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terça-feira, 29 de dezembro de 2009

NÃO ESTARÃO AMBOS OS LADOS EQUIVOCADOS ?

É raro abordarem-se aqui problemas nacionais. Acontece porém que, neste caso da negociação professores/ministério, a questão é também local. Assim sendo, e porque há alguns docentes que fazem o favor de nos ler, pensamos poder ter alguma utilidade dar aconhecer a nossa opinião.
Segundo o jornais diários, Paulo Guinote, nosso colega de profissão e da blogosfera (www.aeducaçãodomeuumbigo.blogspot.com), terá dito ontem que, com a actual ministra, o ME está transformado numa sucursal do ministério das finanças. A ser verdadeira tal notícia, o colega só agora terá descido à terra, pois desde há muitos anos que todos sabemos o óbvio -qualquer ministério, em qualquer país democrático, é apenas uma sucursal do das Finanças, se por sucursal entendermos um serviço forçado a agir de acordo com as determinações da casa-mãe, neste caso o primeiro-ministro e o ministro das finanças.
Na realidade, o que parece estar a acontecer em Portugal, com as negociações entre os professores do ensino básico e secundário e o ministério da educação, é um duplo equívoco. Ambas as partes partem do princípio que a outra quer realmente negociar e ambas estão enganadas. Não por vontade própria, mas tão somente porque nem a ministra nem os sindicatos ousam dizer à outra parte a verdade, toda a verdade e nada mais que a verdade. Donde o inevitável impasse, a partir de dado momento negocial.
Os sindicatos não têm tido a coragem de dizer que quanto menos avaliação burocrática melhor e que todos os professores devem chegar ao topo da carreira, sejam excelentes, bons, médios ou nem isso. A ministra, por sua vez, rodada nestas coisas do sindicalismo e da política, parece ter-se convencido de que os sindicatos estão agora em nítida posição de fraqueza, pelo efeito conjugado da já longa luta e da crise, pelo que será a ocasião ideal para lhes sacar um acordo, mesmo que coxo. Por isso, ainda não lhes disse uma evidência -o tempo das vacas gordas acabou; o governo de agora não tem capacidade financeira que permita suportar a chegada ao topo da carreira de todos os professores, nem sequer da maioria. Consequentemente, tem de haver uma selecção mais ou menos rigorosa e uma série de obstáculos que poucos conseguirão transpôr.
Resta aos sindicatos, em vez de aguardarem que seja o governo a avançar soluções, apresentar opções realistas, que contemplem os severos limites orçamentais. Enquanto o não aceitarem e fizerem, bem podem esperar por novos ministros, novos negociadores ou novos governantes. A dada altura estarão mais uma vez entre a espada e a parede ou, se preferirem, entre o martelo e a bigorna: têm de ser seleccionados de alguma maneira, para que nem todos cheguem ao topo. Tal como em qualquer outra profissão, pública ou privada.
Um dos sindicatos da classe tem uma longa experiência de acordos contra os quais votou, que algum tempo depois resolve apesar disso defender. Talvez não fosse pior ir aprendendo algo com a experiência e procurar chegar agora ao consenso possível, seguido finalmente de assinatura. Se o não fizer, temo que dentro de um ou dois anos esteja a negociar um acordo ainda pior, como sempre defendendo então este que agora se recusa a assinar.
Quanto aos negociadores do ministério, que tal mudarem de método e proporem aos sindicatos uma hipótese aliciante, do tipo "poderão transitar ao escalão imediato todos os docentes que nos cinco anos imediatmente anteriores tenham tido uma classificação não inferior a bom e um horário completo com mais de três turmas" ? Matavam-se assim uns quantos coelhos com uma única cajadada, e já não haveria a tal questão tão controversa das vagas. Sobretudo quando se pensa a sério e de forma rigorosa no que aí vem... (menos alunos, menos turmas, menos disciplinas, menos opções, menos escolas, menos verbas disponíveis...).
Sem pretender alarmar, caso ainda estivesse no activo e fosse dirigente sindical, começaria desde já a estudar com atenção o que sucedeu nas forças armadas portuguesas nestes últimos 25 anos. Cá por coisas.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

O PROBLEMA DA JANELA E A CIDADANIA



Neste caso do apelo para tentar preservar a Janela do Capítulo, há um outro grupo social relativamente homogéneo que não está a ficar mesmo nada bem na fotografia de conjunto. Refiro-me aos meus queridos, apreciados e admirados colegas (e, não obstante, amigos e patrícios), professores. Somos à roda de 600 na cidade e no concelho. Tudo cidadãos oficialmente de alto gabarito intelectual. Todos bacharelados ou licenciados, alguns mestrados, um ou outro doutorado. Com vencimentos ao nível da Europa do Sul, como convém, somos a maior concentração de inteligêngia deste concelho e deste País, por assim dizer. Pois mesmo assim, aqui do concelho aceitaram até agora dar a cara, subscrevendo o referido apelo, meia dúzia de aposentados e um colega ainda em exercício. É só verificar no post "Salvar a Janela do Capítulo" (ir ao arquivo, do lado direito do écran, e clicar no título do post), para tirar qualquer dúvida.
Se fosse para um aumento de vencimento, uma redução de horário, a exigência de menos alunos por turma, a simplificação da burocracia, a adopção de medidas disciplinares enérgicas, a suspensão da avaliação, a progressão automática na carreira, a anulação dos quadros de zona pedagógica, etc, etc, etc, tínhamos aí dezenas de milhares de docentes na rua, a barafustar contra o ministério e contra o governo. Até íamos de autocarro até Lisboa e tudo. Agora para defender o património que nos foi legado ? Temos mais que fazer.
Entreajuda, fraternidade, bem comum, solidariedade, deveres de cidadania, reciprocidade ? Que é isso ? Neste mundo em que vivemos é cada um para si e Deus para todos, ou pelo menos para quem quiser.
Podia continuar por esta via cáustica, falando de visitas guiadas ao Convento, por exemplo, mas não irei por aí. Nunca apresentei facturas ou esperei agradecimentos de quem quer que seja. Agora já estou demasiado vivido para mudar no essencial. Prefiro por isso usar fragmentos alheios de que gosto particularmente.
Célestin Freinet, por exemplo, escreveu que um professor não ensina só, nem sobretudo, o que sabe e o que está no programa, mas sim aquilo que é. Já um conhecido padeiro, que era também filósofo espontâneo nas horas vagas, Venceslau Platão Farinha de sua graça, (estas coisas não se inventam), adorava repetir que as mesmas massas, nos mesmos moldes, cozidas nos mesmos fornos, durante os mesmos tempos e às mesmas temperaturas, produzem sempre os mesmos bolos ou pães. E parece-me que tinha toda a razão Não será certamente por mero acaso que os alunos são cada vez piores, dos autarcas é melhor nem falar, os deputados são como se sabe, o governo valha-nos Deus, e o primeiro ministro então...
Na natureza, nada se perde, nada se cria, tudo se transforma. O mesmo sucede em cada micro-sociedade.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

E OS MÉDICOS ? E OS MÉDICOS ?

Le Monde Education, 14/10/09, página 11

Nota prévia
Na sequência das nossas traduções sobre a formação de professores, houve logo quem nos questionasse sobre os médicos e o ensino da medicina entre nós. O que se compreende. São muito bem pagos, ou pelo menos têm fama disso, consituem uma elite, ainda não estão proletarizados (por enquanto?) e exercem uma profissão cujo acesso é extremamente difícil e artificialmente limitado.
Aqui em Tomar a dianteira, como é sabido, temos os meios de saber e a coragem para o dizer. Fomos por isso procurar e publicamos agora, em duas traduções, parte daquilo que conseguimos.
O quadro acima mostra, da esquerda para a direita e de cima para baixo: 1ª coluna - designação oficial de cada uma das 32 unidades de ensino da medicina em França; 2ª coluna - percentagem dos alunos dessa unidade classificados entre os primeiros mil no concurso de internato (ECN -Prova classificadora nacional); 3ª coluna - relação proporcional professores/alunos nessa mesma unidade de ensino; 4ª coluna -total de professores catedráticos da unidade; 5ª coluna - total de alunos autorizados a matricular-se no 2º ano em cada unidade de ensino.
Resulta deste quadro que, tendo a França um pouco mais de 60 milhões de habitantes, e Portugal 10 milhões, dividindo os totais por 6, obtemos 5 unidades de ensino da medicina em Portugal. Estamos quantitativamente bem. 940 professores catedráticos de medicina. Onde é que eles estão ? 1173 estudantes matriculados no 2º ano de medicina. Alguma vez lá chegaremos ?
Nestas condições, porque é com factos concretos que nos poderemos entender, terão razão os médicos portugueses, quando dizem, aos doentes interessados em ir tratar-se no estrangeiro, "Fazemos tão bem ou melhor que lá fora" ? A dúvida metódica é sempre útil para o progresso da ciência.
"QUANDO AS UNIDADES MÉDIAS DE ENSINO MÉDICO COMPETEM DE IGUAL PARA IGUAL COM AS DE PARIS"
"Os estudantes de medicina, sobretudo os do 6ºano, vão auscultar com muita atenção os resultados do inquérito comparativo realizado pela "Agência de avaliação da investigação científica e do ensino superior (AERES em francês), em 2008, o primeiro deste tipo que se faz em França, a partir das performances em formação e em investigação científica das 32 faculdades de medicina com cursus completo.
Ninguém pode impedir todos aqueles que querem pensar que as faculdades do alto da tabela são melhores que as outras. E no entanto não é assim. Como sublinha a própria AERES, no seu estudo já citado, "as faculdades de medicina não mostram diferenças importantes em pessoal hospitalo-universitário; e os seus respectivos resultados tanto em formação como em investigação, divergem bastante". Assim, um forte enquadramento hospitalo-universitário e numerosas unidades de investigação permitem resultados elevados nessa área, mas não obrigatoriamente na formação dos estudantes. Não é, portanto, porque não dispõe dos meios necessários para desenvolver unidades de investigação, que uma pequena faculdade de província deixa de formar bons médicos.
"Não há uma relação real entre a capacidade para ser um bom médico e o resultado obtido no concurso de internato. Esse concurso mostra quem obteve os melhores resultados, mas não diz se virão a ser igualmente bons médicos", sublinha Jean-François Dhainaut, presidente da AERES.
As tabelas classificativas também não têm em conta nem os critérios sociais, nem os factores geográficos dos estudantes
(estudar em Paris, nos seus arrabaldes ou na província, não são realidades comparáveis). Não será portanto surpreendente que uma grande universidade, com uma importante relação proporcional professor/estudante, obtenha performances de formação superiores às de uma faculdade mais pequena. Assim, o exercício comparativo só é "justo" quando efectuado com critérios similares. Como é que se pode comparar, por exemplo, uma faculdade com mais de 400 professores catedráticos, com uma outra que tem quatro vezes menos ?
Inversamente, este tipo de comparação torna-se muito interessante quando mostra que as faculdades de média dimensão, como Tours, Clermond-Ferrand ou Nantes, que têm só cerca de 130 professores catedráticos e 200 estudantes por ano (do segundo ao sexto, uma vez que a selecção foi efectuada no final do primeiro ano), jogam praticamente de igual para igual com Paris-Descartes, com os seus 461 catedráticos e 377 alunos por ano. Conseguir bons resultados com muitos recursos, é bom. Obter bons resultados com menos recursos, é melhor.
A eficácia das faculdades refere-se unicamente aos resultados dos seus estudantes respectivos nos exames. A sua eficiência, pelo contrário, correlaciona esses mesmos resultados com os meios ao seu dispor, designadamente em enquadramento docente. Noutros termos, à relação proporcional professores catedráticos/alunos admitidos, que é afinal a do numeros clausus.
Consciente dos actuais limites do seu trabalho, a AERES já está a analisar uma nova vaga de questionários, cujos resultados serão talvez tornados públicos no final do ano universitário, e terão em conta factores mais qualitativos e menos numéricos. Para além da comparação entre faculdades, o que interessa à AERES é igualmente encorajar alternativas de formação, para os estudantes que chumbam no final do primeiro ano. "O afluxo de estudantes ao primeiro ano da licenciatura consome meios muito importantes que poderiam ter sido afectados à formação posterior", sublinha Benoît Schlemmer, vice-presidente da Conferência Nacional dos Directores das Faculdades de Medicina.

Ma.D. Le Monde
Nota prévia, tradução e adaptação, António Rebelo

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

MUDAR DE ASSUNTO PARA RESPIRAR UM POUCO 2

(Continuação da peça anterior)
"Segundo Jean Ehrsam, inspector-geral da educação nacional e também presidente do júri único de Letras Modernas (Francês e Literatura Francesa), não há sequer a sombra de qualquer dúvida -"O CAPES continua a ser um concurso dificílimo, cujo nível de exigência é extremamente elevado. Os candidatos aprovados são excelentes. Estamos totalmente satisfeitos com os 750 recrutados este ano em Letras Modernas. Foram seleccionados após quatro provas escritas e três provas orais, todas muito complexas, o que pressupõe uma aprofundada cultura literária, que repouse sobre uma consciência precisa das relações entre língua e literatura, bem como um bom conhecimento dos métodos e dos programas de ensino do francês, tanto nas EB 3 como nos liceus."
Conhecimentos e aptidões que, tanto em Letras Modernas como nas outras disciplinas, não se adquirem do dia para a noite. Nem mesmo num ano inteiro. O relatório final do júri de letras deste ano sublinhas esse aspecto: "É absolutamente indispensável uma preparação a montante do ano do concurso. Não é em seis meses de memorização intensiva e mecanizada que se conseguem preparar os vários exames, adquirindo em simultâneo o método e os saberes necessários a qualquer futuro docente de francês."
Solange Siri que conseguiu este ano o CAPES de inglês, confirma a opinião do júri: "É indispensável uma sólida bagagem cultural para se apresentar ao CAPES. A regularidade do esforços constitui frequentemente a diferença, mas nem sempre é suficiente. Não basta ficar-se pelo "empinanço", é necessário "empinar" com método. Dado que já tinha abandonado o sistema escolar, foi ainda mais difícil para mim fazer essa preparação. Elaborei um planeamento de revisões pessoais, além das aulas preparatórias na universidade. Trabalhei todos os dias das 7 às 22 horas, incluindo os fins de semana."
Por vezes o trabalho desenvolvido é insuficiente. Eva, titular de um "master 1" em História, com menção "muito bem", reprovou nas provas orais do CAPES de História e Geografia, apesar de uma prévia e cuidada preparação intensiva -
"Estudei arduamente durante vários e longos meses. Tive todavia a pouca sorte de fazer as orais logo no começo do ano escolar e ainda não estava preparada."
Após tantos e tão pesados esforços, a recompensa nem sempre está ao nível dos sacrifícios feitos. "Os primeiros anos de docência dos jovens titulares do CAPES são frequentemente difíceis, admite o supra referido inspector-geral. Têm por vezes muitas dificuldades para encontrar a conexão entre aquilo que lhes exigiram nos exames do concurso e a realidade quotidiana da profissão docente. Tanto mais que os novos docentes se queixam de não serem apreciados por aquilo que realmente valem. Tenho a impressão que se colocou a fasquia demasiado alta para o recrutamento e que, uma vez no exercício da profissão, se utiliza apenas uma pequena parte das capacidades desenvolvidas. Há portanto um nítido desfasamento entre o que nos pedem para sabermos fazer e aquilo que fazemos na realidade.
Um problema singularmente agravado pela carência de reconhecimento social do estatuto da docência. Numa sondagem credível de 2008, 93% dos professores do 3º ciclo e do secundário consideraram que a sua profissão estava desvalorizada na sociedade contemporânea. Um sentimento de desclassificação que os novos titulares do CAPES têm muita dificuldade em aceitar, após a preparação de um concurso que pode ser tudo menos uma simples formalidade.
"Há dois anos, fazia o meu ano de estágio numa EB3 para a classe média-alta no departamento de Essonne (grande cintura de Paris). Durante uma aula, um aluno do 8º ano virou-se para os seus condiscípulos e disparou -"Quando se é professor é porque se falhou na vida. Foi a minha mãe que me disse e ela é engenheira." Tinha acabado de conseguir o CAPES e devo admitir que me pareceu mal; mas calei-me, contou-nos Julie Miquel, professora de História-Geografia numa EB 3 dos arrabaldes de Paris.
Kaël Serreri - Le Monde
Nota final: De forma que é assim, queridos companheiros de sacrifícios diários. Tudo devidamente lido e ponderado, não acalentem demasiadas esperanças. Com Sócrates ou qualquer outro primeiro-ministro; com a Lurdinhas ou com qualquer outra ministra da educação; vão-se habituando à ideia -ou se é avaliado de forma muito rigorosa e igual para todos a nível nacional à entrada na profissão, ou se faz a avaliação em exercício, na verdade pouco adequada para a nossa maneira de pensar e de agir, porque de origem anglo-saxónica quando nós somos latinos conservadores e geralmente obstinados. Mas não se pode continuar a fingir durante uma vida inteira.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

MUDAR DE ASSUNTO PARA RESPIRAR UM POUCO

Le Monde, com dados do Ministério da Educação francês
Fazemos uma pausa nas questões locais, para respirar e ganhar alento, que o que aí vem é bem sombrio.
Dado que vários professores, de todos os graus de ensino, fazem o sacrifício de ler este blogue com alguma regularidade, parece útil tentar situar-nos em relação à Europa além-Pirinéus. Tanto mais que o anterior ano lectivo foi bastante agitado, por causa de um primeiro-ministro arrogante e de uma ministra da educação obstinada e sádica. Ou não terá sido bem assim ?
Em França há todos os anos dois concursos de recrutamento para professores do 3º ciclo do básico e do ensino secundário, aos quais podem apresentar-se os titulares de pelo menos um mestrado (master 1) na especialidade à qual concorrem. Ao mais difícil, a agregação, só se apresentam geralmente os fora de série, que pretendem transitar mais tarde para a docência no ensino superior. Os titulares da agregação, os chamados agregados, fazem menos horas semanais e têm vencimentos mais elevados que todos os outros.
O outro concurso, relativamente mais fácil, constitui a via de entrada na docência para mais de 65% dos professores do secundário. É o CAPES (Certificado de aptidão para o professorado do ensino secundário). Relativamente mais fácil do que a agregação, mas ainda assim de um nível que não está ao alcance da maioria. Como se pode ver na ilustração acima, e será abordado mais adiante, com no mínimo três provas escritas anónimas e iguais em todo o país, seguidas de pelo menos duas orais, a selecção é duríssima. Julgamos não haver necessidade de traduzir o quadro, pois as disciplinas são semelhantes às nossas. Quanto aos números, da esquerda para a direita, temos primeiro os inscritos, a seguir os que realmente se apresentaram às provas escritas, depois os admitidos às provas orais e finalmente os que foram aprovados e mais tarde recrutados como professores titulares, que ganham menos e fazem mais horas semanais que os agregados, mas são mais bem pagos que os não titulares e fazem menos horas que eles.
Eis uma reportagem do Le Monde datado de hoje, 14/10, no seu "Dossier Educação".

"CAPES -MUITOS CANDIDATOS E MUITOS ESFORÇOS MAS POUCOS ESCOLHIDOS
Muito selectivo, o concurso que abre as portas do ensino secundário exige um alto nível de preparação, desfasado em relação ao verdadeiro exercício da profissão docente"

"Pus entre parêntessis um ano da minha vida para preparar o CAPES. Durante nove meses trabalhei no mínimo oito horas por dia. E nem uma única vez, entre Setembro de 2008 e Julho de 2009, saí à noite ou me levantei mais tarde." Lauranne Bassoul, 23 anos e recentemente aprovada no CAPES de Letras Modernas (Francês e Literatura Francesa), confessa que, caso tivesse chumbado, "não teria certamente a coragem necessária para voltar a fazer o mesmo sacrifício".
O CAPES, que é a base do recrutamento da maioria dos docentes do secundário (66,5% dos professores titulares em 2008/2009 tinham o CAPES), é igualmente um concurso muito selectivo que exige uma preparação opressiva, realidade que nem sempre é reconhecida por todos. Numa altura em que se debate a revalorização da profissão docente, há quem tenda a esquecer que as portas das EB 3 e do secundário não se abrem tão facilmente como por vezes se pensa.
Este ano apresentaram-se 37.810 candidatos para apenas 5.494 vagas nos diversas disciplinas ou grupos disciplinares. No cômputo geral de todas as especialidades, cada candidato dispunha portanto de menos de 15% de hipóteses de aprovação final. Menos do que a percentagem de admitidos no exame do final do primeiro ano de medicina (Em França, para respeitar a igualdade republicana dos cidadãos, não há número clausus na admissão ao primeiro ano de medicina, mas sim uma prova muito selectiva no final do ano.), no entanto conhecido pela sua extrema selectividade (apenas 16,8% de aprovações em 2008).Tanto mais que, se algumas disciplinas do CAPES pouco procuradas têm percentagens de admissão mais favoráveis (150 lugares para apenas 440 candidatos, em Letras Clássicas (Grego e Latim), a maior parte são muito menos acessíveis. Em Filosofia houve este ano 1122 candidatos mas apenas foram aprovados 72."

(Continua)