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terça-feira, 18 de maio de 2010

OBRAS, ÓRBITAS E MUSEUS

Paiva habituou-nos a obras estrambóticas. De parques de estacionamento vazios a estádio transformado em campo de treinos; ou de pavilhão aleijado a paredão mal amanhado, há de tudo, infelizmente. Foi-se o Paiva, vieram os actuais, mas a mudança foi nenhuma. As obras estrambólicas continuam. Mijatório da Rotunda, Acesso pedonal ao castelo pela Mata que, salvo no dia da inauguração, só por engano algum turista percorrerá, arranjo da casa do guarda da Mata, parque de estacionamento de 32 lugares para ligeiros, a meia encosta, alargamento para três vias da Rua de Coimbra...é um autêntico mostruário de dinheiro mal arrumado.
Dinheiro mal arrumado, gasto por autarcas mal posicionados, salvo melhor e mais fundamentada opinião. Todos sabemos que, ao contrário do que parece, é a Terra que roda sobre si própria e, em simultâneo, orbita à volta do Sol. Pois no nosso entendimento, com os autarcas passa-se algo semelhante. Os melhores sabem que rodam à volta do orçamento camarário e orbitam em redor do orçamento de estado. Os melhores e só eles! Os outros, pobres labregos tanto em política como em economia, estão convencidos do contrário. Julgam-se o centro do sistema, à volta do qual orbitam o orçamento de estado, o orçamento da autarquia e os cidadãos contribuintes. Donde o esbanjamento bárbaro de dinheiros públicos, num faz e desfaz que mete dó...e chega a dar raiva!
Nestas condições, já nada nos poderá surpreender. Nem mesmo a ideia de juntar mais um elefante branco ao zoo municipal, onde já vive à larga, entre outros, o Núcleo de Arte Contemporânea.
Somos vários a alertar contra as armadilhas dos antigos Moínhos da Ordem, mais tarde Lagares d'El-Rei, mais tarde ainda património da sociedade Manuel Mendes Godinho e Filhos. Mesmo assim, a actual maioria compósita parece que teima em levar avante o "Museu polinucleado da Levada", uma herança do consulado Paiva. Museu da Moagem, Museu da Electricidade, Museu da Fundição. Coisita para um pouco mais de 6 milhões de euros. Fora as usuais derrapagens e outras alcavalas do mesmo estilo, bem como os subsequentes encargos de manutenção e funcionamento.
A notícia do PÚBLICO, acima reproduzida, constitui, pensamos nós, um excelente guardanapo para os senhores autarcas se irem limpando enquanto pensam, ou vice-versa. O melhor museu industrial da Europa, em 2001, principal recurso turístico da cidade de Silves, fecha as portas 9 anos mais tarde, deixando uma ardósia de 6,5 milhões de euros = um milhão e trezentos mil contos! Já nem dinheiro tinham para pagar a água e a luz...
Como derradeira hipótese de solução chegaram a propor à autarquia a modesta renda mensal de 11 mil euros = 2 mil e 200 contos. Só 26 mil e 400 contos por ano, vejam lá! Uma autêntica miséria! Uma gota de água, num oceano de necessidades! Mesmo assim, diz a notícia, a ideia "não foi bem aceite pelas forças políticas locais." Uns ignorantes os algarvios! Vejam lá que até procuram ganhar dinheiro com os turistas! Deviam era seguir o exemplo dos tomarenses. Gente nobre e rica, alheia às baixas tarefas deste mundo, entendem que o mais proveitoso para todos é ajudar a custear as férias dos outros, com plantas e desdobráveis gratuitos, estacionamento gratuito e subsídios com fartura. Alguém há-de pagar !
E depois aparece na TV o banqueiro Ulrich, do BPI, está-se mesmo a ver que descendente de alemães, a prognosticar que estamos quase a bater contra a parede. Mais um inadaptado, é o que é. Língua viperina, ainda por cima!
Ao que relata o jornalista, em Silves interpretaram à letra o velho dito popular "Deixa arder que é na cortiça!" Quanto tempo faltará para que, na mesma situação, em Tomar sejamos forçados a dizer "Deixa arder que é na Levada e há por lá muita água?"

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

DUAS DE CULTURA

SEM COMENTÁRIOS...
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Numa altura em que todos os meios geralmente bem informados já perceberam que a actual maioria autárquica não tem qualquer projecto integrado para o futuro, pareceu-nos oportuno publicar este título do PÚBLICO de sábado passado. Isto porque os nossos autarcas insistem pesadamente no museu da Levada, certamente convencidos de que o governo virá a assumir as custas. Desenganem-se. Tendo constatado que, mesmo nos museus nacionais de renome, 90% dos orçamentos respectivos são para pagar aos funcionários, a nova ministra decidiu transferir quanto antes a maior parte deles para as autarquias. O das Caldas da Raínha está a servir de cobaia.
Entretanto, em França, uma nova lei prevê transferir para as regiões ou para as autarquias a propriedade e a gestão operacional dos monumentos até agora tutelados por Paris. É a nova tendência à escala europeia. A braços com cada vez mais despesas e menos receitas, os vários governos procuram descartar-se, da maneira mais airosa possível, de tudo o que possa ser administrado a nível regional ou local, de forma a poderem apresentar orçamentos mais aceitáveis. Vão portanto contra a corrente os que em Tomar continuam a cuidar que vale a pena dispender milhões numa instalação museológica, que depois não poderá funcionar, por falta de recursos, ao mesmo tempo que recusam encarar a possibilidade de virem a tutelar o Convento de Cristo, afinal o único monumento local com algumas hipóteses de viabilidadee económica. Apenas com algumas hipóteses. Nada de ilusões bacocas. Com os actuais trinta e tantos empregados, cujas funções ninguém conhece com precisão, nem valerá a pena pensar em semelhante coisa. Cobrar entradas, vigiar e limpar, é uma coisa. Gestão turística operacional, é outra, muito diferente. O Mundo não pára e quanto mais tarde nos fizermos à estrada, mais tarde chegaremos onde pretendemos...
Desiludam-se igualmente os que porventura estejam convencidos de que os problemas financeiros que enfrentamos como país se resolverão sem sacrifícios e sem medidas dolorosas para todos. Não se trata de um palpite meu. É a opinião praticamente unânime dos economistas ibéricos, difundida pelo EL PAÍS de ontem. Vale a pena pensar a sério no assunto. Enquanto é tempo.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

E TEIMOSOS AINDA POR CIMA...

Do PÚBLICO de hoje, página 34, esta peça, assinada por Manuel Fernandes Vicente:
"TOMAR TERÁ UM MUSEU DE ARQUEOLOGIA INDUSTRIAL EM 2012

O início de 2o12 deve marcar na cidade de Tomar a abertura ao público do Museu de Arqueologia Industrial, um investimento de cerca de seis milhões de euros que irá recuperar e adaptar a funções culturais o espaço junto à ponte velha sobre o rio Nabão conhecido por Lagares d'el Rei. A candidatura para apoio do Quadro de Referência Estratégica Nacional já foi aprovada e o projecto está concluído, prevendo-se que até ao final de Outubro a Câmara de Tomar possa estar em condições para lançar o concurso para a execução das obras.

O investimento traduz-se na recuperação e readaptação das instalações que se situam no centro histórico de Tomar, entre o rio Nabão e uma levada de água construída pelos monges das ordens religiosas instaladas no Convento de Cristo que, para além de permitir o uso mais adequado da água do rio, possibilitou a criação de um desnível de 2,5 metros de altura entre o lado da levada e a parte do rio capaz da produção de energia aproveitável. A duração das obras deverá alongar-se ao longo de um período de 18 a 24 meses, pelo que o cenário mais provável é que o museu de arqueologia industrial só se torne uma realidade nos primeiros meses de 2012. E isso se os indispensáves trabalhos de acompanhamento arqueológico que vão acompanhar as obras de readaptação museológica não detectarem mais vestígios, como tem acontecido bastantes vezes, sempre que se escava o solo em Tomar.

"É uma obra essencial para Tomar e vai dar uma nova finalidade aos moínhos de épocas muito atrasadas, provavelmente do século XVI ou mesmo antes, recuperando-se também moagens mais recentes, da viragem do século XIX para o século XX, onde se preparava a farinha de trigo e retirava a casca do cereal", afirma Corvêlo de Sousa, presidente da câmara de Tomar, notando que a cidade foi uma das primeiras urbes portuguesas a dispor de energuia eléctrica para uso nas suas fábricas."

O comentário de "Tomar a dianteira"

Para além do português muito pessoal (ver negritos) usado pelo ilustre jornalista, há outras questões que será certamente útil colocar perante os eleitores tomarenses. Desde logo esta: O acordo de concessão da Estalagem de Santa ou caducou, ou está prestes a caducar, mas a actual maioria entendeu ser mais consensual (e entendeu bem, quanto a nós), deixar essa tarefa para a futura vereação, a saír das próximas eleições. Nestas condições, como se justifica um concurso de 6 milhões de euros a poucos meses do final do mandato? Se por acaso os vencedores das autárquicas de 11 de Outubro forem outros, e não concordarem com tal investimento, por considerarem que se trata de mais um elefante branco, poderão fazer o quê?

Há depois outra situação. Perante tudo isto, que andam a fazer os vereadores e deputados municipais da oposição? Como quem cala consente, e têm estado e andado calados, significa que concordam? Foi feito algum estudo de mercado, que permita avaliar se o previsto investimento e as subsequentes despesas de funcionamento e manutenção poderão vir a ser recuperadas, mesmo parcialmente? Tudo indica que a autarquia terá de arcar com pelo menos milhão e meio de euros, logo à cabeça. Dispõe desse montante? Vai fazer mais um empréstimo? O actual presidente da câmara afiança que "É uma obra essencial para Tomar". Baseia-se em que dados precisos? Que retornos efectivos se prevêem? Ouvem-se pela cidade os habituais zunzuns, mais frequentes em período eleitoral, que relacionam os concursos públicos e as obras, com as consideráveis despesas partidárias. Sem pretender lançar qualquer suspeita, até por falta de elementos palpáveis, serão só boatos, ou haverá mais qualquer coisa? A dualidade de critérios entre o caso da Estalagem e este dos museus da Levada permite algumas dúvidas, mas oxalá estejamos enganados. Mas uma vez que, a julgar por esta notícia, até a velha roda do Mouchão já foi promovida a moínho de água, tudo é possível... Eles andam aí !!!

terça-feira, 25 de agosto de 2009

ENA TANTO MUSEU EM PERSPECTIVA!





Adicionando as propostas já conhecidas, se forem todas implementadas, vamos ter não se sabe bem quando (nestas coisas quem tinha razão era aquele ferroviário madrileno: quando lhe perguntaram a que horas estava prevista a chegada do Puerta del Sol a Paris, foi lesto -Ya lo verá usted!), 5 museus. Museu dos Tabuleiros, Museu da Fiação, Museu da Fundição, Museu da Electricidade e Museu da Moagem. Pelo menos! Porque há outros casos pendentes. Por exemplo o espólio lapidar da UAMOC, actualmente no Claustro da Lavagem, no Convento de Cristo, e o que resta do Museu Municipal João de Castilho.
Em relação a este último, ouvimos tanta coisa que resolvemos ir ver a situação real, que vamos tentar descrever, de forma tão neutra quanto possível.
Por alturas do 25 de Abril havia em Tomar dois pequenos museus dependentes da autarquia -o Museu Abraão Zacuto, na Sinagoga, e o Museu João de Castilho, no primeiro andar do magnífico edifício da Comissão Municipal de Turismo. Este englobava essencialmente o legado Martins de Azevedo, composto de pintura dos séculos XIX e XX, bem como alguma escultura e alguns quadros mais recentes. Nos final dos anos 80 do século passado, no mandato de Jerónimo Graça, do PSD, a colecção de pintura foi toda apeada, por motivo ou motivos que ainda hoje estão por esclarecer. Nunca mais foi reposta. Em mandatos posteriores, foi até parcialmente desmantelada, com vários empréstimos de duvidoso retorno, bem como com quadros usados para decorar outras dependências camarárias.
De tal forma que actualmente a situação é a seguinte: 1 - Não há Comissão Municipal de Turismo. 2 - Ninguém sabe, salvo se nos conseguirem provar documentalmente o contrário, onde se enciontram alguns elementos do antigo espólio do citado museu municipal. 3 - A sala pequena de exposições é agora e desde os anos 90 do século passado o gabinete do vereador...do PS (ver foto de cima);
4 - A sala grande está como armazém de embalagem de obras de arte.(Ver foto do meio) 5 - O serviço de museologia da câmara funciona num prédio de renda, ali por cima da antiga Taberna dos Passarinhos, na Travessa de Gil de Avô (ver foto de baixo).
Questionada sobre a data em que os tomarenses poderão visitar novamente o legado Martins de Azevedo, a simpática técnica municipal que nos acompanhou, para abrir a porta, lá nos foi explicando que as obras estão a ser restauradas, que a família do legatário se queixou da falta de condições do salão do turismo, reconhecendo, todavia, que os dois quadros estilo Arcimboldo, actualmente no Salão Nobre dos Paços do Concelho, não estão num local adequado em termos de conservação.
E admitiu que andam a tentar encontrar no cidade um sítio conveniente, para então voltarem a expôr o que resta do legado. Quando as galinhas tiverem dentes, dizemos nós.
Temos assim que a actual maioria autárquica, certamente deslumbrada com os fundos de Bruxelas, prepara-se para embarcar, designadamente, na autêntica aventura dos museus da Levada, quando afinal nem sequer tem sabido gerir devidamente a triste herança recebida, que aparentemente apenas serviu para todos (maioria e oposição) se instalarem principescamente. Haja saúde e coza o forno!

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

NA GEÓRGIA: ESTALINE PARA TURISTAS

José Estaline, numa pintura da época. Estilo "realismo soviético". O retratado foi idealizado, pois com aquela idade ainda não era marechal. E quando se promoveu ao posto máximo, o aspecto físico já era bem diferente. Ditames da época.
Uma das guias do Museu Estaline, visivelmente mais interessante (quanto a nós) que o patrono da casa onde trabalha, apesar do seu ar demasiado guloso.

Lembrados dos sarrabulhos em Santa Comba, por causa da estátua do Botas, da Praça do Botas, do Museu do Botas, ou da Casa do Botas, pareceu-nos útil reproduzir o texto seguinte. Útil para evitar que nos possam acusar de só falarmos de França ou dos USA, serve também para contentar alguns saudosistas do "Zé dos Bigodes", que ainda por aí há.
A CIDADE NATAL DO DITADOR ESTALINE TEM UM MUSEU PENSADO PARA AGRADAR A TODOS
"O museu dedicado a José Estaline (1878-1953) na sua cidade natal, Gori, sobreviveu à derrocada da URSS com a categoria de Museu Estatal da Geórgia, apesar dos dirigentes deste país renegarem o legado do seu famoso compatriota. Ainda assim, a novos tempos, novas perspectivas. Robert Maglakelidze, director da instituição desde há ano e meio, considera a sua tarefa como uma contribuição para "o fomento do turismo na Geórgia", aspirando a que todos os visitantes fiquem "contentes". "Dantes", disse-nos ele, "o museu exaltava a figura do líder. Agora centra-se na sua época."
"O grande chefe militar Estaline nasceu na cidade de Gori". Era esta a frase com que se começava dantes a visita da exposição, explica o director. Agora inicia-se com esta: "Há quem diga que Estaline foi um déspota; há quem diga que foi um tirano; há quem diga que foi um líder." A nossa guia, vestida com farda militar da época, recita com exactidão o novo texto preparado pelo seu director. "Aqui vêm os que gostam de Estaline e ficam contentes; vêm os que odeiam Estaline e também ficam contentes; e vêm o que não o conhecem ou são indeferentes a Estaline e ficam igualmente contentes", afirma Maglakelidz.
"A fórmula de tal êxito consiste em falar do fenómeno Estaline. ... ... A história do nosso fenómeno começa numa pobre casa de Gori", continua o director. E pelas explicações que a guia vai debitando, alguns visitantes podem até chegar a acreditar que foi o próprio Estaline o iniciador da destalinização.
No museu, o tesouro mais apreciado é uma colecção de objectos pessoais do ditador. Uma selecção de 25 desses objectos foi evacuada por Maglakelidze durante a guerra de Agosto de 2008. Conta-nos ele que, temendo que caísse alguma bomba sobre o museu, em 12 de Agosto formou-se uma comissão local, que embalou o mais precioso: um casaco, um cachimbo, uma caixa de cigarros Herzegovina Flor, as botas altas, um gorro, uma caneta e um recipiente no qual Estaline queimava os documentos secretos. Para não despertar a atenção, Maglakelidz apanhou um taxi com o tesouro metido numa caixa e dirigiu-se para Tbilissi, onde entregou a caixa a outra comissão especial, criada sob a égide do Ministério da Cultura. Em Setembro, quando se restabeleceu a normalidade, o director regressou a Gori com as relíquias, desta vez escoltado por dois carros da polícia com a respectivas sirenes a uivar. "Tudo pelo desenvolvimento do turismo, porque os turistas devem encontrar aqui os objectos pessoais de Estaline. Se em Gori não houvesse este museu de Estaline, os americanos já teriam fundado um. Por isso é melhor tê-lo aqui, na sua terra natal." Ainda assim, reconhece que a guerra de 2008 provocou uma acentuada descida de visitantes, cujo total foi de 19.000. Como o museu tem 44 funcionários, houve 432 visitantes por cada um. Consequências do "socialismo real".
Há igualmente uma loja, na qual se vendem os vinhos preferidos de Estaline, as camisas preferidas de Estaline, fotografias de Estaline e da casa onde nasceu Estaline, e livros sobre Estaline. Tudo pelo turismo."

Pilar Bonet, correspondente de El País em Gori - Geórgia
Título, nota prévia, tradução e adaptação de A. R.
Fotos AFP