segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

TENTAR COMPREENDER A CRISE

QUESTÕES PRÉVIAS

1 - Quando, há cerca de 2 meses, escrevi aqui que havia duas crises a nível local, foram muitos os que simplesmente não acreditaram. Como quase sempre acontece, escolheram a via mais fácil -negar tudo aquilo que não se entende. Anestesiados pela comunicação social que temos, a qual ocupa com desporto -particularmente futebol- o espaço que devia dedicar à política e à economia, não será nos próximos anos, nem lá perto, que deixaremos de ser um país de ignorantes em matéria de economia, com todos os malefícios daí resultantes. Impõe-se, portanto, tentar fazer o ponto da situação, pois não é por ignorarem, deliberadamente ou não, os movimentos do planeta, que este deixa de evoluir à volta do sol, com as consequentes mudanças climáticas que a todos atingem.

2 - Ao escrever que havia, no caso do nosso concelho, duas crises distintas -a nacional, agravada pela internacional, e a local, muito anterior e crónica- sabia bem o que estava a afirmar. Decidi, porém, omitir a justificação técnica, pois esta implicava o recurso a noções teóricas demasiado complexas para a generalidade dos seguidores deste blogue. Decorridos dois meses, aquilo que temia está agora a ocorrer. A crise mundial está a passar da esfera financeira para a da economia real. Significa isto que sou forçado a explicar, de forma abreviada, as noções de "esfera financeira" e "esfera da economia real". Exactamente aquilo que decidi omitir em Dezembro, designadamente pelo motivo já exposto.
Em síntese, designa-se por esfera financeira, ou finança, a área do "dinheiro pelo dinheiro", ou seja, o conjunto de actividades em que se procura valor acrescentado sem passar directamente pela produção ou comercialização de bens consumíveis. É o caso dos bancos, das bolsas, das seguradoras, dos fundos de investimento, das sociedades gestoras, dos títulos do tesouro, da dívida pública, entre outros. A restante actividade económica deve agrupar-se na chamada economia real, aquela de que todos dependemos e na qual estamos envolvidos, quer queiramos quer não.
E AGORA?
Resulta do anterior que não era muito difícil, há pelo menos dois meses, afirmar com segurança que a evidente, grave e crónica crise tomarense é distinta e anterior à actual crise mundial, embora esta possa contribuir para a agravar. Bastava e basta pensar que a crise mundial foi desencadeada e alastrou, até há pouco, essencialmente na esfera financeira, com início no lamentável caso dos "subprimes" americanos. Ora sucede, como sabem todos os que dominam pelo menos rudimentos de economia, que em Tomar não existe tal coisa, pelo menos desde o desaparecimento da Ordem de Cristo, de saudosa memória. Assim sendo, era e é óbvio que a crise tomarense tem outras causas e integra-se apenas na economia real.
Alheios a esta realidade, os autarcas que temos, tanto os da maioria como os da oposição, consideraram oportuno "apresentar serviço", atitude que se compreende, visto estarmos em ano tri-eleitoral. Foi, todavia, um grave erro, dado que, na caça como na economia, não basta disparar -é preciso acertar no alvo.Ora sucede que, tanto as medidas adoptadas como as propostas pelas oposições, carecem de realismo. Na altura, classifiquei-as de paliativas, quando deviam ser curativas; agora ouso ir mais longe -foram medidas de simples cosmética, apenas na mira das futuras eleições.
Apenas cosméticas, porque se tratou de evidente "efeito mimético", do tipo "os governos e as outras autarquias apresentam medidas anti-crise, portanto temos que fazer o mesmo". Apenas cosméticas porque não alteram nem vão alterar o que quer que seja, na cidade ou no concelho. Nem essa era a intenção, como já disse. Apenas cosméticas, enfim, porque agora que a crise começa a atingir seriamente a economia real, com o inevitável afrouxamento do consumo e o galopante aumento do desemprego, para níveis desconhecidos entre nós até agora, a autarquia tomarense está desarmada. Gastou as munições que tinha (e, se calhar, até as que não tinha), em tiros sem qualquer resultado, pois foram apontados a alvos errados e apenas imaginados.
Com muito menos alarido, e designadamente sem conferências de imprensa "para inglês ver", o Município de Ourém, igualmente governado pelo PSD mas com outra capacidade económica, decidiu uma medida muito mais prática e de efeito imediato -Está a fornecer diariamente refeições gratuitas a todas as famílias carenciadas que as solicitam. Mas também é verdade que por ali se cobra muito mais IRC e IRS do que em Tomar e lá habitam milhares de cidadãos calejados por dezenas de anos de emigração. O tal conhecimento do vasto mundo...
Mas então, perguntará o leitor, não se aproveita nada daquilo que os autarcas decidiram ou apresentaram para discussão? Não é bem assim. Salva-se, pelo menos, a intenção inicial. Ao decidirem apresentar propostas, os seus autores reconheceram (ainda que, se calhar,
contrariados), haver uma crise tão grave que não tem precedente conhecido. É um princípio. Agora terão de encontrar coragem, bagagem e vontade para irem até ao fim: A) - Determinar quais são as causas reais da específica crise tomarense; B) -Encontrar e aplicar as medidas (naturalmente dolorosas para quase todos) indispensáveis para curar tal doença crónica. Também poderão optar pela usual apatia. Se assim acontecer, as coisas vão agravar-se até níveis nunca antes conhecidos, podendo até chegar a movimentos populares menos pacíficos.
António Rebelo

4 comentários:

Anónimo disse...

Mais uma Câmara Municipal do país decidiu dar apoio à natalidade: o Concelho de Barcelos.

Só para que se saiba o Concelho de Barcelos é o que em Portugal mais Freguesias tem - 99 no total e está situada numa zona do país onde tem havido saldos positivos demográficos.

Esta autarquia decidiu dar entre 750€ e 1250€ por cada filho nascido nas Freguesias do seu interior.

Em Tomar a Câmara do Dr.Corvelo (PSD) recusou liminarmente uma proposta do Arquitecto Vitorino (PS) de dar a cada nascimento em Tomar entre 400€ e 600€, no âmbito do combate à crise.

Mais uma oportunidade perdida, no sentido correcto do apoio às famílias do Concelho.

Anónimo disse...

Concordaria com facilidades dadas a empresas para localizarem em Tomar as suas fábricas.
Concordaria com o criar de condições que combatam a especulação imobiliária e os preços excessivos da habitação em Tomar.
Concordaria com a criação de condições para a fixação de médicos no nosso concelho.
Concordaria com a criação de estruturas de apoio aos alunos de Tomar e que estão em Tomar.
Concordaria com muito mais coisas mas não estou a fazer o meu "programa".

Essa coisa do subsídio à natalidade cheira-me que não resolve nada.

Emprego estável, habitação condigna e a preço correcto e condições para uma vida digna, isso sim, era trabalho.

Mas não estou a ver nem o PSD nem o PS interessados nisso!

Anónimo disse...

Em Tomar a Câmara do Dr.Corvelo (PSD) recusou liminarmente uma proposta do Arquitecto Vitorino (PS) de dar a cada nascimento em Tomar entre 400€ e 600€, no âmbito do combate à crise.


Até onde vai a propaganda incorrecta dos socialistas.

A proposta foi apresentada pelo Sr. Carlos Silva que é o vereador em funções do PS.

Assim se tenta fabricar um candidato!

Anónimo disse...

ACTUALIDADE!

" Os donos do capital vão estimular a classe trabalhadora a comprar bens caros, casas e tecnologia, fazendo-a dever cada vez mais, até que se torne insuportável (...) o débito não pago levará os bancos à falência, que terão que ser nacionalizados pelos Estado"
Karl Marx, 1867


(frase que aparece no Expresso de sábado)