania, que nos leva a ser excessivamente generosos, mas sempre com os dinheiros alheios. Como demonstra o quadro seguinte, onde surgimos com uma percentagem de cobrança de impostos superada por 7 outros países, que estão economicamente muito melhor.
O último quadro carece de uma explicação mais detalhada, para ser plenamente entendido. O que é importante, posto que comprova uma situação nunca antes evocada, pelo menos em Portugal. Comecemos pelo esclarecimento. A preto, a dívida pública de cada país, em % do PIB (Produto Interno Bruto). A vermelho, a percentagem dessa dívida detida por investidores estrangeiros. A Torneira indica a taxa de crescimento económico de cada país em 2010. O gráfico fornece um resposta fundamentada à pergunta "Afinal porque é que alguns países são atacados pelos "mercados", quando há outros em pior situação em termos de dívida pública?" É o caso, por exemplo, do Japão, em crise há 20 anos, que apesar de uma dívida pública percentualmente mais do dobro da portuguesa, não é alvo dos especuladores.
A resposta dada pela ilustração é que tal atitude dos mercados se deve aos detentores da dívida pública. Quase todos japoneses no caso do Japão, quase todos estrangeiros no caso português, metade/metade no caso grego. Conclusão: o nosso problema afinal não reside só ou sobretudo na dívida pública. Resulta sobretudo do facto de sermos um país de pelintras. Com muita basófia mas poucos euros...para comprar dívida pública. Que é como quem diz, para poupar. A acreditar na demonstração ilustrada, os tempos que aí vêm vão ser mesmo muito agrestes. Ai vão vão! Sobretudo para alguns autarcas, habituados ao império dos sentados e a gerir farturas...

É muito estranho

Passam-se na autarquia tomarense coisas muito estranhas. Para além da curiosa atracção pelas obras de elevado custo, em detrimento das de simples manutenção, ressalta igualmente o estranho facto de praticamente todas serem decididas sem plano de conjunto, "em cima do joelho", numa frase feita. A que convém acrescentar o facto agora vindo a público de os respectivos projectos deixarem muito a desejar. No da Envolvente ao Convento faltava um adequado enquadramento informativo de carácter arqueológico. No da Levada, foram agora forçados a efectuar as escavações que antes a autarquia recusara "por falta verbas". No da 3ª Fase do Flecheiro, eram tantos os buracos que a sua simples candidatura foi liminarmente rejeitada.
A juntar a tudo isto, tanto no executivo como na Assembleia Municipal, a oposição faz de conta que vai tudo bem. Ninguém levanta questões incómodas. Todos se dedicam a manobras de diversão, do tipo extensões de saúde ou portagens na A23 e IC3. Dinheiros, opções, projectos, obras, adjudicações, nada. Demasiado complicado? Ou algo mais? Cumplicidades, por exemplo, em regime de troca por troca?
No campo da obrigatória informação à população, a atitude do executivo que temos mais parece a de um qualquer órgão ditatorial. Contas nem vê-las, publicações obrigatórias, nada. Para se obter a lista dos telemóveis distribuídos pela autarquia e respectivos custos, houve necessidade de recorrer ao tribunal competente, apesar da prévia invocação do normativo legal. Atitude que depois se veio a entender, pois o município nabantino tem em actividade 123 telemóveis, quando autarquias vizinhas de dimensão semelhante se ficam pela metade...
Há ainda uma outra matéria em que já não se trata unicamente de suspeitas, mas de uma certeza que arrasta outras dúvidas graves. No que se refere à Lei das Finanças Locais, com origem na Assembleia da República e não no governo, pode-se escrever sem rodeios que o Município do Tomar não a cumpre nem nunca a cumpriu desde a sua entrada em vigor, em Janeiro de 2007.
 O seu articulado estabelece cinco obrigações legais, nunca obedecidas até ao presente:  1 - Princípio da transparência orçamental, que implica "prestarem aos cidadãos, de forma acessível e rigorosa, informação sobre a sua situação financeira"; 2 - Proposta à Assembleia Municipal de uma pessoa ou entidade para nomeação como encarregada da auditoria externa anual das contas municipais; 3 - Nomeação pela A. M. dessa pessoa ou entidade; 4 - Mandar auditar anualmente as contas municipais, por pessoa ou entidade externa ao município; 5 - Publicar, em suporte papel e no site da autarquia, o resumo das contas e o relatório da auditoria.
Dado que nenhum destes deveres legais foi cumprido nos últimos quatro anos, pelo menos, apesar de todos os eleitos juraram no acto de posse que cumprirão com lealdade as funções que lhes são confiadas, julgo haver lugar a fundadas suspeitas sobre a real situação económico-financeira do Município de Tomar e SMAS. Nestas condições, a menos que os responsáveis autárquicos resolvam explicar tudo publicamente nos próximos 15 dias, serei forçado a apresentar o caso ao Tribunal de Contas, ao ministério da tutela e à Assembleia da República, para os fins tidos por convenientes. Gosto muito de bananas, mas detesto os políticos do mesmo tipo. Sobretudo os da oposição oficial. Apesar de serem todos excelentes criaturas. Como políticos é que...

domingo, 2 de outubro de 2011

Foi no tempo das vacas gordas...


 Ainda me lembro bem. Foi no tempo das vacas gordas e de Portugal aluno exemplar. Havia erva aos montes, vinda de Bruxelas "à borliú".  Havia também um ministro do ambiente muito dinâmico. Um rapaz chamado Sócrates. Reinava em Tomar o barão Paiva, que conseguiu meter uma lança em África. Ser contemplado com o programa Polis. Uma iniciativa do governo PS, em princípio só para a rapaziada amiga da casa.
Foi um sucesso. Vieram carradas e carradas de erva. À custa dos contribuintes do norte da Europa.
Outros tempos. Saudosos tempos. Agora restam apenas alguns despojos. E muitas asneiras monumentais. 


Como esta situação bastante cómica, que não lembra ao careca, mas lembrou aos funcionários da honrada autarquia nabantina. Deus a abençoe!


Ou esta outra, muito adequada para mostrar que a edilidade não anda a dormir, nem os eleitos a tempo inteiro estão lá só para sacar o deles. Não senhor! Que ideia mais descabida! Cumprem a sua missão com assombrosa eficácia! Nem sequer mandam podar uma ou outra árvore, porque são esforçados defensores do ambiente e de uma cidade verde.


Outro aspecto demonstrativo do cuidado que os nossos autarcas têm com o património. Posso testemunhar que o cartel está assim há mais de dez anos. Por conseguinte, em conservação somos excelentes. Salvo quando se trate de alambores do século XII. Mas isso já é outra música...


Os moradores dos prédios estão tão satisfeitos com estas faixas à frente das janelas, que até me vieram pedir para assinalar o facto, como forma de agradecer à Câmara, esperando que tudo continue na mesma durante os próximos dez anos. No mínimo!


Aparecem até, por vezes, enquadramentos curiosos, como este da foto, com programas modernos, como o Polis, prédios velhos...e o resto.

Quem não perdeu tempo com essas minudências do Polis, da requalificação urbana e do realojamento das famílias em habitações precárias, foram os habitantes da aldeia de férias Los Gitanos. Foram-se modernizando e fizeram eles bem. Já há parabólicas por todo o lado, conforme documenta a fotografia. Agora só faltam as instalações sanitárias e os balneários, a bem da saúde pública. Mas isso fica para quando calhar...

Há também quem nunca acreditou no prometido realojamento. É o caso do patriarca Pascoal. Sempre foi repetindo "Já aqui estou há mais de 30 anos e já ouvi prometer isso muitas vezes.." À cautela providenciou uma nova "vivenda" em blocos de cimento. Pintada de azul céu e encimada pela bandeira portuguesa. Para o que der e vier. Há mar e mar, há ir e voltar. Há situações a resolver. Há prometer e falhar! Outra e outra vez!
Em Agosto passado, o QRENMais Centro, que gere e distribui os fundos europeus, chumbou o projecto da 3ª fase do Flecheiro, apresentado pela autarquia tomarense e que inclui o realojamento dos ciganos agora ali residentes. Coisa de quase dois milhões e meio de euros. Porque terá sido? Da parte da Câmara, moita carrasco! Da parte da oposição, moita carrasco! Em Tomar, o segredo continua a ser a alma do negócio. Julgam os senhores autarcas que temos...

sábado, 1 de outubro de 2011

Sanguessugas numa assembleia capada

A limpeza do Nabão, que não parece preocupar o parlamento local, está cada vez melhor. Esta foto foi tirada ontem ao fim da tarde. 24 horas depois o panorama continuava desolador.

Estive ontem a assistir a parte da Assembleia Municipal e vim de lá banzado. Aquilo já pouco ou nada tem a ver com o parlamento municipal do qual fiz parte nos anos 80 do século passado. Nessa altura, havia sempre bastante público a assistir, as propostas eram lidas em voz alta, debatidas e depois votadas, como mandam as boas regras da democracia. Agora não! Parece que estamos num daqueles areópagos de faz de conta, algures no hemisfério sul. As propostas do período antes da ordem do dia são idenficadas por uma letra, os eleitos falam do que lhes parece mais conveniente, e depois passa-se à votação em série. Os eleitores que assistem, como era o meu caso, ficam praticamente sem saber do que se trata. Nem sequer as declarações de voto são lidas. Ouve-se apenas dizer que existem e quem as entregou. Irra que é demais! Estamos, sem sombra de dúvida, perante algo que se pode designar como assembleia capada. Tem o nome, tem a forma, tem os custos, mas não cumpre cabalmente as suas funções. Em vez de procurar cativar os cidadãos assistentes, faz exactamente o inverso -tudo para os afastar. Aparece assim como uma alfurja de membros da ilustre tribo dos eleitos, que talvez por comerem habitualmente demasiadas ervilhas, têm afigurações. Julgam-se superiores a quem os elegeu. Não se consegue perceber em que se baseiam para assim pensarem, mas pronto. Estamos em democracia (aparente), onde cada qual ainda pode pensar como quer. Resta saber por quanto tempo mais...
E não adianta virem com a habitual desculpa de que tudo resulta do regimento. No meu tempo também havia tal documento, o que nunca impediu o debate franco e aberto das questões locais, sem subterfúgios legais. Neste mandato, pelo contrário, apesar dos atropelos aos usos democráticos, como os acima denunciados, não me consta que os respeitáveis parlamentares alguma vez tenham protestado, pelo menos em termos audíveis pela opinião pública.
Em contrapartida, votaram favoravelmente moções que envergonham qualquer europeu digno do nome. O que me obriga a esclarecer desde já que representarão quem quiserem; a mim não! Não patrocino poucas vergonhas. Exemplos? Após votarem por maioria contra a protecção do alambor templário, e por unanimidade contra as portagens na A23, aprovaram com apenas um voto contra e uma abstenção, uma execrável moção, exigindo estacionamento gratuito no ex-ParqT para suas excelências, nos dias em que haja reunião da AM. Até um conhecido militante laranja ficou agoniado. Sentado ao meu lado, foi desabafando que "Os tipos não podem votar em causa própria" e "Mas as senhas de presença não chegam para pagar o estacionamento?!"
Pobre gente! Pobre terra! Já tínhamos a ganância ante os fundos europeus, que nos vai arrastando para a falência. Já tínhamos certas práticas por baixo das mesas. Agora temos também os deputados-sanguessugas! Que mais nos irá acontecer até Outubro de 2013?

Um futuro nada agradável

Escrevi no post anterior ser muito provável que  -mesmo sem querer- quase todos os que ontem votaram contra a moção a favor do alambor tenham afinal assinado a sua própria certidão de óbito político, a partir das autárquicas de 2013. Acrescentei que a nova realidade não perdoa aselhices políticas. Trata-se agora de fundamentar tais afirmações.
Quanto à nova realidade, bastará sublinhar que somos agora praticamente governados pelos representantes da troika, que põem e dispõem. E que não tardarão a fazer como na Grécia. Usarão em simultâneo o cajado e a cenoura, do tipo "Estão a trabalhar muito bem, mas têm de fazer mais isto e mais aquilo..."
Neste quadro de autonomia política muito limitada, as perspectivas para 2013 não são mesmo nada animadoras para os actuais beneficiários da política local. No que concerne a Tomar, com ou sem redução de municípios, teremos, na melhor das hipóteses, menos 8 freguesias e menos 2 vereadores. Além disso, cereja em cima do bolo, passará a haver uma única lista para a autarquia, dela saindo depois os membros do executivo, escolhidos pelo cabeça de lista mais votado. O que significa a adopção entre nós do princípio anglo-saxónico "o vencedor leva tudo".
A partir de tais premissas, fácil se torna enumerar os enterros políticos que em Outubro de 2013 vão ocorrer.
Desde logo, oito presidentes de junta e outras tantas assembleias de freguesia, no mínimo, terão de procurar novos lugares, caso pretendam continuar na política. O que implica também que a Assembleia Municipal venha a perder metade dos seus deputados. Uma vez que haverá só oito presidentes de junta, e a lei diz que o número de vogais eleitos deverá ser igual ao dos presidentes de junta mais um, salvo qualquer mudança ainda a ocorrer, teremos a partir de Janeiro de 2014, uma AM de 17 membros, em vez dos 35 actuais. É muita gente pró galheiro!
Tendo em conta que, pela primeira vez, a eleição será de lista única, para a Assembleia Municipal, em Tomar não faltarão problemas. Deixando para melhor ocasião aquelas formações praticamente sem qualquer hipótese de vitória, a julgar pelos antecedentes (BE, CDS, CDU), restam outros tantos putativos vencedores.
Comecemos pelos que actualmente e há mais de dez anos ocupam o poder tomarense. Fazendo parte da cúpula governamental, tudo indica que, por sentimentalismo, Miguel Relvas queira continuar como presidente da Assembleia Municipal nabantina, em nome de uma certa ideia de fidelidade às suas raízes políticas. É humano e, como dizia por vezes certo tomarense típico, "Um homem não é de pau". Não havendo lista para o executivo, terá de ir em segundo no único boletim de voto, para evitar ter de ocupar a presidência da câmara, caso a sua lista vença. Alguém está vê-lo em segundo lugar, numa lista encabeçada por Rosário Simões? Ou por Carlos Carrão? E serão estes candidatos potenciais ganhadores, sabendo os eleitores antecipadamente que, se Relvas lá estiver, será só para praticamente para ornamentar? Com que programa? "O meu programa são as obras"? "Tomar não pode parar"? "No rumo certo"? E o dinheiro para isso? E os cadáveres entretanto deixados pelo caminho (Convento de Santa Iria, Parque de Campismo, Ciganos, Paredão do Flecheiro, Elefante Branco da Levada, Bronca do alambor templário, passivo superior a 80 milhões de euros)? Fala-se, é certo, da eventual candidatura do padre Mário. Basta porém ter em conta a recente afirmação do cardeal Policarpo, segundo a qual "Ninguém sai da política com as mãos limpas", para concluir que se trata de uma reles brincadeira. Uma daquelas piadas tomarenses de mau gosto, dizem fontes geralmente bem documentadas.
Vêm a seguir os socialistas. Atados de pés e mãos durante todo o mandato, (conforme aqui assinalei desde  o início), por uma coligação alimentar ou ganha-pão, serão responsabilizados por todos os cadáveres do PSD, apesar das suas repetidas tomadas de posição, que soam falso.
Também visivelmente sem qualquer programa, apesar das sucessivas proclamações sustentando o inverso, que lista apresentarão? José Victorino outra vez, apesar da sua precária saúde? Anabela Freitas, cuja ligação pessoal a Luís Ferreira a torna alvo predilecto dos IpT? Hugo Cristóvão, o menos comprometido com a lamentável coligação, com a qual nunca concordou? Algum deles poderá vencer, nas circunstâncias particularmente difíceis da campanha eleitoral? Com que argumentos? Com que caras não comprometidas com a coligação e as suas patetices?
E os Independentes? Após duas campanhas, em que, mesmo perante candidatos com menor currículo político, um ex-presidente da câmara não conseguiu recuperar os votos que antes o levaram ao poder, vão insistir terceira vez no mesmo candidato? Como vão justificar a evidente colagem ao PSD, durante todo este mandato, conforme testemunham sucessivas declarações de voto, em contradição com as decisões contando com o apoio dos IpT? Escolherão Graça Costa? Ou Jorge Neves? Ou João Simões? Ou o homem da Junceira? E o tal programazito consistente, sem o qual nada feito na nova realidade? E a inevitável divisão de votos com o PS? Haverá finalmente conversações, seguidas de acordo pré-eleitoral? Com que bases?
Como se pode ver, se a presente situação tomarense não tem nada para agradar, o futuro também não promete dias melhores. A não ser que os tomarenses resolvessem finalmente acordar e começar a trabalhar em prol da sua cidade. Mas isso equivale a pedir que os sinos de S. João toquem tão bem como os carrilhões de Mafra. Mas cada um é para o que nasce e eu nunca vi nenhum choupo a dar pêssegos. Dão é bastante algodão, irritante para as pessoas. E vão ornamentando a cidade...